Babel

A intervenção num Rio de Janeiro em ruínas soou como socorro tardio, desconjuntado. E teve o efeito colateral de  desnudar aos últimos viciados em otimismo o que deveria ser óbvio: os problemas do microcosmo fluminense são os do conjunto do País. Sua solução? Quase utopia.

Apesar do fio de  esperança que insiste em sobreviver, sabemos que são de difícil implementação as medidas profundas, estruturais, que poderiam arrancar o Rio e o Brasil da falência generalizada em que mergulharam.

Tarefa imensa aos olhos dos cidadãos comuns, que anseiam por soluções definitivas mas também querem o alívio a curto prazo.  Essa espera nos perturba, exaure e a cada dia nos rouba a alegria, as boas maneiras, os traços básicos de civilidade.… leia mais

Simplicidade

Silence tells me secretly everything (Let the sunshine in). 

Sinto um prazer imenso quando os domingos nascem mergulhados em silêncio. É como se as coisas simples da vida acordassem junto com a gente.

Brasília é pródiga em passarinhos piando ao amanhecer. Ouvi-los, uma delícia reservada a ouvidos onde o amor fez morada.

Se há vento para agitar as folhas das árvores, tenho-o como lucro na contabilidade da vida. E se o ruído de algum carro quebra o encanto das horas, cogito seriamente liderar uma cruzada nacional para que só se saia de carro aos domingos em casos muito urgentes, como parto iminente, perna quebrada, caso de doença grave ou vontade de cantar “Good morning starshine” num conversível.… leia mais

Quase Ministra

O Teatro Brasilis apresenta sua nova produção, “Quase Ministra”, peça em quatro atos, plágio mal feito da obra de Machado de Assis.
 
Personagens:
 
Cristiane Brasil, deputada, candidata a ministra do Trabalho, carente de noção, compostura, vergonha e decoro.
 
Roberto Jefferson. Pai de Cristiane, raposa experimentada na política, negociador matreiro.
 

Michel Temer. Dublê de presidente da República e ator de filmes da década de 30.

Resumo dos Atos

Ato 1 – Praça dos Três Poderes

Depois de uma conversa secreta, na qual se trocou cargos destacados por apoio às reformas – uma prática bastante comum nos arraiais de Brasília – Roberto Jefferson e Michel Temer bateram o martelo: a filha de Jefferson seria a nova ministra do Trabalho.… leia mais

De cidade e de flor

Quando cheguei, meio metro de neve cobria as calçadas. Nas ruas silenciosas, um vento gelado fazia doer os ossos do rosto. A paisagem de cartão de Natal encantou meus olhos tropicais.

Aprendi de imediato que os canadenses são valentes. Inverno é a sua época mais produtiva: todos estudam e trabalham. O frio a ninguém paralisa – faz parte da vida. Os vizinhos não se intimidam de, às 7 da manhã, com o termômetro a -15 graus, saírem, munidos de pás, para praticamente desenterrar os carros e abrir o caminho obstruído pela neve. Trabalho encerrado, colocam a pá no porta-malas e seguem.… leia mais

Copo de passarinho

A casa era de madeira e a mesa havia sido feita por meu pai, marceneiro amador. Sobre ela, a toalha de motivos natalinos, bordada em ponto-cruz por minha mãe.

No canto da sala estava a árvore de Natal. Um pinheiro de galhos fininhos que, no dia 1 de dezembro, a mãe decorava com flocos de algodão e delicadas bolas de vidro colorido que ela guardava em uma caixa, no alto do guarda-roupa.  Os enfeites de vidro eram muito frágeis. Uma distração e eles escorregavam das mãos, espatifando-se em mil pedaços. Era uma honra subida receber a tarefa de colocar uma das mini jóias no pinheirinho.… leia mais

Os sofrimentos do jovem universitário

Um rapaz pernambucano viralizou nas redes sociais com um texto de formatura sobre os “sofridos” anos da universidade. O assunto é destaque nos portais de notícia, foi louvado pelos inteligentinhos como “melhor texto de formatura de todos os tempos” e suscitou debates sobre “o que estamos fazendo com nossos meninos universitários”.

Agradeci a Zeus, Odin e Hórus por mais uma demonstração prática de nossa indigência intelectual e de como estamos nutrindo uma geração incapaz de lidar com as questões mais corriqueiras da existência.

A imprensa nacional – agora pautada pelas redes sociais – prefere contrariar Millôr Fernandes e ampliar a voz dos idiotas.

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Hamelin

A passagem de Lula pelo Rio de Janeiro me pôs um gosto amargo na boca. Espetáculo deprimente que me deixou entre a incredulidade e a náusea.
 
Como traduzir o desgosto que senti por testemunhar que tantos brasileiros nada aprenderam com a história recente? Uma desesperança anestesiante por ver parte de nosso povo compactuar, apoiar e incentivar o crime, a corrupção e o populismo mais barato.
 
A voz rouca de Lula despejava uma avalanche de informações manipuladas, abusava de baixezas, argumentos tortos, frases de efeito, provocações baratas. A reação de estudantes e professores? Delírio.
 
O ex-presidente insistia na velha estratégia de incentivar o ódio entre os brasileiros, transferia responsabilidades, apresentava-se como herói e salvador.
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O luxo de ter um deputado honesto

O discurso de Tiririca pôs em êxtase o Brasil.

Em seu primeiro e único pronunciamento, o deputado-palhaço se converteu em novo herói na terra do sebastianismo crônico.

Ouso ocupar a cadeira de psicanalista da Nação para arriscar uma explicação: a da velha projeção dos desejos. Quem ansiava dizer tais coisas diretamente aos congressistas se sentiu vingado. Alma lavada e enxaguada, já diria Odorico Paraguaçu.

 Afinal, o que disse o deputado para tocar a alma brasileira?

Que o Congresso é majoritariamente constituído por homens insensíveis, que não se preocupam com o povo. Nós pensamos assim.

Anunciou que estava decepcionado. Nós também estamos.

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As mãos de minha Mãe

Sonia Zaghetto

Tardezinha, hora do Ângelus, e minha mãe orava no quintal de nossa casa pobre. Mal soavam as seis horas da tarde e ela tudo deixava, cerrava os olhos devagar e fazia o sinal da cruz. Herança portuguesa a de minha mãezinha.

Diante de seus santos silenciosos, do terço e dos cadernos em que anotava os nomes dos sofridos, ela orava. E suas preces sopravam bálsamos de amor sobre mim e meus irmãos, meu pai, parentes distantes, afilhados, comadres e vizinhos. Como amava aquele coração.

Lembro de suas mãos, que pousavam na minha testa nos dias em que a asma me aniquilava.… leia mais

O último dia

Quando a Indesejada das gentes chegar
 (Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar.

Consoada. Manuel Bandeira

 

O dia virá.  Será breve ou uma agonia longa que me fará ansiar pelo fim?

Meu velho coração – que começou a bater quando eu ainda nem sabia de mim – então silenciará. Os dedos esfriarão e a cor fugirá dos meus lábios.… leia mais