Não me diga…

Sonia Zaghetto
Paragraph, coherence, thesis statement – mas que chatice. “Xiii, você não pode usar here, there and everywhere, pois isso é generalista demais”. Ok, ok, vou avisar Lennon e McCartney.
O monitor do professor de inglês compensava com um ego monumental o fato de ser quase imberbe. Olhou para minha dissertação e não escondeu o desprezo pelo que leu. “Mais de cinco parágrafos? Crime! Onde já se viu escrever mais de cinco parágrafos? Onde está a sua capacidade de síntese? Nos dias de hoje ninguém mais escreve textos longos. É a época da Internet, da agilidade, do texto curto – quase telegráfico”. Está bem, hoje mesmo mandarei um email para Virginia Woolf e Marcel Proust para que eles também não sejam reprovados.

Ei, o que você está fazendo? Onde estão as topic sentences meticulosamente colocadas?” Mas, eu sempre escrevi assim! Pego o lápis e lá vêm elas, as palavras. Chegam de mansinho, espiam o ambiente e vão se juntando, deitando nas linhas, escorregando pela página. Não sei me planejar para aguardá-las. Elas simplesmente chegam e vão se instalando umas sobre as outras feito cãezinhos recém-nascidos. Quando termino de escrever, elas parecem ter nacido para ocupar aquele lugar na página. Por que você está com esse ar de desgosto? Falei algo errado? “A partir de agora faça um esquema bem ajustado e só então escreva. Trace as linhas, pense nos argumentos, arrume tudo e  – aí sim – crie as frases”. Tem certeza? Sabe o que Hemingway faria com você? Primeiro ele compraria umas três garrafas de alguma coisa muito forte, beberia duas e depois usaria o restante para atear fogo nesse seu livro de regras para a boa escrita.

Sua visão é démodé, sorry! Você é romântica, mas escrever é prático”. Ah, mas eu sou uma old fashioned lady, sabe? Só para pegar carona nessa sua mania de usar a língua de Shakespeare, deixe eu lhe contar um segredo, mas não se abale: suspeito que Mestre Will Shakespeare nunca teve professor que lhe ensinasse os segredos do texto.

Tenho uma outra história na qual talvez você não acredite. Houve uma época em que não havia televisão (juro!). Numa casa bem pobrezinha, sem sequer energia elétrica, D. Ivone alfabetizava índios Galibi. Do lado de fora uma garotinha de 4 anos de idade assistia a tudo. Um dia, ela superou a timidez e sussurrou para a mãe: “Já sei ler, sabe?”. Sabia mesmo. Desde então, seu mundo passou a ser a minúscula biblioteca de uma cidade esquecida na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Tudo era festa: Mickey e Pato Donald eram amicíssimos de Monteiro Lobato e de Érico Veríssimo. Seus amigos mais próximos chamavam-se Clarissa, Ana Terra, Narizinho e o homem que falava javanês. Leu tantas vezes o Alencar, o Lima Barreto e o Machadão que hoje os considera bons amigos. Mesmo passados tantos anos, ainda é capaz de fechar os olhos e recitar: “Além, muito além daquela serra que ainda azula no horizonte nasceu Iracema…”.

Naquela época, não entendeu muito bem, mas viu as sombras do Ateneu e até chorou quando uns estrangeiros lhe apresentaram a pobrezinha da Anna Karenina. Chorar com vontade? Ah, só quando um de seus amigos, o Castro, escreveu sobre a escrava que teve o filho vendido. Mas logo se consolou quando o Bilac lhe falou de corações amantes que são capazes de ouvir estrelas (não conte a ninguém, mas este continua sendo seu poema preferido).

Ficou muito feliz quando a Cecília, sua melhor amiga, deixou de falar sobre isto e aquilo e foi direto lhe contar a triste história do alferes num romanceiro extraordinário. Nessa mesma ocasião ela lhe apresentou o Tomás, amigo do alferes.

Tinha uns amigos que criavam listas telefônicas inteiras de personagens e outros que inventavam grandiosos cenários. Percorreu as estepes russas, visitou Notre Dame várias vezes, ralou-se de pena da Sra. Bovary que, aliás, achou tão tola quanto a Luísa – amiga do Eça.

Cada passo que deu foi pautado por livros. Almoçava e jantava entre as páginas, agrediu os olhos (até hoje seu ponto fraco) de tanto ler às escondidas na cama e com uma lanterna fraquinha, sonhando com um gigante egoísta e com rouxinóis que davam o próprio sangue para que rosas vermelhas florescessem na neve.

Depois que cresceu, soube da existência de uma inglesa chamada Virginia, que também vivia em função das palavras. E descobriu com Mr. Capote que a arte de escrever é um chicote que desce impiedosamente no lombo de quem escreve.

Aos 18 anos, uma professora muito elegante, Madame Bassalo, desvendou-lhe o Grande Mistério, reservado apenas aos iniciados: as armas e os barões assinalados! Nunca mais foi a mesma. Ficou tão fascinada que deu de amar os conterrâneos do autor desses mistérios, todos com nomes tão interessantes quanto seus textos: Sá-Carneiro, Florbela, Manuel Maria (que tinha fama de piadista mas era um poeta magistral). Estava posta em sossego até que um dia deparou-se com uma Pessoa que se transformava em três (ou mais) e que lhe instalou o desassossego na alma.

Escondia da mãe seu amor pelos desbocados, como os B (o italiano e o português) ou o Gregório, mas adorava lê-los quando todos em casa dormiam.

A lista de amigos nunca diminuiu e ela ganhou, além de amizades sinceras, uma facilidade enorme para escrever. De tanto ver os amigos parindo textos, achou que tinha pegado o jeito. Até que um dia se gabou para as paredes: “Só sei fazer UMA coisa na vida: escrever”. Lá no céu-de-brigadeiro alguns deuses invejosos se entreolharam, interromperam a refeição de ambrosia e deram o veredito: “Culpada! Pagarás por isso, criança”. Ato contínuo, decretaram: “Condenada a choque de humildade. Que ela seja matriculada em uma disciplina onde se deve aprender a escrever como gente”.

Introductory paragraph, coherence, thesis statement… Enquanto ela sua em bicas para escrever em linhas retas e adequadas, do lado de fora da porta escuta a risada sarcástica do Oscar, falando baixinho ao George e ao Anton: “Shhhh, parem rapazes, não me façam rir alto senão eles notarão que estamos esperando por ela aqui do lado de fora deste novo cárcere de Reading”.

5 comentários em “Não me diga…

  • junho 12, 2016 em 8:56 am
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    Garanto que a aula seria interrompinda por um Cavaleiro magro e mal-ajambrado que investiria contra o mago malvado que a prendia no castelo, senhora Dulcinéia.

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  • setembro 11, 2016 em 9:35 am
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    tia Sônia, a profundidade do texto está sempre ligado à profundidade suportada pelo leitor. Assim como os mergulhadores se distribuem entre a superfície e as fossas abissais, existem leitores escafandristas e existem aqueles da turma do snorkel. De uma forma ou de outra haverão sempre os que aprendem a cada mergulho e os que se afogam com qualquer marolinha. Sigamos em frente, para o fundo do mar ou viajando no espaço infinito. O mundo real, circunstancialmente, é pura imaginação.

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  • setembro 11, 2016 em 11:36 am
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    Que delícia ler o que escreves!
    Nos remetes a grandes obras e escritores com leveza e bom humor, mostrando como te construiste, o que tens em comum com teus leitores e que maravilhas fizeste com o que leste! Obrigada por compartilhar!
    Clara

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  • setembro 11, 2016 em 1:13 pm
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    Mentes ocas, vazias, em um mar de mesmice, superficialidades, vulgaridade e extrema ignorância. Estão, como se dizia, “inseridos no contexto”, em seu meio e habitat natural. Nos menos de cinco parágrafos cabem todas suas vidas, a totalidade de seus conhecimentos, a diminuta imaginação e alcance de suas almas.
    E a culpa? Quem são os verdadeiros cupados ? Os que querem e lucram com isso ? A quem interessa a falta de cultura de um povo ?
    Lindo Sonia Zaguetto, uma viagem literária no tempo, num passado nem tão distante de nossas vidas, mas persistente e marcante em toda nossa existência.
    ” Escrevo-vos uma longa carta porque não tenho tempo de a escrever breve.”
    ( Voltaire )

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  • setembro 11, 2016 em 5:59 pm
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    Notei há algum tempo a sua predileção por literatura, com destaque para os clássicos. Procuro ler intensamente, há cerca de 60 anos e já li os autores citados, um ou outro livro, não a obra, como V. Minha preferencia e historia, de todos e sobre os temas principais. Voltando ao seu texto notei a ausência de Fitzgerald bem como a inclusão de Capote e sobre isto disponho. Scott Fitzgerald está em todas escolas e até hoje não notei o mesmo sobre T. Capote. Li os principais livros destes autores e por acaso vi os respectivos filmes, que julguei razoáveis. Sem mais intenção, entretanto, também por acaso assisti um filme por título CAPOTE, baseado nos papéis e anotações do autor após sua morte. Não deveria ser mas ocorreu, vi a perfeição do livro de Truman que o consagrou e até opinei neste sentido junto a uma editora
    Na época da Comunicação creio ser válido ler e assistir, para melhor entender e avaliar. Muito obrigado.

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