Ora, direis, observar aranhas

Clementine apareceu há um mês aqui em casa. Instalou-se sem pedir licença. Teceu uma teia comprida e agora fica pendurada, de cabeça pra baixo, entre a mesa de café da manhã e o pé de jasmim. É do tamanho da minha unha (do polegar da mão), incluindo as patas esticadas. A minúscula aranha canadense me ensina a arte de bem viver.

Clementine (pronúncia francesa, por favor) é uma tecelã. Pela manhã é ativa e serelepe. Faz reparos na teia, inspeciona os cantinhos e amplia seu território. Domina a técnica do rapel de um jeito único: mira o chão e desce velozmente, assunta um pouco no assoalho de madeira e retorna tão rapidamente como desceu.… leia mais

Cry me a river

Joesley chorou ao ser preso.
Geddel chorou na cadeia.
Assim como choraram, na tribuna e nos palanques, Eduardo Cunha, Lula, Delcídio, Collor, Sergio Cabral.
Nós, os pagadores de impostos, não nos compadecemos perante lágrimas de criminosos disfarçados de empresários e políticos.
É que já choramos demais.
Choramos pela roubalheira desenfreada,
pelos hospitais públicos caindo aos pedaços,
pelos remédios que apodrecem sem uso,
pelos livros jogados em lixeiras,
pelas escolas sucateadas,
pela falta de apoio à ciência,
pelas universidades à míngua,
pelos fundos de pensão dizimados,
pela Petrobras loteada,
pela Amazônia devastada,
pela distribuição de cargos a apadrinhados tecnicamente incompetentes,
pelas estradas esburacadas,
pelos policiais mortos,pelas bibliotecas e teatros abandonados.
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Máscaras, karmas e estratégias

A data de 5 de setembro de 2017 deveria ser batizada como “O dia das máscaras caídas”. Além de Joesley Batista, que se revelou em toda a extensão de sua miséria moral, os acontecimentos serviram para mostrar que o procurador geral da República manchou a própria biografia com as trapalhadas que envolveram a delação de Batista. O dia terminou com uma denúncia que finalmente expôs os monumentais prejuízos causados pelo grupo petista liderado por Lula e Dilma.

Sobre Joesley, há pouco a acrescentar: ele mesmo se revelou nas gravações que fez. Suas palavras de lama e sua pobreza de caráter estão explícitas em cada sílaba que pronunciou.… leia mais

O Brasil que espia e aguarda

“O Brasil é muito impopular no Brasil” – Nelson Rodrigues

A tarde, num parque de Montreal, estava adorável. O público se esticava no gramado, esperando a apresentação das três principais orquestras da cidade. Mais de 400 músicos e cantores no palco. O sol se punha, pincelando de rosa e laranja o céu clarinho. Vivaldi, Leonard Cohen e Orff enchiam o ar. De repente, o coração deu um salto, veio até a boca e sussurrou algo nos meus ouvidos: os primeiros acordes de uma cantilena. Carregava consigo uma voz de uirapuru, peixes coloridos e a lua surgindo sonhadora e bela em meio às árvores da Amazônia imensa.  … leia mais

A ressurreição do Brasil Colônia

Este é um post para você, estudante da Universidade de Brasília que luta por um Brasil melhor e frequenta os bares da capital do País. Mas também serve para todos os jovens guerreiros da justiça social que proliferam nas cidades brasileiras e adotam postura semelhante. Leia até o final, pois o último parágrafo é a azeitona dessa empada que lhe oferto.

Desculpe o mau humor, mas é que hoje abri o Facebook e me deparei com posts de amigos do RJ, de SP e de Belém reclamando de sujeira nas ruas, feitas por jovens estudantes cuja noção de cidadania se restringe a “lacrações”, atos espetaculares, frases de efeito, memes e outros quetais.… leia mais

A boa fé do cidadão

Já dizia o bom e velho Aristóteles: a virtude é uma disposição interna para agir corretamente e que o cidadão aprimora pelo hábito. Demorou alguns séculos para que os gregos antigos aperfeiçoassem o conceito de areté, que traduzia a noção de excelência no cumprimento do papel que cada indivíduo ou coisa tinha na sociedade. Os filósofos participaram dessa evolução.

Faltam filósofos no Brasil. Não os tivemos jamais. Nos dias atuais, então, em que filósofo de verdade é artigo raro no planeta todo, no máximo caminham entre nós uns aspirantes a guru, arremedos de pensadores, incapazes de ocultar a vaidade e a sede de curtidas no Facebook.… leia mais

Cenas de jardim

Entrei no Jardim Botânico de Montreal com os olhos arregalados. Alamedas limpas, iluminadas pelo sol, cobertas de canteiros.  Na minha imaginação, trazia meu amigo Túlio Mendhes comigo. Imaginação eu disse? Diante de um roseiral, ouvi uma voz risonha, com sotaque mineiro: “Parece um quadro de Fragonard ou os canteiros de Maria Antonieta em Versailles, não?”. Túlio? “Em carne, osso e cadeira de rodas para servi-la, madame”. Não é possível. Minha vida virou um filme de Kurosawa.

Túlio já estreou no passeio contando piadas, ouvindo histórias e fazendo cara de impressionado. Olhamos juntos as rosas brancas, as vermelhas como sangue, as amarelo-ouro e as róseas que brotavam de cercas, grades e grandes vasos.… leia mais

Blue Jay

1920. Alberta, no atual Canadá.

Sete meses foi o tempo que a mãe de Pássaro Azul precisou para terminar o vestido. A neve chegou e se foi, as flores cobriram a planície e agora, somente com o sol de verão e as fortes chuvas, pôde concluir a roupa de lã vermelha, cor de sangue vivo, com duas fileiras de pequenos enfeites de porcelana em forma de gota. Quem olhasse de longe poderia confundi-las com fios de pérolas. Os olhos da mãe sorriram quando se demoraram sobre o peitilho do vestido bordado de miçangas brancas e canudinhos prateados. Quem, entre os Nakoda, teria vestido com tal beleza uma filha?… leia mais

Túlio e a árvore de bordo

Outras vezes ouço passar o vento. E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. (Caeiro)

Diante de minha janela há uma árvore de bordo. Durante o inverno, seus galhos secos e gelados estavam cobertos de neve. Pareciam mortos. Eu a vi renascer na primavera. Primeiro uns brotos verde-claros, seguidos de mini flores amarelas, folhas de cor púrpura e agora verdes. Está linda, no auge de sua vida. O tronco tem casca grossa, com ranhuras em verde e marrom. Dentro dele corre uma seiva grossa e doce. Fecho os olhos e passo os dedos nas folhas.… leia mais

Aprendiz de feiticeiro vai às compras

– Olha a alma aí, gente! É baratinha, está em promoção.

– Moço, quanto custa a alma de primeira?

– Veja bem. É uma alma de primeira, cultivada. Não é fácil mantê-la. E o custo de manutenção, então? Altíssimo! É preciso muito engenho e experiência para manter essas. Não quer ver nossos exemplares mais simples?

– O que você tem em termos de almas mais simples?

– Ah, temos vários modelos em promoção. Venda por atacado, você sabe. O mercado está cheio desse produto. Não é tão valorizado.

– Quero uma dúzia. Como faz para ela não fugir?

– Depende. Tem vários jeitos, mas nossos técnicos aconselham que, tão logo ela se acostume a você, mantenha-a sempre alimentada.… leia mais