A boa fé do cidadão

Já dizia o bom e velho Aristóteles: a virtude é uma disposição interna para agir corretamente e que o cidadão aprimora pelo hábito. Demorou alguns séculos para que os gregos antigos aperfeiçoassem o conceito de areté, que traduzia a noção de excelência no cumprimento do papel que cada indivíduo ou coisa tinha na sociedade. Os filósofos participaram dessa evolução.

Faltam filósofos no Brasil. Não os tivemos jamais. Nos dias atuais, então, em que filósofo de verdade é artigo raro no planeta todo, no máximo caminham entre nós uns aspirantes a guru, arremedos de pensadores, incapazes de ocultar a vaidade e a sede de curtidas no Facebook.… leia mais

Cenas de jardim

Entrei no Jardim Botânico de Montreal com os olhos arregalados. Alamedas limpas, iluminadas pelo sol, cobertas de canteiros.  Na minha imaginação, trazia meu amigo Túlio Mendhes comigo. Imaginação eu disse? Diante de um roseiral, ouvi uma voz risonha, com sotaque mineiro: “Parece um quadro de Fragonard ou os canteiros de Maria Antonieta em Versailles, não?”. Túlio? “Em carne, osso e cadeira de rodas para servi-la, madame”. Não é possível. Minha vida virou um filme de Kurosawa.

Túlio já estreou no passeio contando piadas, ouvindo histórias e fazendo cara de impressionado. Olhamos juntos as rosas brancas, as vermelhas como sangue, as amarelo-ouro e as róseas que brotavam de cercas, grades e grandes vasos.… leia mais

Blue Jay

1920. Alberta, no atual Canadá.

Sete meses foi o tempo que a mãe de Pássaro Azul precisou para terminar o vestido. A neve chegou e se foi, as flores cobriram a planície e agora, somente com o sol de verão e as fortes chuvas, pôde concluir a roupa de lã vermelha, cor de sangue vivo, com duas fileiras de pequenos enfeites de porcelana em forma de gota. Quem olhasse de longe poderia confundi-las com fios de pérolas. Os olhos da mãe sorriram quando se demoraram sobre o peitilho do vestido bordado de miçangas brancas e canudinhos prateados. Quem, entre os Nakoda, teria vestido com tal beleza uma filha?… leia mais

Túlio e a árvore de bordo

Outras vezes ouço passar o vento. E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. (Caeiro)

Diante de minha janela há uma árvore de bordo. Durante o inverno, seus galhos secos e gelados estavam cobertos de neve. Pareciam mortos. Eu a vi renascer na primavera. Primeiro uns brotos verde-claros, seguidos de mini flores amarelas, folhas de cor púrpura e agora verdes. Está linda, no auge de sua vida. O tronco tem casca grossa, com ranhuras em verde e marrom. Dentro dele corre uma seiva grossa e doce. Fecho os olhos e passo os dedos nas folhas.… leia mais

Aprendiz de feiticeiro vai às compras

– Olha a alma aí, gente! É baratinha, está em promoção.

– Moço, quanto custa a alma de primeira?

– Veja bem. É uma alma de primeira, cultivada. Não é fácil mantê-la. E o custo de manutenção, então? Altíssimo! É preciso muito engenho e experiência para manter essas. Não quer ver nossos exemplares mais simples?

– O que você tem em termos de almas mais simples?

– Ah, temos vários modelos em promoção. Venda por atacado, você sabe. O mercado está cheio desse produto. Não é tão valorizado.

– Quero uma dúzia. Como faz para ela não fugir?

– Depende. Tem vários jeitos, mas nossos técnicos aconselham que, tão logo ela se acostume a você, mantenha-a sempre alimentada.… leia mais

No limite entre a ordem e o caos

You got me in between the devil and the deep blue sea.

George Harrison

O dia surge carregado de nuvens cinzas. Uma chuva fina me impede de sair de casa. Ligo o computador e uma chusma de notícias pesadas invade meus olhos com histórias de corrupção, prisões e escândalos. Leio-as. É osso do ofício me manter informada. Seleciono poucas manchetes e fico apenas o mínimo necessário nas leituras chocantes.

Do outro lado do minúsculo apartamento em que vivemos, sinto que Tchekhov me chama. Olho para o livro e releio um de meus contos favoritos: “Um dia no campo (cenazinha)”. Há tanto amor ali e uma delicadeza capaz de renovar mundos.… leia mais

A caixa mágica

Houve um tempo em que os dias passavam mais lentamente. Um tempo em que se olhava nos olhos das pessoas. Um tempo de livros, de árduo trabalho e de cadeiras na porta das casas. Nele, a vida se esvaía como sempre e o mundo seguia seu ritmo. Os homens sabiam de que lado nascia o sol e conheciam os nomes das estrelas no céu de verão.

Numa tarde desse tempo em que se sonhava com terras longínquas, os sábios trouxeram uma caixa mágica, onde se concentravam todas as maravilhas. Ao abri-la, os homens comuns descobriram um novo universo, muito semelhante ao seu.… leia mais

Pandora

Pandora. Por John William Waterhouse

Às seis da manhã, em Montreal, ligo o computador para ver as notícias do Brasil. A primeira delas me afronta. Uma faixa carregada por torcedores proclama a extensão de nossa miséria: “Somos todos Bruno”. Refere-se ao goleiro acusado de matar e mandar atirar aos cães o corpo de Eliza Samudio. As demais notícias dão conta da monstruosa teia de corrupção que enreda o país.

Ponho a chaleira no fogo, vejo a neve que derrete lá fora e algo como uma dor lancinante vai tomando conta deste meu coração saudoso. Sinto que a aparentemente infinita caixa de tragédias ainda não se esgotou.… leia mais

Sal na moleirinha

Mais de R$ 450 milhões foram distribuídos pela Odebrecht a políticos das três esferas do governo, aponta levantamento do jornal “O Estado de São Paulo”. Um número capaz de escandalizar qualquer cidadão decente. Não aqui, no país da superlativa corrupção, onde Marcelo Odebrecht fala de quantias assombrosas como se mencionasse troco de picolé. Não na terra em que muitos denunciados continuam a desfrutar do apoio incondicional de sua legião de fanáticos.

O conteúdo dos depoimentos de Marcelo Odebrecht e seu pai é igual à morte anunciada de um parente: intuímos o que vai ocorrer e acreditamos estar preparados, mas, na hora que acontece de verdade, sobrevém o baque doloroso.

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Diário de Montreal: Mozart, neve, poesia

April, April, der weiß nicht was er will. 
Mal Regen und mal Sonnenschein,
Dann schneit’s auch wieder zwischendrein.
April, April, der weiß nicht was er will

Nun seht, nun seht, wie es wieder stürmt und weht.
Und jetzt, oh weh, oh weh,
Da fällt auch dicker Schnee.
April, April, der weiß nicht was er will.”*

Abril chegou em Montreal. Com ele veio a primavera encharcada de chuva e, por vezes, plena de sol. Entre estes – como dizem os versos infantis alemães – há neve.

Há algo de profundamente poético na neve que cai. Começa com uns flocos finos, quase uma chuva branca, que o vento carrega e deposita, com mãozinhas invisíveis, na ponta dos galhos das árvores.… leia mais