Cenas de jardim

Entrei no Jardim Botânico de Montreal com os olhos arregalados. Alamedas limpas, iluminadas pelo sol, cobertas de canteiros.  Na minha imaginação, trazia meu amigo Túlio Mendhes comigo. Imaginação eu disse? Diante de um roseiral, ouvi uma voz risonha, com sotaque mineiro: “Parece um quadro de Fragonard ou os canteiros de Maria Antonieta em Versailles, não?”. Túlio? “Em carne, osso e cadeira de rodas para servi-la, madame”. Não é possível. Minha vida virou um filme de Kurosawa.

Túlio já estreou no passeio contando piadas, ouvindo histórias e fazendo cara de impressionado. Olhamos juntos as rosas brancas, as vermelhas como sangue, as amarelo-ouro e as róseas que brotavam de cercas, grades e grandes vasos.… leia mais

Blue Jay

1920. Alberta, no atual Canadá.

Sete meses foi o tempo que a mãe de Pássaro Azul precisou para terminar o vestido. A neve chegou e se foi, as flores cobriram a planície e agora, somente com o sol de verão e as fortes chuvas, pôde concluir a roupa de lã vermelha, cor de sangue vivo, com duas fileiras de pequenos enfeites de porcelana em forma de gota. Quem olhasse de longe poderia confundi-las com fios de pérolas. Os olhos da mãe sorriram quando se demoraram sobre o peitilho do vestido bordado de miçangas brancas e canudinhos prateados. Quem, entre os Nakoda, teria vestido com tal beleza uma filha?… leia mais

A arte de cuidar do jardim em meio ao caos

Cela est bien dit, mais il faut cultiver notre jardin.

Voltaire. Candide

Setenta e duas horas em que sucessivos terremotos sacudiram o já chacolhado Brasil. Da hora em que ecoou a música do plantão da Globo anunciando o presidente grampeado até este exato momento, o país convulsiona em mais uma crise de proporções titânicas que se reinventa a cada hora. E as emoções dos brasileiros são como folhas arrastadas pela tempestade da política. Somos marionetes. A cada notícia, o coração dispara e aumenta a sensação de que o fundo do poço ainda está longe. Desesperança em toda parte.

O vazamento da delação de Joesley Batista mergulhou o País em nova e profunda crise moral.… leia mais

Diário de Montreal – Primavera

A primavera vem chegando, tímida, a Montreal. Nas árvores diante da minha casa brotam folhinhas novas e brotos em forma de pequenos cachos nas pontas dos galhos. Há dias em que chove, outros são plenos de frio, mas há também dias de sol e céu muito azul. Como se o inverno hesitasse em partir.

Os canadenses aproveitam cada segundo desse período de bom tempo. As ruas começam a se encher de passantes, os vizinhos tomam sol nas varandas, as casas ganham decoração nova e os bares colocam mesinhas na calçada. Nos quintais, antes cobertos de neve, agora há roupas estendidas no varal sendo balançadas pelo vento forte.… leia mais

Diário de Montreal – Via Crucis

Na Semana Santa eu me dediquei a observar de perto a movimentação em Montreal. A província do Quebec tem uma relação dificílima com a religião católica. Como um relacionamento familiar profundamente desgastado entre pais e filhos muito ressentidos, grande parte da província hoje rejeita a Igreja em vários aspectos, mas a influência católica sobrevive no DNA deste lugar tão singular. Ainda está lá, silenciosa, nas grandes catedrais e na tradição que se imiscui nas datas festivas, reiventando-se a cada dia.

Comecemos por um pouco de história. Um fato determinante no Quebec é a chamada Revolução Tranquila (La Révolution Tranquille), que ocorreu em meados dos anos 60 e se estendeu pela década seguinte.… leia mais

Diário de Montreal: Mozart, neve, poesia

April, April, der weiß nicht was er will. 
Mal Regen und mal Sonnenschein,
Dann schneit’s auch wieder zwischendrein.
April, April, der weiß nicht was er will

Nun seht, nun seht, wie es wieder stürmt und weht.
Und jetzt, oh weh, oh weh,
Da fällt auch dicker Schnee.
April, April, der weiß nicht was er will.”*

Abril chegou em Montreal. Com ele veio a primavera encharcada de chuva e, por vezes, plena de sol. Entre estes – como dizem os versos infantis alemães – há neve.

Há algo de profundamente poético na neve que cai. Começa com uns flocos finos, quase uma chuva branca, que o vento carrega e deposita, com mãozinhas invisíveis, na ponta dos galhos das árvores.… leia mais

Um violinista sem fronteiras

-Mãe, vamos ver a exposição do Chagall?

O convite do filho – duplamente especial por ser ele um artista – chegou como sopro de ar fresco num dia em que a comédia humana se exibia em episódios cada vez mais despudorados nas redes sociais. E era Chagall! Eu jamais havia visto um quadro dele ao vivo. E isso, bem sei, muda tudo. Sem falar que é o pintor judeu por excelência e eu  ansiava por sentir a alma judaica-russa transbordando nas telas.

Passeamos pela vizinhança do museu, admirando as amplas avenidas, os hotéis de luxo, galerias e lojas de grife. Meio Nova York, meio Paris. … leia mais

A gente quer comida, diversão, ballet

Tenho trabalhado no livro. Vê-lo nascer é uma expectativa semelhante à de uma gravidez: entre a angústia e a felicidade, alguns temores e desejos.  Mas hoje vou fazer uma pausa. Pretendo desfrutar de uma apresentação de O Lago dos Cisnes. Já imagino a música de Tchaikovsky escapando dos instrumentos musicais, a leveza das bailarinas, a graça e a força da dança clássica, os cenários exuberantes e ricas vestimentas. E meu coração faz pas de deux com a felicidade antecipada.

Não há como evitar a sensação de que a arte resgata algo de espiritual e puro em mim. Tem a mágica de me transportar para um lugar inalcançável ao humano.… leia mais

Uma biblioteca de bairro

Em Montreal o carnaval é um eco distante que chega pelo Facebook. A vida segue sem feriados, sem dias de folia e também sem a pancadaria que vi alguns amigos denunciando. O ano de trabalho e estudo já começou: por volta do dia 10 de janeiro.

Meu filho me convidou para conhecer a Biblioteca do bairro em que moramos, Rosemont-La Petite Patrie. Era um domingo à tarde e a casa estava cheia. Há um saudável hábito de ler nas bibliotecas públicas, que também servem como espaço de lazer e diversão. Observei neste universo paralelo um intenso calendário de atividades, oportunidade de integração cultural em família e com a vizinhança, além de clube de leitura.… leia mais

E chegou o sol

Se há algo que Montreal está me ensinando é como aproveitar cada momento da vida, tirando o melhor de situações potencialmente adversas. É um povo que não curva ao inverno, que não deixa de fazer coisa alguma por causa da baixa temperatura, das calçadas escorregadias, dos montes de neve acumulados por toda parte.

Depois de três dias e 30 centímetros de neve, eis que o sol chegou. Derreteu uma parte da neve, o vento gelado deu um alívio, os esquilos reapareceram e todo mundo foi patinar e brincar com os filhos no parque. Temperatura de “apenas” -5 graus.

É muito mais agradável caminhar na rua sem aquele vento cortante fustigando o rosto.… leia mais