Carta a El-Rei

As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.

Camões. Os Lusíadas

 

Houve um tempo, meu Senhor, em que os homens se atiraram aos mares. Frágeis barcos, águas muitas, sonhos loucos. Navegar era preciso; viver, nem tanto.

Estava eu entre eles.

Além, muito além daquele mar, vimos a terra mui nova. Ingênua, desprotegida, trazia o corpo sem pelos, tosquiada parecia. Cabelos escuros bem lisos e pele morena de sol combinavam com uns olhos tão diferentes dos meus.… leia mais

Vira-lata

“Das criaturas, entre o céu e a terra, foi dado a uma tornar-se especial. É o cachorro vira-lata.

É o rei dos bichos de nome composto, com seu verbo, seu hífen e seu substantivo”.

Alessandro Martins. Ode ao Vira-Lata

 

Estava eu posta em sossego quando surgiu a Maria de Lourdes. Devota de um condenado, robô ou perfil falso? Não sei. O certo é que revirou o dicionário e sacou um comentário: “Sua vira-lata!” Que elogio, Dona Maria! Ah, era para ofender? Desculpe. Pensei que era aplauso.

É que vira-lata é o nome que se dá a um bicho muito bacana, da honorável família canina.… leia mais

Romanza

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…*

E nos olhamos, minha Pátria, minha Mãe. A jabuticaba dos meus olhos encontrou o azul dos teus, bem no centro do teu rosto pontilhado de estrelas. O nó na minha garganta me impediu de te falar de amor ou dos sonhos que carrego para nós. No silêncio que se seguiu, apertaste meus dedos, compreensiva.

Disfarcei e te apontei um pedacinho de céu a partir da janela do Waldir. Mas minha mão parou no ar.

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Supernova

Uma supernova brilhou nos céus do Brasil. Mal sabia que a explosão que a tornou visível já lhe anunciava o fim. A eleição de Lula para a Presidência da República é o marco inicial de sua queda.

Eleito, carregava consigo a esperança de muitos. Gente simples, que acreditava na lenda do trabalhador inculto que venceu as elites. Gente sonhadora, que o louvava como pai dos pobres, D. Sebastião revivido, campeão da ética, herói que venceria a fome e encantaria o mundo. Nas redações, sindicatos e universidades intoxicados de idolatria infante, era bicho raro, ave exótica que nunca estudara mas cuja sapiência era louvada.… leia mais