Diário da Crise 19/03/2016

bruxas
As três bruxas, de Henry Fusel.

Sangra, então, grande pátria…

Shakespeare. Macbeth

Shakespeare soube, como ninguém, unir política e tragédia. Suas palavras precisas traduzem os abismos em que mergulham os insensatos homens, vítimas da vaidade, da corrupção e da cobiça.

Em Macbeth, o bardo inglês impôs duríssima pena aos poderosos que abriram mão da conduta retilínea para sucumbirem à ambição desmedida.  O general Macbeth ouve a profecia de três bruxas, que preveem que ele será rei. Seduzido pelo poder,  ultrapassa todos os limites da decência: trai amigos e conquista o trono. Seguem-se anos felizes, mas a lembrança dos crimes cometidos e a ilusão intoxicante do poder cobram seu preço e abatem o tirano, cujos desmandos já não são tolerados nem por seus pares nem por seu povo.… leia mais

Diário da Crise 17/03/2016

alfred_hitchcock_presentsA apocalíptica divulgação das gravações de telefonemas do ex-presidente Lula mostrou ao país que, além de abusar da linguagem chula e do deboche, alguns dos mais proeminentes personagens públicos brasileiros acreditam que são donos das instituições e, para tanto, estão autorizados a valer-se de expedientes escusos e a cobrar, com juros, as indicações para postos-chave da República.

Parece coisa de cinema o resumo dos principais fatos de hoje:

  1. Ligações Perigosas – As gravações de Lula revelaram o que, de fato, o ex-presidente pensa a respeito dos adversários e dos aliados (que chama de peões); e que espera “gratidão”, sob a forma de benesses e proteção, da parte daqueles que indicou para cargos destacados, como é o caso do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal.
leia mais

Diário da Crise – 16/03/2016 – A profetisa e o caos

Michelangelo_Delphic_Sybil_cropped
Sibila délfica. Michelangelo.

A divulgação a conta-gotas dos detalhes da delação premiada do senador Delcídio do Amaral parece uma estratégia cuidadosamente pensada para corroer o governo, desestabilizar os personagens centrais e gerar tremenda incerteza sobre o próximo passo a ser dado pela Força Tarefa da Lava-Jato..

Não à toa que o ex-presidente Lula hesita em assumir um ministério. Além da tensão dos últimos dias e das dúvidas sobre o que virá, há o desgaste que ele sabe que enfrentará com a interpretação generalizada de que pretende evitar ser julgado por Sérgio Moro.

O dia surgiu com uma novidade: o primeiro trecho do vídeo da delação de Delcídio  que – como todos sabem em Brasília –  é ainda mais chocante que os documentos da colaboração premiada.… leia mais

Diário da crise 15/03/2016

Jean-Leon_Gerome_Pollice_Verso
Pollice Verso, pintura de Jean-Léon Gérôme

A expressão latina Pollice Verso (polegar virado) era usada nas lutas de gladiadores no grande circo romano. Ela definia o gesto com que os espectadores julgavam o gladiador derrotado, condenando-o à morte. Na ampla arena de vergonhas em que se converteu a política nacional, temos assistido a muitas lutas. Diante dos nossos olhos assombrados, hoje, mais uma vez, várias personagens lutaram para sobreviver: engalfinharam-se, apresentaram versões, trocaram acusações e traíram os amigos da véspera.

A nós, testemunhas da colossal refrega, restou decidir o que fazer com os gladiadores de Brasília. Nossos polegares voltados para baixo, senhores, traduzem nossa sentença: não queremos sua extinção física, mas temos forte esperança em sua morte política.… leia mais

Diário da Crise – 14/03/2016

escher
Olho. Escher.

Após as manifestações de ontem, que reuniram pelo menos 3 milhões de brasileiros, a semana continua a se anunciar explosiva para o governo, seus aliados e a oposição, que saiu chamuscada das ruas. A expectativa que se confirma a cada dia é que a Lava-Jato vai atingir diretamente vários partidos e políticos – inclusive alguns especialistas na arte da sobrevivência.

Eis as principais notícias até agora:
1) A juíza Maria Priscilla Ernandes, da 4ª Vara Criminal de São Paulo, decidiu mandar para o juiz Sérgio Moro a denúncia e o pedido de prisão feitos pelo Ministério Público estadual contra o ex-presidente Lula, no caso do tríplex do Guarujá.
leia mais

De inferno e liberdade

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.
William Ernest Henley – Invictus
 
delacroix
A barca de Dante. Eugène Delacroix.

Conheço pessoas com vocação para a tutoria. Carregam uma incrível habilidade para ditar normas para amigos e familiares, que consideram crianças espirituais, incapazes de gerir a própria vida. Parecem aquelas avós que nos servem comida insistentemente, inclusive os alimentos que não desejamos.

Aferradas às suas convicções pessoais, tais pessoas não concebem que o outro  possa pensar diferente. O outro? Ah, o outro não sabe o suficiente, não aprendeu a pensar, não tem coração.
leia mais

Diário da crise 12/03/2016

dalí lendo jornalA palavra atual para definir o Brasil é vertigem. Uma sucessão de notícias que nos engolfam e sequer dão tempo de serem adequadamente processadas, pois em poucas horas serão superadas por uma nova avalanche de informações.

Hoje, sábado (12/03), os jornais, revistas e sites de notícias trouxeram mais uma série expressiva de informações, a  maior parte delas baseadas em uma reportagem exclusiva da revista IstoÉ, que, pela segunda semana consecutiva, publica os detalhes explosivos da delação premiada do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) .

Eis as TOP TEN do sábado: as dez principais notícias do dia. Se desejar, clique no nome do veículo e leia a matéria completa:

 

  1.  Um bilhete de Alberto Youssef ligaria a presidente Dilma Roussef ao doleiro já condenado na Lava-Jato. 
leia mais

Memento mori

vincentAssisti ao discurso do ex-presidente Lula da forma o mais isenta possível e mente aberta. Obviamente não esperei grandes mudanças, mas imaginei que haveria um pouco de autocontrole como demonstração de inteligência. Aguardei alguma demonstração de contenção, se não por gestão de imagem, mas como medida destinada a não aumentar a grande fogueira dos ódios deste país. Imaginei que, dado o momento inédito em sua vida, manifestaria algum respeito aos milhões de brasileiros cujas mentes não se curvam à retórica barata. Em vão: palavras vazias, em uma fala recheada de clichês e tolices, plena de auto louvação, piadas grosseiras, delírios narcisistas e frases piegas que comoveriam apenas pré-adolescentes ou amigos encharcados de boa vontade.leia mais

Três Guinéus

virginia2Virginia Woolf é minha autora favorita. Sua escrita sofisticadíssima e criatividade transbordante me fascinaram desde o primeiro instante. Ler Orlando, seja no original ou na impecável tradução de Cecília Meireles, é um presente ao espírito.

Mas foi um livro menos famoso, Three Guineas (Três Guinéus), que me impressionou profundamente, por refletir sobre a até então esquálida participação feminina na política, na literatura e na ciência. Ao lê-lo, tornou-se muito mais evidente o quanto a humanidade perdeu por confinar suas mulheres às alcovas e cozinhas. Ainda hoje sinto uma enorme tristeza ao pensar que houve mulheres tão magníficas quanto Hipatia de Alexandria, Marie Curie, Ada Lovelace, Camille Claudel, Hannah Arendt e a própria Virginia Woolf que jamais puderam expressar seu brilhantismo por viverem em países e épocas que não lhes permitiam o acesso ao estudo e ao trabalho.leia mais

La vie en rose et noir

the_eye_of_time_1949Acordei encharcada de Dali, Magritte e Kafka. Vivo duas vidas simultaneamente. Em uma delas, um povo festeja, embriagado por superficialidades, enquanto em outra um país é engolido por uma sucuri gigante, envolvente, que enrola seu corpo gosmento em torno de meus sonhos de ética.

Em uma das vidas, minha casa se incendeia. Grandes línguas de fogo destroem o lugar em que cresci; suas labaredas já consumiram a vizinhança e se aproximam de meu sofá. Em outra, meus amigos inundam minha timeline com receitas de brigadeiro gigante e fotos fofinhas de um mundo sorridente.

Em uma das vidas, minha mente voa livre, plena e poderosa.… leia mais