Babel

A intervenção num Rio de Janeiro em ruínas soou como socorro tardio, desconjuntado. E teve o efeito colateral de  desnudar aos últimos viciados em otimismo o que deveria ser óbvio: os problemas do microcosmo fluminense são os do conjunto do País. Sua solução? Quase utopia.

Apesar do fio de  esperança que insiste em sobreviver, sabemos que são de difícil implementação as medidas profundas, estruturais, que poderiam arrancar o Rio e o Brasil da falência generalizada em que mergulharam.

Tarefa imensa aos olhos dos cidadãos comuns, que anseiam por soluções definitivas mas também querem o alívio a curto prazo.  Essa espera nos perturba, exaure e a cada dia nos rouba a alegria, as boas maneiras, os traços básicos de civilidade.… leia mais

Quase Ministra

O Teatro Brasilis apresenta sua nova produção, “Quase Ministra”, peça em quatro atos, plágio mal feito da obra de Machado de Assis.
 
Personagens:
 
Cristiane Brasil, deputada, candidata a ministra do Trabalho, carente de noção, compostura, vergonha e decoro.
 
Roberto Jefferson. Pai de Cristiane, raposa experimentada na política, negociador matreiro.
 

Michel Temer. Dublê de presidente da República e ator de filmes da década de 30.

Resumo dos Atos

Ato 1 – Praça dos Três Poderes

Depois de uma conversa secreta, na qual se trocou cargos destacados por apoio às reformas – uma prática bastante comum nos arraiais de Brasília – Roberto Jefferson e Michel Temer bateram o martelo: a filha de Jefferson seria a nova ministra do Trabalho.… leia mais

Hamelin

A passagem de Lula pelo Rio de Janeiro me pôs um gosto amargo na boca. Espetáculo deprimente que me deixou entre a incredulidade e a náusea.
 
Como traduzir o desgosto que senti por testemunhar que tantos brasileiros nada aprenderam com a história recente? Uma desesperança anestesiante por ver parte de nosso povo compactuar, apoiar e incentivar o crime, a corrupção e o populismo mais barato.
 
A voz rouca de Lula despejava uma avalanche de informações manipuladas, abusava de baixezas, argumentos tortos, frases de efeito, provocações baratas. A reação de estudantes e professores? Delírio.
 
O ex-presidente insistia na velha estratégia de incentivar o ódio entre os brasileiros, transferia responsabilidades, apresentava-se como herói e salvador.
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O luxo de ter um deputado honesto

O discurso de Tiririca pôs em êxtase o Brasil.

Em seu primeiro e único pronunciamento, o deputado-palhaço se converteu em novo herói na terra do sebastianismo crônico.

Ouso ocupar a cadeira de psicanalista da Nação para arriscar uma explicação: a da velha projeção dos desejos. Quem ansiava dizer tais coisas diretamente aos congressistas se sentiu vingado. Alma lavada e enxaguada, já diria Odorico Paraguaçu.

 Afinal, o que disse o deputado para tocar a alma brasileira?

Que o Congresso é majoritariamente constituído por homens insensíveis, que não se preocupam com o povo. Nós pensamos assim.

Anunciou que estava decepcionado. Nós também estamos.

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Cry me a river

Joesley chorou ao ser preso.
Geddel chorou na cadeia.
Assim como choraram, na tribuna e nos palanques, Eduardo Cunha, Lula, Delcídio, Collor, Sergio Cabral.
Nós, os pagadores de impostos, não nos compadecemos perante lágrimas de criminosos disfarçados de empresários e políticos.
É que já choramos demais.
Choramos pela roubalheira desenfreada,
pelos hospitais públicos caindo aos pedaços,
pelos remédios que apodrecem sem uso,
pelos livros jogados em lixeiras,
pelas escolas sucateadas,
pela falta de apoio à ciência,
pelas universidades à míngua,
pelos fundos de pensão dizimados,
pela Petrobras loteada,
pela Amazônia devastada,
pela distribuição de cargos a apadrinhados tecnicamente incompetentes,
pelas estradas esburacadas,
pelos policiais mortos,pelas bibliotecas e teatros abandonados.
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Máscaras, karmas e estratégias

A data de 5 de setembro de 2017 deveria ser batizada como “O dia das máscaras caídas”. Além de Joesley Batista, que se revelou em toda a extensão de sua miséria moral, os acontecimentos serviram para mostrar que o procurador geral da República manchou a própria biografia com as trapalhadas que envolveram a delação de Batista. O dia terminou com uma denúncia que finalmente expôs os monumentais prejuízos causados pelo grupo petista liderado por Lula e Dilma.

Sobre Joesley, há pouco a acrescentar: ele mesmo se revelou nas gravações que fez. Suas palavras de lama e sua pobreza de caráter estão explícitas em cada sílaba que pronunciou.… leia mais

Marat

If you want to be like the folks on the hill

A working class hero is something to be

Lennon, John

Reflexão artístico-filosófica-histórica do dia sobre A morte de Marat, quadro de Jacques Louis David que está no Museu do Louvre. Jean-Paul Marat nasceu há 274 anos, no dia 24 de maio de 1743. Foi ele quem popularizou a expressão “inimigo do povo”, sucesso de público e crítica até hoje. Médico e jornalista radical, em seu jornal L ‘Ami du peuple (“O Amigo do Povo” – que outro nome poderia ter?) costumava defender a execução dos “inimigos do povo”, publicando-lhes os nomes para facilitar o justiçamento.

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A arte de cuidar do jardim em meio ao caos

Cela est bien dit, mais il faut cultiver notre jardin.

Voltaire. Candide

Setenta e duas horas em que sucessivos terremotos sacudiram o já chacolhado Brasil. Da hora em que ecoou a música do plantão da Globo anunciando o presidente grampeado até este exato momento, o país convulsiona em mais uma crise de proporções titânicas que se reinventa a cada hora. E as emoções dos brasileiros são como folhas arrastadas pela tempestade da política. Somos marionetes. A cada notícia, o coração dispara e aumenta a sensação de que o fundo do poço ainda está longe. Desesperança em toda parte.

O vazamento da delação de Joesley Batista mergulhou o País em nova e profunda crise moral.… leia mais

O dragão na garagem do sebastianismo

O ser humano é, antes de tudo, um carente. E o brasileiro não escapa à sina planetária. Quinhentos anos em busca de líder, guru, salvador, pai dos pobres, herói da nação. Imploramos constantemente por um super homem que nos salve das garras dos homens maus. Pode ser humorista, cangaceiro, macunaíma ou máquina de perpetrar sandices – o que importa é convencer a turba ignara de que é a salvação da lavoura. Às favas com a realidade: queremos mesmo é ilusão.

 Na vizinha Venezuela a fome grassa, o desabastecimento campeia, não há remédios e a população é assassinada sem piedade nas manifestações que tomam as ruas.… leia mais

Pandora

Pandora. Por John William Waterhouse

Às seis da manhã, em Montreal, ligo o computador para ver as notícias do Brasil. A primeira delas me afronta. Uma faixa carregada por torcedores proclama a extensão de nossa miséria: “Somos todos Bruno”. Refere-se ao goleiro acusado de matar e mandar atirar aos cães o corpo de Eliza Samudio. As demais notícias dão conta da monstruosa teia de corrupção que enreda o país.

Ponho a chaleira no fogo, vejo a neve que derrete lá fora e algo como uma dor lancinante vai tomando conta deste meu coração saudoso. Sinto que a aparentemente infinita caixa de tragédias ainda não se esgotou.… leia mais