De cavernas e de muros

Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa.”

Martin Luther King

No dia 9 de novembro de 1989, caiu o muro de Berlim. Exatamente 27 anos depois, os Estados Unidos elegeram como seu 45º presidente um homem que prometeu construir um muro.

Muros sempre foram práticos e, simultaneamente, simbólicos. Barreiras altas contra adversários e indesejáveis. Trump propôs o seu para manter fora das fronteiras de seu país aquele exército latino mal visto por uma larga parcela dos americanos nativos. Deu-lhes um inimigo, técnica para seduzir mentes frágeis bastante eficiente e fartamente usada por praticamente todo mundo que faz política.… leia mais

Diário da Crise – 21/10/2016 – Μήτις

athena
Athena. Museu do Louvre.

Em grego, Métis (Μήτις) significa “habilidades”. A antiga deusa da proteção e da astúcia foi escolhida pela Polícia Federal para dar nome à operação deflagrada hoje e que teve como alvo policiais legislativos do Senado acusados de interferir nas investigações da Lava Jato. Conhecer a história de Métis, primeira esposa de Zeus, ajuda a entender a escolha.

Na mitologia, Cronos era o rei dos titãs. Casou com a sua irmã Reia, que lhe deu seis filhos. Mas ele temia ser destronado e por isso engolia os filhos ao nascerem. Devorou-os todos, exceto Zeus. Este, ao crescer, vingou-se do pai.… leia mais

O abismo olha para nós

“Quem enfrenta monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti”. A frase de Nietzsche me vem à memória no exato instante em que leio sobre a agressão a Eduardo Cunha no aeroporto Santos Dumont.

É certo que estamos indignados pelos crimes deslavados, pela punição que parece tardar e pela sensação de que a justiça é mais leve para os que se aboletam nas castas superiores. A sucessiva onda de escândalos tem seu peso. Compreensível que tenhamos pressa. Queremos justiça. E queremos agora.… leia mais

A saga do castelo de Abrantes

greekAqui no castelo de Abrantes, lembro bem, vivíamos dias de cinzas, senhores.

Amordaçados andávamos. Queríamos a volta do irmão do Henfil e que a liberdade abrisse as asas sobre nós. Havia lutas várias – ocultas e abertas. Inicialmente pensei que todos tínhamos objetivos semelhantes. Ledo engano. A sua luta era para nos tirar da gaiola e pôr em outra, tão ruim quanto a anterior. Trocava apenas a cor da jaula.

Lembram-se, senhores, de Beth Mendes, José Eudes e Ayrton Soares? Eu lembro: depois de enchermos as ruas pedindo eleições diretas para a Presidência da República, fomos derrotados. Mas duas candidaturas foram apresentadas ao colégio eleitoral.… leia mais

Desumanidade

egalite-devant-la-mort
William Adolphe Bouguereau. Egalité devant la mort .

A prisão do ex-ministro Guido Mantega na 34ª fase da Lava-Jato  despertou, nas primeiras horas, um intenso clamor por parte dos petistas e seus aliados. “Desumanidade!”, bradavam, referindo-se ao fato do ex-ministro ter sido preso no térreo do Hospital Albert Einstein, onde acompanhava sua mulher.  Seis horas depois, o juiz Sergio Moro revogou a prisão temporária e determinou a soltura de Mantega. No despacho Moro afirmou que as buscas já haviam sido feitas e que, ao decretar a prisão, não sabia do grave quadro clínico da mulher do ex-ministro. Destacou, ainda, que a prisão foi feita com toda a discrição e fora do hospital, que o ex-ministro foi avisado por telefone, desceu e encontrou os agentes em uma rua lateral.… leia mais

O rei nu

dali
Salvador Dalí. Soft Self Portrait with Grilled Bacon.

Talvez uma das maiores tragédias dos ídolos seja acreditarem na própria lenda. E Lula não escapou de si mesmo. No discurso desta quinta-feira (15), a personalidade real e a imagem construída travaram uma luta feroz. O resultado foi uma fala alquebrada, abatida pela contradição. Dorian Gray dialogando com o retrato na parede.

Desta vez não houve jararacas e outras bravatas, mas o espetáculo continuou carente de elegância e coerência. Aconselhado por seus advogados a moderar a linguagem, Lula optou pela fala mansa, mencionou perdão e amor. Mas a natureza – ah, a natureza, essa força contida a custo – não tardou a se exibir.… leia mais

Fato e versão

Alex Costa Almeida 

Fato e VersãoNa última quarta-feira, 14/09, o Brasil foi surpreendido por uma entrevista em que procuradores da República que integram a Força Tarefa da Lava Jato detalharam diversos aspectos da denúncia apresentada em desfavor de Lula, sua esposa e outros, por suposto envolvimento nos crimes de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

A entrevista foi contundente e Lula nela foi qualificado, entre outros adjetivos, como o “comandante máximo da organização criminosa” que lesou em R$ 42 bilhões os cofres da Nação. Poucas horas depois do encerramento da coletiva, o país foi tomado por uma iniciativa voltada para a desqualificação da denúncia e dos procuradores que a fizeram.… leia mais

O alfinete na língua

“Uma nação pode sobreviver a seus tolos, e mesmo aos ambiciosos. Mas não pode sobreviver à traição interna. Um inimigo nos portões é menos formidável, porque é conhecido e carrega sua bandeira abertamente. Mas o traidor move-se livremente entre os que estão do lado de dentro, seus sussurros manhosos farfalham por todos os becos, ouvidos nos próprios corredores do governo. Pois o traidor não parece um traidor; ele fala em um tom familiar a suas vítimas, seu rosto se parece com o delas e usa os seus argumentos; ele apela para a baixeza que jaz no fundo do coração de todos os homens.leia mais

O fim de uma era

Miranda_-_The_Tempest_JWWUm céu enevoado pairava sobre Brasília nas primeiras horas do dia 31 de agosto de 2016. Nada daqueles dias ensolarados que douram o cerrado: apenas a atmosfera sufocante e seca que traduzia as horas. Debaixo daquele céu, uma Esplanada deserta, melancólica, de ressaca antecipada. Sim, um dia histórico e de reflexão – exceto para o ativismo das redes sociais, onde o clima de terceira guerra mundial continuava de vento em popa.

Pouco depois das 11 horas, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, iniciou a sessão do julgamento de Dilma Rousseff. Às 13h35, tudo estava consumado. Não era apenas o fim do governo Dilma.… leia mais

Nós, que nos amávamos tanto

tarsila
Tarsila do Amaral. O Vendedor de Frutas.

Assisti à abertura das Olimpíadas do Rio exercitando meu budismo diletante: evitando expectativas. Decidi que primeiro assistiria e depois comentaria, elogiando o que fosse bom e fazendo observações sobre o que não foi satisfatório na minha opinião. Deixei para escrever dois dias depois porque desejava observar a reação nas redes sociais. Sempre há ondas: inicialmente, uma explosão de emoção, com choro, empolgação e deslumbramento. É seguida de leituras supostamente “profundas” nas quais se desqualifica o que havia sido unanimidade antes. Segue-se uma terceira onda, na qual se desqualifica a desqualificação anterior. Passo seguinte: intensificação de choro e ranger de dentes.… leia mais