Lula vai à ONU – Os melhores momentos

cordel01As 39 páginas da denúncia do ex-presidente Lula à Corte Internacional de Direitos Humanos das Nações Unidas constituem um tratado de vitimização e de auto-louvação. Lula parece ver a si mesmo como herói de uma saga de literatura de cordel. Perante o texto, a sensação que se tem é que o ex-presidente está em pânico devido à possibilidade real de vir a ser preso pelo juiz Sérgio Moro. No último parágrafo está explícito o temor de Lula: ele lembra que, por decisão do Supremo Tribunal Federal, em 13 de junho de 2016, todas as treze investigações sobre ele foram devolvidas ao juiz Moro que, em 24 de junho, ordenou sua descontinuidade.… leia mais

Tempo de despertar

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Ulisses e as sereias. John William Waterhouse.

A passeata seguia sem alterações: carro de som, camisas vermelhas, gritos de “Fora, Temer” – tudo dentro do padrão normal de manifestações pró-Dilma Rousseff. De repente, a vida deu uma daquelas reviravoltas inesperadas cuja instantaneidade desarma. Um homem subiu num poste para dar visibilidade e força à sua indignação. Queria marcar posição, ser o mais ativo, provar que não temia ir mais longe quando se tratava de defender sua musa política?  Alguém  filmava o feito à distância, algumas pessoas advertiram: “Você vai morrer!”. Não adiantou. Subiu ainda mais. Veio a descarga elétrica. Uma fração de segundo, a mão no lugar errado e a vida se foi.… leia mais

A hidra

Lernaean_Hydra_Getty_Villa_83.AE.346Ando trocando as pernas ultimamente. Bêbada de sono e desgosto, escrevo esta crônica mal humorada. É que ando cansada de assistir à luta contra essa hidra de mil cabeças chamada corrupção brasileira. Mas que raio de bicho é esse que não morre nunca? Mal lhe cortam uma cabeça, nascem mil outras em seu lugar.

E o que é essa nossa gente sem sangue? Já me perguntei várias vezes o que lhes corre nas veias. Creio que é anestésico. Ou Lexotan, vai saber. O certo é que se arrastam feito zumbis, incapazes de reagir. Zumbis, não! Bovinos, que com seus olhinhos redondos e dóceis se conformam em sacudir as orelhas para espantar os vorazes parasitas que lhes devoram as carnes.… leia mais

Os jogos do Rio, vistos pelo New York Times

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Corpo flutua na baía de Guanabara. Foto: Lalo de Almeida para o The New York Times

O jornal norte-americano The New York Times fez uma radiografia da sujeira nas águas e na cidade do Rio de Janeiro. O texto do jornalista Andrew Jacobs pode ser lido aqui, no original (clique e veja também as fotos).

Abaixo está a tradução livre do texto:
Andrew Jacobs
The New York Times

RIO DE JANEIRO – Especialistas em saúde no Brasil têm um conselho para os nadadores de maratona aquática, velejadores e windsurfistas olímpicos que vão competir nas águas de cartão-postal do Rio de Janeiro no próximo mês: mantenham a boca fechada.

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Índia – Parte 5 – Calcutá

O dia era 20 de dezembro de 2008. Chegamos em Kolkatta (Calcutá), capital e maior cidade de West Bengal (Bengala Ocidental). A metrópole situada às margens do rio Hugli reúne nada menos 14 milhões de habitantes em sua região metropolitana. É muito poluída, tem um trânsito conhecido por não perdoar os distraídos e um distrito que é o resumo da miséria humana em termos de pobreza e exploração sexual de mulheres e crianças: Sonagachi (foto aqui). Expectativa desta sonhadora que vos fala: conhecer a terra onde floresceram os mais requintados artistas indianos e a capital do Raj Britânico.… leia mais

Índia – Parte 4 – Bhubaneswar

IMG_4170Bhubaneswar nos surpreendeu de várias formas. Uma Índia mais “arrumada” (para os padrões ocidentais) e um hotel realmente limpo – o Ginger, do Grupo Tata. Vou fazer uma pausa na narrativa para falar do conglomerado Tata, que é onipresente na Índia. Duvida? Veja isso aqui (em inglês) ou isso aqui (em português) e deixe seu queixo despencar. Mr. Tata está comandando tudo: produção de remédios e carros, aço, energia, companhias aéreas, comida – e o que mais a sua imaginação autorizar.

O Ginger é um hotel de padrão ocidental, serviço sem luxo, porém competente, com Internet provida pelo grupo Tata.… leia mais

A queda de Ícaro – Diário da Crise 07/07/2016

Hoje Eduardo Cunha chorou. Para surpresa dos que acompanhavam a coletiva de imprensa em que anunciou sua renúncia à Presidência da Câmara dos Deputados,  Cunha – até então a moderna representação da frieza e do autocontrole – curvou a cabeça. A voz embargada e  os olhos marejados não sensibilizaram a nação. De imediato, a Internet foi tomada  por piadas e as redes sociais por toda sorte de comemorações.

A renúncia de Cunha remete à figura mitológica de Ícaro, metáfora grega para a ambição representada por altos voos seguidos por espetaculares quedas. Filho de Dédalo, o construtor do labirinto de Creta, Ícaro ficou preso junto com o pai no próprio labirinto.… leia mais

O inferno é aqui – Diário da Crise 04/07/2016

“Não há outro inferno para o homem, além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes”.

Marquês de Sade

L'enlèvement_de_Proserpine_Nancy_3018Na antiguidade grega, o poeta Hesíodo narrou o mito de Perséfone. Deusa de flores, frutos e perfumes, sua beleza arrebatava o Olimpo. Mas a filha de Zeus e Deméter foi raptada pelo tio Hades, mudando-se para o infernal mundo subterrâneo. Sua mãe, deusa da agricultura e das colheitas, ficou inconsolável. Aos poucos, a terra tornou-se estéril e a fome tomou conta do mundo. Finalmente Deméter descobriu que a filha estava no reino dos mortos e pediu a Zeus que a restituísse. O rei dos deuses consentiu, desde que Perséfone não ingerisse alimento algum no submundo.
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Brainwashed

Para George

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Edouard Manet – Le Déjeuner sur l’Herbe

Minha amiga decidiu raspar a cabeça. E o fez porque gosta e acha prático. Foi uma comoção: a mãe chorou, estranhos a olharam com muita compaixão, supondo que enfrentava os efeitos de uma quimioterapia; e houve quem se afastasse dela no ônibus, estampando nos olhos o temor de contágio de alguma doença.

Bastou cortar os cabelos para acender a imaginação das pessoas. Um mundo de suposições, preconceitos e medos tomou conta de amigos e desconhecidos. Enquanto ela me contava, aos risos, a experiência, lembrei que vários amigos homens também optam pela máquina zero sem causar uma comoção.… leia mais

Índia – parte 3: o Taj Mahal

IMG_3559Na manhã seguinte acordamos cedo e rumamos para o Taj Mahal. Na véspera passamos em uma loja e comprei roupas  indianas (um costureiro de plantão fez os ajustes), já que as malas ainda estavam desaparecidas.

Chegamos ao monumento bem cedo. Uma bruma envolvia o túmulo de Mumtaz Mahal, cujo nome verdadeiro era Arjumand Bano Begum. O mausoléu é o fim de uma história rara na antiguidade: amor e paixão intensos em um casamento real. Mas a princesa persa e o imperador Shah Jahan se amavam e ela morreu ao dar à luz seu décimo-quarto filho. O viúvo planejou todos os detalhes do túmulo situado às margens do sagrado rio Yamuna.… leia mais