Ovo de girafa

April, girafa que vive no Animal Adventure Park, em Harpursville, New York, está prestes a ter um bebê. Nenhuma novidade. Há milhares de anos as girafas põem no mundo suas girafinhas sem que isso cause qualquer comoção. Não April. Não em época de redes sociais.

Há quatro dias as pessoas observam April por uma câmera instalada em seu quartinho (veja aqui). Aguardam pelo nascimento do bebê. A certa altura, trinta mil pessoas do mundo inteiro espiavam juntas a girafa andar de um lado para o outro, comer verduras e lamber a câmera.

Nada acontecia, mas essa contemplação voluntária parece ter feito muito bem a todos.… leia mais

A gente quer comida, diversão, ballet

Tenho trabalhado no livro. Vê-lo nascer é uma expectativa semelhante à de uma gravidez: entre a angústia e a felicidade, alguns temores e desejos.  Mas hoje vou fazer uma pausa. Pretendo desfrutar de uma apresentação de O Lago dos Cisnes. Já imagino a música de Tchaikovsky escapando dos instrumentos musicais, a leveza das bailarinas, a graça e a força da dança clássica, os cenários exuberantes e ricas vestimentas. E meu coração faz pas de deux com a felicidade antecipada.

Não há como evitar a sensação de que a arte resgata algo de espiritual e puro em mim. Tem a mágica de me transportar para um lugar inalcançável ao humano.… leia mais

Uma biblioteca de bairro

Em Montreal o carnaval é um eco distante que chega pelo Facebook. A vida segue sem feriados, sem dias de folia e também sem a pancadaria que vi alguns amigos denunciando. O ano de trabalho e estudo já começou: por volta do dia 10 de janeiro.

Meu filho me convidou para conhecer a Biblioteca do bairro em que moramos, Rosemont-La Petite Patrie. Era um domingo à tarde e a casa estava cheia. Há um saudável hábito de ler nas bibliotecas públicas, que também servem como espaço de lazer e diversão. Observei neste universo paralelo um intenso calendário de atividades, oportunidade de integração cultural em família e com a vizinhança, além de clube de leitura.… leia mais

E chegou o sol

Se há algo que Montreal está me ensinando é como aproveitar cada momento da vida, tirando o melhor de situações potencialmente adversas. É um povo que não curva ao inverno, que não deixa de fazer coisa alguma por causa da baixa temperatura, das calçadas escorregadias, dos montes de neve acumulados por toda parte.

Depois de três dias e 30 centímetros de neve, eis que o sol chegou. Derreteu uma parte da neve, o vento gelado deu um alívio, os esquilos reapareceram e todo mundo foi patinar e brincar com os filhos no parque. Temperatura de “apenas” -5 graus.

É muito mais agradável caminhar na rua sem aquele vento cortante fustigando o rosto.… leia mais

Por uma vida menos ordinária

A experiência de viver em outro país exige que o olho se acostume a novas paisagens e a alma a outros hábitos. Ontem e hoje dediquei algumas horas a observar este novo mundo, a partir de minha janela.

Depois de uma nevasca de dois dias, os esquilos desapareceram completamente, assim como os carros dos vizinhos, que ficaram soterrados pela neve. Durante a manhã, pais levaram seus filhos normalmente à escola, todo mundo saiu para trabalhar, o carteiro passou entregando a correspondência e muita gente levou seus animais de estimação para caminhar. A vida segue normalmente, apesar da neve, do frio e do vento cortante. … leia mais

Arte, arte em toda parte!

Le temps de s’adorer
De se le dir’… Le temps
De s’fabriquer des souvenirs…
(Piaf. Mon Dieu)

Pour toi, mon fils adoré.

A música estava bem pertinho dos ouvidos e do coração. Na segunda fileira de bancos, ouvíamos a respiração dos músicos, acompanhávamos os sorrisos e olhares que trocavam, captávamos quando a melodia escapava dos instrumentos e estendia suas carícias até nós. As notas fluíam pela nave da catedral anglicana Christ Church, em Montreal, visitavam os santos e os escaninhos, salpicando bálsamos na alma da gente. De vez em quando, meu filho se voltava para mim, com os olhos brilhantes e um sorriso feliz e cúmplice.… leia mais

Um novo mundo

Acordei e estava nevando. Uns flocos pequenos caindo do céu se aninhavam no colo das árvores. O chão  se convertendo em tapete branco. Dediquei alguns minutos para ver os flocos flutuarem enquanto ouvia Vivaldi e seu inverno (veja e ouça aqui). Agora sei o que o padre ruivo pensava ao compor essa peça linda.

Há algo de fúria seguida de silêncio e pacificação. Os flocos dançam, alegremente, diante de minha janela. São milhares e até posso ouvir suas risadinhas enquanto escorregam para a terra. Ah, mas quando se depositam nas coberturas das casas, nos corrimões externos e nas calçadas, já não têm identidade.  … leia mais

De neve e de sol

Fiz uma longa reflexão sobre a neve.

Rebeca, minha nora, me disse que, em geral, aqui em Montreal as pessoas ficam mais introspectivas nessa época do ano. É um tempo para ficar em casa, dar atenção à família e de refletir sobre si mesmo. No verão, quando as temperaturas são dignas de verão carioca, é uma efervescência: churrascos, festas na rua, todo mundo varando as noites.

Até os relacionamentos aqui seguem esse ritmo ditado pela temperatura dos dias. O verão é a época de conseguir um namorado ou namorada. No outono se cultiva esse relacionamento. No inverno, é a consolidação. Quase ninguém se separa no inverno – mesmo porque dá um trabalho enorme fazer mudança a uma temperatura de 20 graus negativos.… leia mais

E a vida segue calma em Montreal

Aqui no Quebec a vida segue calma. Acordo muito cedo, em torno de 5h30 da manhã. Leio, atualizo o blog, tomo o café da manhã e trabalho no livro até as 16 horas. Durante o dia inteiro, completa paz, silêncio e chá preto. No fim do dia, uma hora de yoga. Preparo o jantar e espero Alex chegar da Universidade, enquanto dou uma rápida olhada nas redes sociais e nos sites de notícias.

Ontem, a única alteração digna de nota foi a energia elétrica, que sumiu no meio da tarde. De imediato olhei para o casaco, anotei mentalmente onde estavam minhas botas e, dramaticamente, me imaginei sendo encontrada daqui a 800 mil anos sob um bloco de neve, abraçada a vários livros.… leia mais

Nem turista nem moradora: estou no limbo

Sonia Zaghetto

Mesinha de trabalho.

Decidi dar a Montreal a chance de ela mesma se revelar a mim. Obviamente li um pouco sobre a cidade, mas já sei que os lugares podem ser bem diferentes do que imaginamos ou as outras pessoas os percebem. Assim, esse diário é sobre as minhas impressões acerca da cidade na qual vou morar por um ano.

Aqui não sou turista nem moradora definitiva: estou no limbo. Portanto, a casa deve ser mobiliada com parcimônia. É uma bela experiência viver com menos. Minha casa no Brasil tem milhares de livros, dezenas de roupas de cama e mesa, alguns aparelhos de chá e centenas de objetos indianos, chineses, japoneses e gregos – minha caverninha de Aladim, repleta de pequenas quinquilharias que brilham.… leia mais