Diário de Montreal – The Black Watch

 

Sonia Zaghetto

Uma chuva gelada caía sobre Montreal e a temperatura estava abaixo de 4 graus. Um vento constante varria as ruas da cidade. Mas nada disso nos fez desistir de acordar cedo no domingo para assistir à parada dos Black Watch. O desfile do legendário Batalhão de Infantaria do Regimento Real Escocês (Royal Regiment of Scotland) no Canadá é um programa imperdível para quem se interessa pela história de outros países. Ao som das tradicionais gaitas de foles, usando kilts e o famoso gorro enfeitado com pompons de lã vermelha, eles atraem todos os olhares e evocam episódios emocionantes e trágicos da história canadense.… leia mais

Diário de Montreal – Primavera

A primavera vem chegando, tímida, a Montreal. Nas árvores diante da minha casa brotam folhinhas novas e brotos em forma de pequenos cachos nas pontas dos galhos. Há dias em que chove, outros são plenos de frio, mas há também dias de sol e céu muito azul. Como se o inverno hesitasse em partir.

Os canadenses aproveitam cada segundo desse período de bom tempo. As ruas começam a se encher de passantes, os vizinhos tomam sol nas varandas, as casas ganham decoração nova e os bares colocam mesinhas na calçada. Nos quintais, antes cobertos de neve, agora há roupas estendidas no varal sendo balançadas pelo vento forte.… leia mais

Todos os azuis da Florida

Chegamos à Florida no dia 21 de fevereiro, para buscar os últimos documentos e fotografias históricas que minha tia Celia havia guardado durante muitos anos. Viúva, aos 78 anos, Celia vai viver em uma casa de repouso para idosos na qual poderá receber os cuidados que sua saúde delicadíssima requer. Foi uma escolha dela. Acredito que é um último ato de independência de uma mulher que jamais se curvou a imposições ou tornou suas as escolhas alheias.  Vivendo há 41 anos nos Estados Unidos, ela incorporou o jeito americano de viver.

Diante do diagnóstico de uma doença degenerativa, visitou várias clínicas na cidade em que vive uma de suas irmãs.… leia mais

Um violinista sem fronteiras

-Mãe, vamos ver a exposição do Chagall?

O convite do filho – duplamente especial por ser ele um artista – chegou como sopro de ar fresco num dia em que a comédia humana se exibia em episódios cada vez mais despudorados nas redes sociais. E era Chagall! Eu jamais havia visto um quadro dele ao vivo. E isso, bem sei, muda tudo. Sem falar que é o pintor judeu por excelência e eu  ansiava por sentir a alma judaica-russa transbordando nas telas.

Passeamos pela vizinhança do museu, admirando as amplas avenidas, os hotéis de luxo, galerias e lojas de grife. Meio Nova York, meio Paris. … leia mais

Ovo de girafa

April, girafa que vive no Animal Adventure Park, em Harpursville, New York, está prestes a ter um bebê. Nenhuma novidade. Há milhares de anos as girafas põem no mundo suas girafinhas sem que isso cause qualquer comoção. Não April. Não em época de redes sociais.

Há quatro dias as pessoas observam April por uma câmera instalada em seu quartinho (veja aqui). Aguardam pelo nascimento do bebê. A certa altura, trinta mil pessoas do mundo inteiro espiavam juntas a girafa andar de um lado para o outro, comer verduras e lamber a câmera.

Nada acontecia, mas essa contemplação voluntária parece ter feito muito bem a todos.… leia mais

A gente quer comida, diversão, ballet

Tenho trabalhado no livro. Vê-lo nascer é uma expectativa semelhante à de uma gravidez: entre a angústia e a felicidade, alguns temores e desejos.  Mas hoje vou fazer uma pausa. Pretendo desfrutar de uma apresentação de O Lago dos Cisnes. Já imagino a música de Tchaikovsky escapando dos instrumentos musicais, a leveza das bailarinas, a graça e a força da dança clássica, os cenários exuberantes e ricas vestimentas. E meu coração faz pas de deux com a felicidade antecipada.

Não há como evitar a sensação de que a arte resgata algo de espiritual e puro em mim. Tem a mágica de me transportar para um lugar inalcançável ao humano.… leia mais

Arte, arte em toda parte!

Le temps de s’adorer
De se le dir’… Le temps
De s’fabriquer des souvenirs…
(Piaf. Mon Dieu)

Pour toi, mon fils adoré.

A música estava bem pertinho dos ouvidos e do coração. Na segunda fileira de bancos, ouvíamos a respiração dos músicos, acompanhávamos os sorrisos e olhares que trocavam, captávamos quando a melodia escapava dos instrumentos e estendia suas carícias até nós. As notas fluíam pela nave da catedral anglicana Christ Church, em Montreal, visitavam os santos e os escaninhos, salpicando bálsamos na alma da gente. De vez em quando, meu filho se voltava para mim, com os olhos brilhantes e um sorriso feliz e cúmplice.… leia mais

Um novo mundo

Acordei e estava nevando. Uns flocos pequenos caindo do céu se aninhavam no colo das árvores. O chão  se convertendo em tapete branco. Dediquei alguns minutos para ver os flocos flutuarem enquanto ouvia Vivaldi e seu inverno (veja e ouça aqui). Agora sei o que o padre ruivo pensava ao compor essa peça linda.

Há algo de fúria seguida de silêncio e pacificação. Os flocos dançam, alegremente, diante de minha janela. São milhares e até posso ouvir suas risadinhas enquanto escorregam para a terra. Ah, mas quando se depositam nas coberturas das casas, nos corrimões externos e nas calçadas, já não têm identidade.  … leia mais

De neve e de sol

Fiz uma longa reflexão sobre a neve.

Rebeca, minha nora, me disse que, em geral, aqui em Montreal as pessoas ficam mais introspectivas nessa época do ano. É um tempo para ficar em casa, dar atenção à família e de refletir sobre si mesmo. No verão, quando as temperaturas são dignas de verão carioca, é uma efervescência: churrascos, festas na rua, todo mundo varando as noites.

Até os relacionamentos aqui seguem esse ritmo ditado pela temperatura dos dias. O verão é a época de conseguir um namorado ou namorada. No outono se cultiva esse relacionamento. No inverno, é a consolidação. Quase ninguém se separa no inverno – mesmo porque dá um trabalho enorme fazer mudança a uma temperatura de 20 graus negativos.… leia mais

Um livro por dia em 2017 – Fevereiro

Dia 1 – Monteiro Lobato e a coleção Sítio do Picapau Amarelo.  A obra de Monteiro Lobato destinada ao público infantil é uma das mais ricas da língua portuguesa. Seus personagens retratam um pouco da vida do autor, já que Lobato foi criado em um sítio, chamava-se Bento e era neto de um visconde, o de Tremembé, proprietário de uma enorme biblioteca. As histórias ocorrem em um pequeno sítio no interior do Brasil, onde Dona Benta conta histórias e lendas a seus netos Narizinho e Pedrinho, Tia Nastácia faz incríveis doces, a boneca Emília banca a sabichona e o aristocrático boneco de sabugo de milho, o Visconde de Sabugosa, revela seu conhecimento enciclopédico.  … leia mais