Diário da Crise 29/04/2016

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A morte de Sócrates. Jacques-Louis David.

“O discurso é um grande soberano que, com o mais diminuto e invisível corpo, executa as mais divinas obras, pois ele pode cessar o medo, arrancar a tristeza, suscitar a alegria e intensificar a compaixão”.  Em um dos mais emblemáticos textos do primeiro movimento sofístico, O Elogio de Helena, o retórico grego Górgias buscou provar o imenso poder das palavras.

Demonstrou que o discurso direciona o pensamento dos homens que, por ele, são persuadidos; torna-os escravos de ideias alheias e os força a confiar no que é dito e a aprovar o que é feito.leia mais

Diário da Crise 28/04/2016

 

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Os jogadores de xadrez. Thomas Eakins.
O jogo de xadrez político prossegue em Brasília.
Enquanto o processo de impeachment segue no Senado,  já com número suficiente de votos para garantir o afastamento da presidente Dilma Rousseff, o governo tenta obter apoio interno e externo à tese de que a presidente é vítima de um “golpe”.
Simultaneamente, busca-se estratégias que impeçam o vice-presidente Michel Temer de assumir a Presidência da República. É o caso da proposta, apresentada hoje ao Planalto, de Dilma renunciar e apoiar uma Proposta de Emenda Constitucional com o objetivo de convocar novas eleições para um mandato tampão, de dois anos, em outubro.
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Diário da Crise 27/04/2016

 

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Sandro Botticelli. Calúnia.

Na Galleria degli Uffiziem Florença, há uma pintura de Sandro Botticelli – Calúnia. Datada de 1495, tenta recriar uma obra perdida da Antiguidade, de autoria do pintor Apeles.  No quadro, o rei, com orelhas de burro e de olhos baixos, sem ver o que está à sua frente, ouve as envenenadas palavras que a Ignorância e a Desconfiança lhe sussurram. De pé, um homem encapuzado, a Inveja, estende seu longo braço em direção ao rei. Ele segura a Calúnia pelo pulso e esta arrasta pelos cabelos o homem caluniado. Calúnia carrega uma tocha acesa, como se viesse trazer luz sobre o caso.… leia mais

Diário da Crise 26/04/2016

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Peter Paul Rubens. A Queda de Féton. 1604

O poeta romano Ovídio narra, em suas Metamorfoses, a história de Faeton, filho de Hélio, que implorou ao pai para conduzir a carruagem do sol no céu. Sem força e experiência para controlar o carro, Faeton assiste, aterrorizado, aos cavalos se soltando e queimando tudo em seu caminho. Com a terra em vias de ser destruída, Zeus intervém e lança um raio que desintegra o carro. É o fim de Faeton.

A intervenção extrema que interrompe a trajetória do carro desgovernado, a espalhar destruição graças à inabilidade de quem o conduz, é a perfeita metáfora do inábil governo que agoniza.… leia mais

Diário da Crise 24/04/2016

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Ricardo II da Inglaterra.

Inspirada em um artigo do ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, sobre Shakespeare e o Impeachment, inicio este Diário da Crise com uma das falas mais emblemáticas da tragédia que narra o destino do rei  Ricardo II, da Inglaterra. O bardo inglês colocou na boca de um jardineiro a razão pela qual o infeliz monarca seria deposto.

Que pena o rei não ter cultivado o país como o fazemos com o jardim. Na estação apropriada fazemos uma incisão na casca – a pele das nossas árvores frutíferas – por medo de que o excesso de seiva e sangue as deixe muito orgulhosas, vindo a se destruírem por causa da própria riqueza.leia mais

Diário da Crise 21/04/2016

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Túmulo de Maria Antonieta e Louis XVI. Basílica de Saint-Denis. Paris. Arquivo Sonia Zaghetto.

Sentada estava a Rainha, sentada, a olhar a cidade.

Quando fora, tudo aquilo? Em que lugar? Em que idade?

Vassalos, mas de que reino? Reino de que Majestade?

Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência

 

A presidente Dilma Rousseff a cada dia mais se aproxima daqueles personagens trágicos, vítimas de si mesmos, impermeáveis aos conselhos dos assessores mais prudentes, fechados em suas opiniões e inflexíveis na fidelidade à sua estreita visão de mundo.

Não percebe que sua atitude – que ela supõe desafiadora mas que soa como arrogante – ajuda a alimentar o ódio que se espalha sem controle pelo país a cada vez que pronuncia a palavra “golpe”.… leia mais

Panem et circenses

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Jean-Léon Gérôme. Circus Maximus.

O pior analfabeto é o analfabeto político. Bertolt Brecht.

Os romanos, que antes eram tão poderosos, tornaram-se
escravos de prazeres corruptores e só precisam de pão e circo. Juvenal.

 

Governos moribundos costumam deixar um travo amargo na boca da coletividade – seja dos protagonistas, dos antagonistas ou da população que a tudo assiste. Não é diferente agora, no Brasil. A longa agonia do governo Dilma minou as almas, espalhando cansaço e uma sensação de ressaca moral após os longos embates, com manobras, sustos diários, reviravoltas espetaculares, decepções e vitórias. Mas, embutida no traumático processo, surgiu pelo menos uma boa notícia: a consciência de que é chegada a hora da população brasileira conhecer e participar mais ativamente da vida política.
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Diário da Crise 19/04/2016

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Raffaele Giannetti. The Last Senate of Julius Caesar.

A votação na Câmara dos Deputados ficou para trás. Os holofotes se concentram agora sobre o Senado Federal, que deverá votar a admissibilidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Mas não só a presidente atravessa dias tumultuados: o presidente da Câmara, Eduardo Cunha; e o advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, foram alvo de novas denúncias.

Eis as principais informações do dia.

O presidente do Senado, Renan Calheiros, decidiu remarcar a data em que a composição da Comissão Especial do Impeachment será votada no Senado. Será na próxima segunda-feira, dia 25.… leia mais

Diário da Crise – 18/04/2016

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Futebol em Brodósqui. Cândido Portinari.

Neste momento, o mundo todo está de olho no fabuloso escrete brasileiro. A toda hora e em toda a parte, há quem chegue e rosne ao nosso ouvido: — “Ofereceram tanto por fulano, tanto por cicrano, tanto por beltrano!”

Nelson Rodrigues. O escrete é nosso.

 

Somos de fato o país do futebol. Se havia alguma dúvida sobre isso, dissipou-se ontem – um  dos dias mais importantes de nossa história recente – quando o plenário da Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de  impeachment da presidente Dilma RousseffA votação da matéria, cuja análise agora cabe ao Senado e pode levar à saída da presidente, me fez evocar Nelson Rodrigues em várias ocasiões.… leia mais

Diário da Crise 16/04/2016

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Hieronymus Bosch.

Purgatório é uma casa de penhores, que empresta

sobre todas as virtudes, a juro alto e prazo curto.
Machado de Assis.

No fim da Idade Média, na França, eram comuns as bassin des âmes (bacias das almas)irmandades que angariavam fundos para financiar missas e ofertas em favor das almas do purgatório. Acreditava-se que era peculiar a situação dos que estavam no purgatório: contemplavam as delícias do céu, mas estavam submetidos às torturas do Inferno. Queriam ser alçados ao paraíso, mas, como já não viviam na Terra, não podiam fazer penitências ou oferendas que lhes expiassem os pecados.

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