Marat

If you want to be like the folks on the hill

A working class hero is something to be

Lennon, John

Reflexão artístico-filosófica-histórica do dia sobre A morte de Marat, quadro de Jacques Louis David que está no Museu do Louvre. Jean-Paul Marat nasceu há 274 anos, no dia 24 de maio de 1743. Foi ele quem popularizou a expressão “inimigo do povo”, sucesso de público e crítica até hoje. Médico e jornalista radical, em seu jornal L ‘Ami du peuple (“O Amigo do Povo” – que outro nome poderia ter?) costumava defender a execução dos “inimigos do povo”, publicando-lhes os nomes para facilitar o justiçamento.

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A arte de cuidar do jardim em meio ao caos

Cela est bien dit, mais il faut cultiver notre jardin.

Voltaire. Candide

Setenta e duas horas em que sucessivos terremotos sacudiram o já chacolhado Brasil. Da hora em que ecoou a música do plantão da Globo anunciando o presidente grampeado até este exato momento, o país convulsiona em mais uma crise de proporções titânicas que se reinventa a cada hora. E as emoções dos brasileiros são como folhas arrastadas pela tempestade da política. Somos marionetes. A cada notícia, o coração dispara e aumenta a sensação de que o fundo do poço ainda está longe. Desesperança em toda parte.

O vazamento da delação de Joesley Batista mergulhou o País em nova e profunda crise moral.… leia mais

O dragão na garagem do sebastianismo

O ser humano é, antes de tudo, um carente. E o brasileiro não escapa à sina planetária. Quinhentos anos em busca de líder, guru, salvador, pai dos pobres, herói da nação. Imploramos constantemente por um super homem que nos salve das garras dos homens maus. Pode ser humorista, cangaceiro, macunaíma ou máquina de perpetrar sandices – o que importa é convencer a turba ignara de que é a salvação da lavoura. Às favas com a realidade: queremos mesmo é ilusão.

 Na vizinha Venezuela a fome grassa, o desabastecimento campeia, não há remédios e a população é assassinada sem piedade nas manifestações que tomam as ruas.… leia mais

Pandora

Pandora. Por John William Waterhouse

Às seis da manhã, em Montreal, ligo o computador para ver as notícias do Brasil. A primeira delas me afronta. Uma faixa carregada por torcedores proclama a extensão de nossa miséria: “Somos todos Bruno”. Refere-se ao goleiro acusado de matar e mandar atirar aos cães o corpo de Eliza Samudio. As demais notícias dão conta da monstruosa teia de corrupção que enreda o país.

Ponho a chaleira no fogo, vejo a neve que derrete lá fora e algo como uma dor lancinante vai tomando conta deste meu coração saudoso. Sinto que a aparentemente infinita caixa de tragédias ainda não se esgotou.… leia mais

Sal na moleirinha

Mais de R$ 450 milhões foram distribuídos pela Odebrecht a políticos das três esferas do governo, aponta levantamento do jornal “O Estado de São Paulo”. Um número capaz de escandalizar qualquer cidadão decente. Não aqui, no país da superlativa corrupção, onde Marcelo Odebrecht fala de quantias assombrosas como se mencionasse troco de picolé. Não na terra em que muitos denunciados continuam a desfrutar do apoio incondicional de sua legião de fanáticos.

O conteúdo dos depoimentos de Marcelo Odebrecht e seu pai é igual à morte anunciada de um parente: intuímos o que vai ocorrer e acreditamos estar preparados, mas, na hora que acontece de verdade, sobrevém o baque doloroso.

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Ponte binacional: sucessão de vexames

Após 6 anos de sua conclusão, a ponte binacional sobre o rio Oiapoque – ligação terrestre entre os territórios brasileiro e francês – foi semi-inaugurada neste sábado, 18 de março. Foi mais um capítulo melancólico na história de um projeto que se arrasta há 20 anos, custou 70 milhões aos dois países e cujo atraso frustra quem conhece seu potencial para incrementar a economia de uma região historicamente carente de investimentos em saneamento básico, transporte, saúde, educação e segurança pública e de fronteiras.
A ministra francesa do Meio Ambiente, Ségolène Royal, até tinha confirmado presença na inauguração, mas não compareceu. Nenhum ministro brasileiro também prestigiou a inauguração da ponte anunciada em 1997 pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jacques Chirac, e que teve a pedra fundamental lançada por Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy em 2008.
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Teatro de sombras

sombraApós uma noite de sono e um tempo refletindo sobre as entrevistas de Michel Temer e  Marcelo Calero, chego à conclusão que ambas têm as mesmíssimas características. A saber: inteligência e senso de oportunidade.

Foram duas entrevistas pensadas cuidadosamente para projetar uma imagem correta de ambos. Temer escolheu prestar contas à população que se mobiliza para a marcha do dia 4 e disse que quem manda é o povo, como determina a Constituição. Calero apresentou-se como o cidadão honesto que não compactua com a corrupção.

Ambos também buscaram apelar para os sentimentos mais básicos dos telespectadores e apostaram na empatia: Temer deixando “escapar” sua indignação pela quebra de confiança e garantindo que jamais se valeria de tal expediente; Calero mencionando sua postura de homem de bem, chocado com os bastidores de Brasília.… leia mais

Oito indícios de que o Brasil está de ponta-cabeça

relativityUma olhada breve sobre o cenário nacional e acredito que diagnostiquei o problema brasileiro: estamos de ponta-cabeça! Tudo ao contrário. Enquanto o juiz que comanda a investigação do maior escândalo de corrupção da história brasileira é comparado a narcotraficantes e provocado pelos advogados dos réus, artistas que desconhecem o processo fazem a defesa intransigente do ex-presidente Lula. Paralelamente, líderes dos partidos da base de apoio no Congresso preparam manifesto de apoio ao ministro Geddel, envolvido no escândalo que culminou na saída do titular da Cultura.
Já a ocupação da Universidade de Brasília (UnB) parece um filme ruim que o roteirista não sabe como encerrar.
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De cavernas e de muros

Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa.”

Martin Luther King

No dia 9 de novembro de 1989, caiu o muro de Berlim. Exatamente 27 anos depois, os Estados Unidos elegeram como seu 45º presidente um homem que prometeu construir um muro.

Muros sempre foram práticos e, simultaneamente, simbólicos. Barreiras altas contra adversários e indesejáveis. Trump propôs o seu para manter fora das fronteiras de seu país aquele exército latino mal visto por uma larga parcela dos americanos nativos. Deu-lhes um inimigo, técnica para seduzir mentes frágeis bastante eficiente e fartamente usada por praticamente todo mundo que faz política.… leia mais

Diário da Crise – 21/10/2016 – Μήτις

athena
Athena. Museu do Louvre.

Em grego, Métis (Μήτις) significa “habilidades”. A antiga deusa da proteção e da astúcia foi escolhida pela Polícia Federal para dar nome à operação deflagrada hoje e que teve como alvo policiais legislativos do Senado acusados de interferir nas investigações da Lava Jato. Conhecer a história de Métis, primeira esposa de Zeus, ajuda a entender a escolha.

Na mitologia, Cronos era o rei dos titãs. Casou com a sua irmã Reia, que lhe deu seis filhos. Mas ele temia ser destronado e por isso engolia os filhos ao nascerem. Devorou-os todos, exceto Zeus. Este, ao crescer, vingou-se do pai.… leia mais