Vidas de Montreal (Tardezinha)

I’ve seen things you people wouldn’t believe. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Roy Batty, Blade Runner
Vi coisas que vocês não acreditariam. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

 

Ton-don-doom. Station Place des Arts.

O sinal sonoro do metrô avisa que a partida é iminente.

O casal  sorri cúmplice. Ela veste uma saia florida, botas pesadas e um casaco bege. A bolsa cinza está um pouco desgastada. O rapaz, de jaqueta de couro e cabelo espetado fala com ela em mandarim. Os dois mantém os olhos fixos um no outro.… leia mais

Ballet de borboletas

Elas estavam pousadas nos caules longos cobertos de flores. Eram muito atraentes, com suas asinhas pintadas de laranja, preto, branco e amarelo. Irresistíveis mesmo. Olhei-as bem de perto e aproximei a câmera. O gesto as assustou e elas levantaram voo todas juntas. Pela primeira vez na vida eu me vi em uma cena de filme: cercada por uma nuvem esvoaçante de borboletas coloridas. Por alguns segundos fui Titania, a rainha das fadas de Shakespeare, e em torno de mim bailavam pequenos seres alados.

O redemoinho de cores que voavam logo encontrou um roseiral e o encanto se quebrou. Voltei a ser mortal.… leia mais

Ora, direis, observar aranhas

Clementine apareceu há um mês aqui em casa. Instalou-se sem pedir licença. Teceu uma teia comprida e agora fica pendurada, de cabeça pra baixo, entre a mesa de café da manhã e o pé de jasmim. É do tamanho da minha unha (do polegar da mão), incluindo as patas esticadas. A minúscula aranha canadense me ensina a arte de bem viver.

Clementine (pronúncia francesa, por favor) é uma tecelã. Pela manhã é ativa e serelepe. Faz reparos na teia, inspeciona os cantinhos e amplia seu território. Domina a técnica do rapel de um jeito único: mira o chão e desce velozmente, assunta um pouco no assoalho de madeira e retorna tão rapidamente como desceu.… leia mais

O Brasil que espia e aguarda

“O Brasil é muito impopular no Brasil” – Nelson Rodrigues

A tarde, num parque de Montreal, estava adorável. O público se esticava no gramado, esperando a apresentação das três principais orquestras da cidade. Mais de 400 músicos e cantores no palco. O sol se punha, pincelando de rosa e laranja o céu clarinho. Vivaldi, Leonard Cohen e Orff enchiam o ar. De repente, o coração deu um salto, veio até a boca e sussurrou algo nos meus ouvidos: os primeiros acordes de uma cantilena. Carregava consigo uma voz de uirapuru, peixes coloridos e a lua surgindo sonhadora e bela em meio às árvores da Amazônia imensa.  … leia mais

A ressurreição do Brasil Colônia

Este é um post para você, estudante da Universidade de Brasília que luta por um Brasil melhor e frequenta os bares da capital do País. Mas também serve para todos os jovens guerreiros da justiça social que proliferam nas cidades brasileiras e adotam postura semelhante. Leia até o final, pois o último parágrafo é a azeitona dessa empada que lhe oferto.

Desculpe o mau humor, mas é que hoje abri o Facebook e me deparei com posts de amigos do RJ, de SP e de Belém reclamando de sujeira nas ruas, feitas por jovens estudantes cuja noção de cidadania se restringe a “lacrações”, atos espetaculares, frases de efeito, memes e outros quetais.… leia mais

A boa fé do cidadão

Já dizia o bom e velho Aristóteles: a virtude é uma disposição interna para agir corretamente e que o cidadão aprimora pelo hábito. Demorou alguns séculos para que os gregos antigos aperfeiçoassem o conceito de areté, que traduzia a noção de excelência no cumprimento do papel que cada indivíduo ou coisa tinha na sociedade. Os filósofos participaram dessa evolução.

Faltam filósofos no Brasil. Não os tivemos jamais. Nos dias atuais, então, em que filósofo de verdade é artigo raro no planeta todo, no máximo caminham entre nós uns aspirantes a guru, arremedos de pensadores, incapazes de ocultar a vaidade e a sede de curtidas no Facebook.… leia mais

Cenas de jardim

Entrei no Jardim Botânico de Montreal com os olhos arregalados. Alamedas limpas, iluminadas pelo sol, cobertas de canteiros.  Na minha imaginação, trazia meu amigo Túlio Mendhes comigo. Imaginação eu disse? Diante de um roseiral, ouvi uma voz risonha, com sotaque mineiro: “Parece um quadro de Fragonard ou os canteiros de Maria Antonieta em Versailles, não?”. Túlio? “Em carne, osso e cadeira de rodas para servi-la, madame”. Não é possível. Minha vida virou um filme de Kurosawa.

Túlio já estreou no passeio contando piadas, ouvindo histórias e fazendo cara de impressionado. Olhamos juntos as rosas brancas, as vermelhas como sangue, as amarelo-ouro e as róseas que brotavam de cercas, grades e grandes vasos.… leia mais

Blue Jay

1920. Alberta, no atual Canadá.

Sete meses foi o tempo que a mãe de Pássaro Azul precisou para terminar o vestido. A neve chegou e se foi, as flores cobriram a planície e agora, somente com o sol de verão e as fortes chuvas, pôde concluir a roupa de lã vermelha, cor de sangue vivo, com duas fileiras de pequenos enfeites de porcelana em forma de gota. Quem olhasse de longe poderia confundi-las com fios de pérolas. Os olhos da mãe sorriram quando se demoraram sobre o peitilho do vestido bordado de miçangas brancas e canudinhos prateados. Quem, entre os Nakoda, teria vestido com tal beleza uma filha?… leia mais

Aprendiz de feiticeiro vai às compras

– Olha a alma aí, gente! É baratinha, está em promoção.

– Moço, quanto custa a alma de primeira?

– Veja bem. É uma alma de primeira, cultivada. Não é fácil mantê-la. E o custo de manutenção, então? Altíssimo! É preciso muito engenho e experiência para manter essas. Não quer ver nossos exemplares mais simples?

– O que você tem em termos de almas mais simples?

– Ah, temos vários modelos em promoção. Venda por atacado, você sabe. O mercado está cheio desse produto. Não é tão valorizado.

– Quero uma dúzia. Como faz para ela não fugir?

– Depende. Tem vários jeitos, mas nossos técnicos aconselham que, tão logo ela se acostume a você, mantenha-a sempre alimentada.… leia mais

A arte de cuidar do jardim em meio ao caos

Cela est bien dit, mais il faut cultiver notre jardin.

Voltaire. Candide

Setenta e duas horas em que sucessivos terremotos sacudiram o já chacolhado Brasil. Da hora em que ecoou a música do plantão da Globo anunciando o presidente grampeado até este exato momento, o país convulsiona em mais uma crise de proporções titânicas que se reinventa a cada hora. E as emoções dos brasileiros são como folhas arrastadas pela tempestade da política. Somos marionetes. A cada notícia, o coração dispara e aumenta a sensação de que o fundo do poço ainda está longe. Desesperança em toda parte.

O vazamento da delação de Joesley Batista mergulhou o País em nova e profunda crise moral.… leia mais