Arrepio de alma

literaturaA alta literatura tem o dom de provocar algo que defino como “arrepio na alma”. Esses três clássicos, externamente miúdos, constituem, do ponto de vista filosófico e literário, janelas para o cosmos da alma humana. O Visconde partido ao meio, de Ítalo Calvino, é um voo de imaginação espetacular sobre os contrastes que carregamos. Narra – com imagens surpreendentes – a história de Medardo de Terralba, que numa cruzada é partido ao meio por um tiro de canhão, passando uma das suas metades a ser inteiramente boa e a outra absolutamente perversa. Lembra o Cândido, de Voltaire, inclusive com o mesmo divertimento irônico, e me parece muito adequado ao nosso moderno maniqueísmo facebookeano.leia mais

De brumas e raios de sol

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Serguei Iessenin. 1922

Para Robin Williams, em 16/08/2014

 

 

O dia surge cinza, pálido e meio sujo de sangue.

Da tela encharcada de vermelho, emerge fumaça e desesperança. Um mundo que desaba, engolido por selfies e selfish. Poucos livros, muitos posts.

Sinto-me como Maiakovski olhando, com ar de apatia, para a parede onde o deprimido Serguei Iessenin escreveu, com o próprio sangue, seu poema de despedida, antes de se suicidar (como se diz hoje em dia e bem eufemisticamente) por asfixia, no Hotel Angleterre:

 

Até logo, até logo, companheiro,

Guardo-te no meu peito e te asseguro:

O nosso afastamento passageiro

É sinal de um encontro no futuro.leia mais

Carta a um amigo renegado

painfulQuerido Machado de Assis,

escrevo-te esta missiva usando a  segunda pessoa do singular, pois acredito que já são poucos os que, no Brasil, usam adequadamente o pronome tu, que tem um ar de tempos passados, senhoriais. Peço-te que releves tal intimidade, dado o nosso longo tempo de convivência. Também é necessário que entendas que escolhi tal forma de tratamento e outros recursos da escrita dos tempos antigos pois assim tenho mais chances de que um possível violador decorrespondências nada compreenda do que vou te narrar. Esta carta  é secreta e assim deve permanecer. Explicar-te-ei agora porque corro sérios riscos ao me ligar a ti.… leia mais

ΛΙΘΟΣ

vincentghettoJ’me sens palote,
Je me sens lote
Les enfants me nettoient
Des inconnus me sortent
A croire quand je me vois
Que je suis déjà morte

(Zaz, Si Je Perds)

Se você acorda e sua sanidade escorre entre os dedos; se sua alma se debate entre tormentos e delírios, o que devo dizer? Qual a palavra exata para restaurar o que se perdeu?

Entre papéis e rotina, o dia me surpreende investigando em que canto escuro você escondeu o que me sempre foi familiar e seguro. O gemido fere meus ouvidos, a cabeça sob o travesseiro consome o que me resta de esperança e me encolho de medo do seu monstro interno que vejo me espreitar, implacável.… leia mais

Peso e pluma

Para ti, Nava

Às vezes acho que os grandes artistas pesam menos que o restante das pessoas. Ou você nunca notou como Horowitz desliza seus dedos sobre o teclado? como se tamborilasse ou fizesse carícias…

E Baryshnikov, que de repente deixa o chão, abre asas e se lança no espaço – pássaro claro – subvertendo a gravidade? Há bailarinas que mal tocam o solo, sílfides, e a Uchida, cuja alma se esconde em algum lugar luminoso tão logo ela pousa as mãos sobre o piano.

Penso também que a mão de Leonardo devia ser quase pluma – sua fina camada de tinta trazendo à tona o rosto das madonas, fazendo-as viver de repente, quase translúcidas, águas-vivas nas telas.… leia mais