Hamelin

A passagem de Lula pelo Rio de Janeiro me pôs um gosto amargo na boca. Espetáculo deprimente que me deixou entre a incredulidade e a náusea.
 
Como traduzir o desgosto que senti por testemunhar que tantos brasileiros nada aprenderam com a história recente? Uma desesperança anestesiante por ver parte de nosso povo compactuar, apoiar e incentivar o crime, a corrupção e o populismo mais barato.
 
A voz rouca de Lula despejava uma avalanche de informações manipuladas, abusava de baixezas, argumentos tortos, frases de efeito, provocações baratas. A reação de estudantes e professores? Delírio.
 
O ex-presidente insistia na velha estratégia de incentivar o ódio entre os brasileiros, transferia responsabilidades, apresentava-se como herói e salvador.
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O luxo de ter um deputado honesto

O discurso de Tiririca pôs em êxtase o Brasil.

Em seu primeiro e único pronunciamento, o deputado-palhaço se converteu em novo herói na terra do sebastianismo crônico.

Ouso ocupar a cadeira de psicanalista da Nação para arriscar uma explicação: a da velha projeção dos desejos. Quem ansiava dizer tais coisas diretamente aos congressistas se sentiu vingado. Alma lavada e enxaguada, já diria Odorico Paraguaçu.

 Afinal, o que disse o deputado para tocar a alma brasileira?

Que o Congresso é majoritariamente constituído por homens insensíveis, que não se preocupam com o povo. Nós pensamos assim.

Anunciou que estava decepcionado. Nós também estamos.

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As mãos de minha Mãe

Sonia Zaghetto

Tardezinha, hora do Ângelus, e minha mãe orava no quintal de nossa casa pobre. Mal soavam as seis horas da tarde e ela tudo deixava, cerrava os olhos devagar e fazia o sinal da cruz. Herança portuguesa a de minha mãezinha.

Diante de seus santos silenciosos, do terço e dos cadernos em que anotava os nomes dos sofridos, ela orava. E suas preces sopravam bálsamos de amor sobre mim e meus irmãos, meu pai, parentes distantes, afilhados, comadres e vizinhos. Como amava aquele coração.

Lembro de suas mãos, que pousavam na minha testa nos dias em que a asma me aniquilava.… leia mais

O último dia

Quando a Indesejada das gentes chegar
 (Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar.

Consoada. Manuel Bandeira

 

O dia virá.  Será breve ou uma agonia longa que me fará ansiar pelo fim?

Meu velho coração – que começou a bater quando eu ainda nem sabia de mim – então silenciará. Os dedos esfriarão e a cor fugirá dos meus lábios.… leia mais

Mulato Inzoneiro

As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.
Gonçalves Dias
Fiz um post de mocinha, trabalhado no otimismo, mas as redes, tão azedas, não captaram nadinha. Uns 600 se empolgaram. E o restante??? Só curte quando tem treta!
 
Reclamaram reclamaram. Por email e pelo zap. Como odeiam o meu Brasil, que chamam de terra de araque: “Ô país mal ajambrado, de gente mal-educada. Tudo aqui está tão errado. Melhor chamar a armada”. Heim? Não!
 
A coisa de fato anda feia, sem muito motivo de riso. Proteste, critique e não cale, mas note que o chão anda liso. Já disse Mister Miyagi (ou o Platão, já não sei) esse trecho que os sabidos deveriam tratar como lei: se o homem se torna odiento, vira alimento de bicho – daqueles bem pequeninos, que comem por dentro da gente.
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Enquanto Agonizo

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória,
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.
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O homem puro

O homem puro existe. Ele habita o maravilhoso mundo das redes sociais, um ambiente onde os rostos não tem rugas, as cinturas não acumulam gordura e errar não é humano.

Os puros são abundantes. Um coletivo de almas formosas que passaram a vida a fazer o bem, nunca cometeram um deslize, jamais pronunciaram algo de que se envergonhariam profundamente.

Os puros jamais foram tolos, injustos, irresponsáveis, cruéis, insensíveis, estúpidos, mesquinhos, invejosos. Por isso julgam com tanta severidade. Falta-lhes familiaridade com o erro. São puros. Não erram.

Os puros gostam de sangue. Humano e em grandes quantidades. Não se contentam com a humilhação do impuro.… leia mais

As aventuras de Artemísio Mangabeira no País da Roda-Viva

Meu amigo Artemísio Mangabeira, passista da Vila Isabel, foi às compras. Dado à leitura de Machado de Assis, ultimamente deu de falar como o Bruxo do Cosme Velho.
 
– O senhor me faça o obséquio de me embalar para viagem um quilo de bom senso?
 
– Tá em falta. Respondeu Otávio Tupiassu, 82 anos de idade e há mais de 40 dirigindo um sebo de livros na avenida Passos. Na sua mocidade era normal usar obséquio, rapé e bom senso.
 
– Ando sem sorte. Praga de algum mangueirense. Já procurei pela cidade toda. Ritinha, a minha filha, sugeriu uma tal feira do rolo.
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O poeta e a criminosa

Decidi começar uma vida de crimes. Já me vejo retratada por Gloria Perez em alguma novela futura, as redes sociais ardendo, psicólogos opinando, amigos envergonhados e William Bonner, com ar tão grave, a ler um editorial sobre o fim da inocência. Se apanhada, eu, criminosa não arrependida, direi que a culpa é dessa tal poesia que entra pelos olhos da gente, instala-se como vírus e nos faz amar os que estão mortos há tempos. Gente que se tornou estátua.

É que chutaram o rosto do poeta. Os óculos voaram longe e caíram ao lado do banco. O homem de camisa listrada os recolheu à sacola e saiu andando.… leia mais

Pelo caminho…

Nesse longo caminho já vi flores de primavera. Rosinhas miúdas, margaridas e cravos, lírios e tulipas traduziram a inocência dos primeiros tempos – tão breves.

Logo chegou o verão, com seus calores e risos. Tempo de despreocupação, de roupas curtas, suor no rosto, namoros e sonhos.

Agora caminho neste começo do outono. Há uns silêncios profundos em mim. Vontade de mais ouvir que falar. Certezas? Apenas que sei tão pouco da vida e das coisas. Penso nos olhos dos filhos e na pilha de livros por ler e reler. Borges, Cecília, Shaw, Rosa, Wilde, Orwell, Shakespeare, Woolf, Machado, Camus e os meus russos chamam por mim.… leia mais