O poeta e a criminosa

Decidi começar uma vida de crimes. Já me vejo retratada por Gloria Perez em alguma novela futura, as redes sociais ardendo, psicólogos opinando, amigos envergonhados e William Bonner, com ar tão grave, a ler um editorial sobre o fim da inocência. Se apanhada, eu, criminosa não arrependida, direi que a culpa é dessa tal poesia que entra pelos olhos da gente, instala-se como vírus e nos faz amar os que estão mortos há tempos. Gente que se tornou estátua.

É que chutaram o rosto do poeta. Os óculos voaram longe e caíram ao lado do banco. O homem de camisa listrada os recolheu à sacola e saiu andando.… leia mais

Pelo caminho…

Nesse longo caminho já vi flores de primavera. Rosinhas miúdas, margaridas e cravos, lírios e tulipas traduziram a inocência dos primeiros tempos – tão breves.

Logo chegou o verão, com seus calores e risos. Tempo de despreocupação, de roupas curtas, suor no rosto, namoros e sonhos.

Agora caminho neste começo do outono. Há uns silêncios profundos em mim. Vontade de mais ouvir que falar. Certezas? Apenas que sei tão pouco da vida e das coisas. Penso nos olhos dos filhos e na pilha de livros por ler e reler. Borges, Cecília, Shaw, Rosa, Wilde, Orwell, Shakespeare, Woolf, Machado, Camus e os meus russos chamam por mim.… leia mais

Vidas de Montreal (Tardezinha)

I’ve seen things you people wouldn’t believe. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Roy Batty, Blade Runner
Vi coisas que vocês não acreditariam. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

 

Ton-don-doom. Station Place des Arts.

O sinal sonoro do metrô avisa que a partida é iminente.

O casal  sorri cúmplice. Ela veste uma saia florida, botas pesadas e um casaco bege. A bolsa cinza está um pouco desgastada. O rapaz, de jaqueta de couro e cabelo espetado fala com ela em mandarim. Os dois mantém os olhos fixos um no outro.… leia mais

Ballet de borboletas

Elas estavam pousadas nos caules longos cobertos de flores. Eram muito atraentes, com suas asinhas pintadas de laranja, preto, branco e amarelo. Irresistíveis mesmo. Olhei-as bem de perto e aproximei a câmera. O gesto as assustou e elas levantaram voo todas juntas. Pela primeira vez na vida eu me vi em uma cena de filme: cercada por uma nuvem esvoaçante de borboletas coloridas. Por alguns segundos fui Titania, a rainha das fadas de Shakespeare, e em torno de mim bailavam pequenos seres alados.

O redemoinho de cores que voavam logo encontrou um roseiral e o encanto se quebrou. Voltei a ser mortal.… leia mais