Blue Jay

1920. Alberta, no atual Canadá.

Sete meses foi o tempo que a mãe de Pássaro Azul precisou para terminar o vestido. A neve chegou e se foi, as flores cobriram a planície e agora, somente com o sol de verão e as fortes chuvas, pôde concluir a roupa de lã vermelha, cor de sangue vivo, com duas fileiras de pequenos enfeites de porcelana em forma de gota. Quem olhasse de longe poderia confundi-las com fios de pérolas. Os olhos da mãe sorriram quando se demoraram sobre o peitilho do vestido bordado de miçangas brancas e canudinhos prateados. Quem, entre os Nakoda, teria vestido com tal beleza uma filha?… leia mais

Aprendiz de feiticeiro vai às compras

– Olha a alma aí, gente! É baratinha, está em promoção.

– Moço, quanto custa a alma de primeira?

– Veja bem. É uma alma de primeira, cultivada. Não é fácil mantê-la. E o custo de manutenção, então? Altíssimo! É preciso muito engenho e experiência para manter essas. Não quer ver nossos exemplares mais simples?

– O que você tem em termos de almas mais simples?

– Ah, temos vários modelos em promoção. Venda por atacado, você sabe. O mercado está cheio desse produto. Não é tão valorizado.

– Quero uma dúzia. Como faz para ela não fugir?

– Depende. Tem vários jeitos, mas nossos técnicos aconselham que, tão logo ela se acostume a você, mantenha-a sempre alimentada.… leia mais

A arte de cuidar do jardim em meio ao caos

Cela est bien dit, mais il faut cultiver notre jardin.

Voltaire. Candide

Setenta e duas horas em que sucessivos terremotos sacudiram o já chacolhado Brasil. Da hora em que ecoou a música do plantão da Globo anunciando o presidente grampeado até este exato momento, o país convulsiona em mais uma crise de proporções titânicas que se reinventa a cada hora. E as emoções dos brasileiros são como folhas arrastadas pela tempestade da política. Somos marionetes. A cada notícia, o coração dispara e aumenta a sensação de que o fundo do poço ainda está longe. Desesperança em toda parte.

O vazamento da delação de Joesley Batista mergulhou o País em nova e profunda crise moral.… leia mais

Diário de Montreal – The Black Watch

 

Sonia Zaghetto

Uma chuva gelada caía sobre Montreal e a temperatura estava abaixo de 4 graus. Um vento constante varria as ruas da cidade. Mas nada disso nos fez desistir de acordar cedo no domingo para assistir à parada dos Black Watch. O desfile do legendário Batalhão de Infantaria do Regimento Real Escocês (Royal Regiment of Scotland) no Canadá é um programa imperdível para quem se interessa pela história de outros países. Ao som das tradicionais gaitas de foles, usando kilts e o famoso gorro enfeitado com pompons de lã vermelha, eles atraem todos os olhares e evocam episódios emocionantes e trágicos da história canadense.… leia mais

Diário de Montreal – Primavera

A primavera vem chegando, tímida, a Montreal. Nas árvores diante da minha casa brotam folhinhas novas e brotos em forma de pequenos cachos nas pontas dos galhos. Há dias em que chove, outros são plenos de frio, mas há também dias de sol e céu muito azul. Como se o inverno hesitasse em partir.

Os canadenses aproveitam cada segundo desse período de bom tempo. As ruas começam a se encher de passantes, os vizinhos tomam sol nas varandas, as casas ganham decoração nova e os bares colocam mesinhas na calçada. Nos quintais, antes cobertos de neve, agora há roupas estendidas no varal sendo balançadas pelo vento forte.… leia mais

Todos os azuis da Florida

Chegamos à Florida no dia 21 de fevereiro, para buscar os últimos documentos e fotografias históricas que minha tia Celia havia guardado durante muitos anos. Viúva, aos 78 anos, Celia vai viver em uma casa de repouso para idosos na qual poderá receber os cuidados que sua saúde delicadíssima requer. Foi uma escolha dela. Acredito que é um último ato de independência de uma mulher que jamais se curvou a imposições ou tornou suas as escolhas alheias.  Vivendo há 41 anos nos Estados Unidos, ela incorporou o jeito americano de viver.

Diante do diagnóstico de uma doença degenerativa, visitou várias clínicas na cidade em que vive uma de suas irmãs.… leia mais

Um violinista sem fronteiras

-Mãe, vamos ver a exposição do Chagall?

O convite do filho – duplamente especial por ser ele um artista – chegou como sopro de ar fresco num dia em que a comédia humana se exibia em episódios cada vez mais despudorados nas redes sociais. E era Chagall! Eu jamais havia visto um quadro dele ao vivo. E isso, bem sei, muda tudo. Sem falar que é o pintor judeu por excelência e eu  ansiava por sentir a alma judaica-russa transbordando nas telas.

Passeamos pela vizinhança do museu, admirando as amplas avenidas, os hotéis de luxo, galerias e lojas de grife. Meio Nova York, meio Paris. … leia mais

Ovo de girafa

April, girafa que vive no Animal Adventure Park, em Harpursville, New York, está prestes a ter um bebê. Nenhuma novidade. Há milhares de anos as girafas põem no mundo suas girafinhas sem que isso cause qualquer comoção. Não April. Não em época de redes sociais.

Há quatro dias as pessoas observam April por uma câmera instalada em seu quartinho (veja aqui). Aguardam pelo nascimento do bebê. A certa altura, trinta mil pessoas do mundo inteiro espiavam juntas a girafa andar de um lado para o outro, comer verduras e lamber a câmera.

Nada acontecia, mas essa contemplação voluntária parece ter feito muito bem a todos.… leia mais

A gente quer comida, diversão, ballet

Tenho trabalhado no livro. Vê-lo nascer é uma expectativa semelhante à de uma gravidez: entre a angústia e a felicidade, alguns temores e desejos.  Mas hoje vou fazer uma pausa. Pretendo desfrutar de uma apresentação de O Lago dos Cisnes. Já imagino a música de Tchaikovsky escapando dos instrumentos musicais, a leveza das bailarinas, a graça e a força da dança clássica, os cenários exuberantes e ricas vestimentas. E meu coração faz pas de deux com a felicidade antecipada.

Não há como evitar a sensação de que a arte resgata algo de espiritual e puro em mim. Tem a mágica de me transportar para um lugar inalcançável ao humano.… leia mais

Arte, arte em toda parte!

Le temps de s’adorer
De se le dir’… Le temps
De s’fabriquer des souvenirs…
(Piaf. Mon Dieu)

Pour toi, mon fils adoré.

A música estava bem pertinho dos ouvidos e do coração. Na segunda fileira de bancos, ouvíamos a respiração dos músicos, acompanhávamos os sorrisos e olhares que trocavam, captávamos quando a melodia escapava dos instrumentos e estendia suas carícias até nós. As notas fluíam pela nave da catedral anglicana Christ Church, em Montreal, visitavam os santos e os escaninhos, salpicando bálsamos na alma da gente. De vez em quando, meu filho se voltava para mim, com os olhos brilhantes e um sorriso feliz e cúmplice.… leia mais