O poeta e a criminosa

Decidi começar uma vida de crimes. Já me vejo retratada por Gloria Perez em alguma novela futura, as redes sociais ardendo, psicólogos opinando, amigos envergonhados e William Bonner, com ar tão grave, a ler um editorial sobre o fim da inocência. Se apanhada, eu, criminosa não arrependida, direi que a culpa é dessa tal poesia que entra pelos olhos da gente, instala-se como vírus e nos faz amar os que estão mortos há tempos. Gente que se tornou estátua.

É que chutaram o rosto do poeta. Os óculos voaram longe e caíram ao lado do banco. O homem de camisa listrada os recolheu à sacola e saiu andando.… leia mais

No limite entre a ordem e o caos

You got me in between the devil and the deep blue sea.

George Harrison

O dia surge carregado de nuvens cinzas. Uma chuva fina me impede de sair de casa. Ligo o computador e uma chusma de notícias pesadas invade meus olhos com histórias de corrupção, prisões e escândalos. Leio-as. É osso do ofício me manter informada. Seleciono poucas manchetes e fico apenas o mínimo necessário nas leituras chocantes.

Do outro lado do minúsculo apartamento em que vivemos, sinto que Tchekhov me chama. Olho para o livro e releio um de meus contos favoritos: “Um dia no campo (cenazinha)”. Há tanto amor ali e uma delicadeza capaz de renovar mundos.… leia mais

Diário de Montreal – Via Crucis

Na Semana Santa eu me dediquei a observar de perto a movimentação em Montreal. A província do Quebec tem uma relação dificílima com a religião católica. Como um relacionamento familiar profundamente desgastado entre pais e filhos muito ressentidos, grande parte da província hoje rejeita a Igreja em vários aspectos, mas a influência católica sobrevive no DNA deste lugar tão singular. Ainda está lá, silenciosa, nas grandes catedrais e na tradição que se imiscui nas datas festivas, reiventando-se a cada dia.

Comecemos por um pouco de história. Um fato determinante no Quebec é a chamada Revolução Tranquila (La Révolution Tranquille), que ocorreu em meados dos anos 60 e se estendeu pela década seguinte.… leia mais

Sergei Diaghilev: o gênio que revolucionou o ballet

Se há um nome capaz de traduzir a elegância da alta cultura que vicejou na Europa no começo do século 20 é o de Sergei Diaghilev. Empresário de sucesso, amigo e mecenas dos mais importantes artistas de sua época, durante vinte anos ele maravilhou o mundo com o esplendor da arte russa, revolucionou o ballet e revelou o talento de alguns dos  maiores nomes da arte contemporânea.

Serguei Pavlovich Diaghilev nasceu em Perm, na Rússia, em 31 de março de 1872 e consagrou-se como o mais famoso empresário artístico do início do século 20. Sua maior realização foi a criação dos Ballets Russes, a lendária companhia que lançou o primeiro bailarino de fama mundial: Vaslav Nijinsky.… leia mais

Um violinista sem fronteiras

-Mãe, vamos ver a exposição do Chagall?

O convite do filho – duplamente especial por ser ele um artista – chegou como sopro de ar fresco num dia em que a comédia humana se exibia em episódios cada vez mais despudorados nas redes sociais. E era Chagall! Eu jamais havia visto um quadro dele ao vivo. E isso, bem sei, muda tudo. Sem falar que é o pintor judeu por excelência e eu  ansiava por sentir a alma judaica-russa transbordando nas telas.

Passeamos pela vizinhança do museu, admirando as amplas avenidas, os hotéis de luxo, galerias e lojas de grife. Meio Nova York, meio Paris. … leia mais

Um livro por dia em 2017 – Fevereiro

Dia 1 – Monteiro Lobato e a coleção Sítio do Picapau Amarelo.  A obra de Monteiro Lobato destinada ao público infantil é uma das mais ricas da língua portuguesa. Seus personagens retratam um pouco da vida do autor, já que Lobato foi criado em um sítio, chamava-se Bento e era neto de um visconde, o de Tremembé, proprietário de uma enorme biblioteca. As histórias ocorrem em um pequeno sítio no interior do Brasil, onde Dona Benta conta histórias e lendas a seus netos Narizinho e Pedrinho, Tia Nastácia faz incríveis doces, a boneca Emília banca a sabichona e o aristocrático boneco de sabugo de milho, o Visconde de Sabugosa, revela seu conhecimento enciclopédico.  … leia mais

Um livro por dia em 2017 – Janeiro

Minha resolução de Ano Novo foi falar de um livro ou autor por dia, em 2017.

Eis a minha lista de janeiro:

Dia 1:  Shakespeare

Shakespeare. Foto: Sonia Zaghetto

É impossível iniciar qualquer lista de livros ou autores sem falar de William Shakespeare. O bardo britânico é a tradução poética da tragédia e da comédia humanas. São inigualáveis o refinamento e a grandeza com que desnuda o que nos move. Ambição, desejos, ciúmes e angústias estão retratados com extrema crueza e profundidade nas tragédias de Shakespeare – entre as quais destaco Hamlet, Macbeth, King Lear, Romeu e Julieta, A Tempestade, Otelo, Júlio César, Macbeth, Antônio e Cleópatra, Coriolano e Timão de Atenas.… leia mais

A nice cup of tea

 

Se você procurar “chá” no primeiro livro de culinária que pegar, você provavelmente vai descobrir que não há menção a ele; ou, no máximo, você vai encontrar algumas linhas de instruções superficiais que não lhe darão orientações sobre alguns dos pontos mais importantes.

Isto é curioso, não só porque o chá é um dos principais pilares da civilização neste país, bem como da Irlanda, da Austrália e da Nova Zelândia, mas porque a melhor maneira de prepará-lo é objeto de disputas violentas.

Quando olho para minha própria receita da perfeita xícara de chá descubro nada menos que onze pontos marcantes. Em talvez dois deles haveria uma concordância bastante geral, mas pelo menos outros quatro são bem controversos.… leia mais

Casa de flores

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Íris. Vincent van Gogh.

-Vou te fazer uma casa, Soninha.

– Pode ser feita de flor?

E deste dia em diante, ele colheu flores.  Paredes de girassóis, uma porta de rosas: vermelhas, amarelas, brancas.

Janelas de violetas, tapetes de margaridas e um teto de orquídeas. Para vigiar, dentes de leão. Na penteadeira, brincos de princesa. Na sala, lanternas chinesas e a mesa tecida de hortênsias.

Ela leu recostada em íris azuis e amou entre amendoeiras em flor.

Dormiu na cama feita de lírios, coberta por lençóis de angélicas e jasmins.

Um dia acordou e havia, ao lado da cama, uma champa – flor de Bengala.… leia mais

Três Guinéus

virginia2Virginia Woolf é minha autora favorita. Sua escrita sofisticadíssima e criatividade transbordante me fascinaram desde o primeiro instante. Ler Orlando, seja no original ou na impecável tradução de Cecília Meireles, é um presente ao espírito.

Mas foi um livro menos famoso, Three Guineas (Três Guinéus), que me impressionou profundamente, por refletir sobre a até então esquálida participação feminina na política, na literatura e na ciência. Ao lê-lo, tornou-se muito mais evidente o quanto a humanidade perdeu por confinar suas mulheres às alcovas e cozinhas. Ainda hoje sinto uma enorme tristeza ao pensar que houve mulheres tão magníficas quanto Hipatia de Alexandria, Marie Curie, Ada Lovelace, Camille Claudel, Hannah Arendt e a própria Virginia Woolf que jamais puderam expressar seu brilhantismo por viverem em países e épocas que não lhes permitiam o acesso ao estudo e ao trabalho.leia mais