Pandora

Pandora. Por John William Waterhouse

Às seis da manhã, em Montreal, ligo o computador para ver as notícias do Brasil. A primeira delas me afronta. Uma faixa carregada por torcedores proclama a extensão de nossa miséria: “Somos todos Bruno”. Refere-se ao goleiro acusado de matar e mandar atirar aos cães o corpo de Eliza Samudio. As demais notícias dão conta da monstruosa teia de corrupção que enreda o país.

Ponho a chaleira no fogo, vejo a neve que derrete lá fora e algo como uma dor lancinante vai tomando conta deste meu coração saudoso. Sinto que a aparentemente infinita caixa de tragédias ainda não se esgotou.… leia mais

Diário de Montreal – Via Crucis

Na Semana Santa eu me dediquei a observar de perto a movimentação em Montreal. A província do Quebec tem uma relação dificílima com a religião católica. Como um relacionamento familiar profundamente desgastado entre pais e filhos muito ressentidos, grande parte da província hoje rejeita a Igreja em vários aspectos, mas a influência católica sobrevive no DNA deste lugar tão singular. Ainda está lá, silenciosa, nas grandes catedrais e na tradição que se imiscui nas datas festivas, reiventando-se a cada dia.

Comecemos por um pouco de história. Um fato determinante no Quebec é a chamada Revolução Tranquila (La Révolution Tranquille), que ocorreu em meados dos anos 60 e se estendeu pela década seguinte.… leia mais

Sal na moleirinha

Mais de R$ 450 milhões foram distribuídos pela Odebrecht a políticos das três esferas do governo, aponta levantamento do jornal “O Estado de São Paulo”. Um número capaz de escandalizar qualquer cidadão decente. Não aqui, no país da superlativa corrupção, onde Marcelo Odebrecht fala de quantias assombrosas como se mencionasse troco de picolé. Não na terra em que muitos denunciados continuam a desfrutar do apoio incondicional de sua legião de fanáticos.

O conteúdo dos depoimentos de Marcelo Odebrecht e seu pai é igual à morte anunciada de um parente: intuímos o que vai ocorrer e acreditamos estar preparados, mas, na hora que acontece de verdade, sobrevém o baque doloroso.

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Diário de Montreal: Mozart, neve, poesia

April, April, der weiß nicht was er will. 
Mal Regen und mal Sonnenschein,
Dann schneit’s auch wieder zwischendrein.
April, April, der weiß nicht was er will

Nun seht, nun seht, wie es wieder stürmt und weht.
Und jetzt, oh weh, oh weh,
Da fällt auch dicker Schnee.
April, April, der weiß nicht was er will.”*

Abril chegou em Montreal. Com ele veio a primavera encharcada de chuva e, por vezes, plena de sol. Entre estes – como dizem os versos infantis alemães – há neve.

Há algo de profundamente poético na neve que cai. Começa com uns flocos finos, quase uma chuva branca, que o vento carrega e deposita, com mãozinhas invisíveis, na ponta dos galhos das árvores.… leia mais