Párias

Sonia Zaghetto

O ser humano tem por hábito construir cercas. Não aquelas cerquinhas brancas, que compõem cenários de filmes românticos, mas cercas escuras, feitas de material gosmento, pútrido. Cercas feitas para separar, isolar, exilar. Do outro lado da cerca, ficam os que foram eleitos inimigos no momento, enquanto, do lado de cá, situa-se aquele que deseja ver afastada de si até a sombra do indesejável que o espia do outro lado da linha.

Quando o pária ensaia ultrapassar a cerca, atira-se sobre o ousado o lobo raivoso da intolerância. Um lobo que não vem só: costuma chegar acompanhado de livros muito sagrados, de pessoas piedosas e zelosas da “moral e dos bons costumes”. Também vem atado ao cabo de aço do pavor. Pavor de quê? De qualquer coisa, pessoa ou situação que ameace a estrutura organizada que encontrou ao nascer e que ele morre de medo de ver caída ao chão, estilhaçada com suas crenças miúdas e seu coração atemorizado.

Escrevo essas coisas movida não por revolta ou ódio, mas por um sentimento de solidariedade. É que lá, do outro lado da cerca que nos foi imposta, vejo – cobertos por rótulos que lhes escondem o rosto e a alma – os que têm negado o direito de viver de acordo com seus sentimentos, escolhas, erros e acertos. Não só os vejo. Empresto a eles minha voz. Isso vale para uma infinidade de situações e vou tratar das demais em outros posts. Neste artigo, falarei especificamente dos homossexuais e de sua exclusão, especialmente a induzida por motivos religiosos.

São os homossexuais uma subcategoria do nosso grande grupo de párias ocidentais – os que a nossa sociedade finge que aceita. Duvida? Veja esta pesquisa do Ibope Inteligência: apontou que 73% dos brasileiros aceitariam amigos gays ou companheiros de trabalho, mas 55% se declararam contrários ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ou seja, os “tolerantes” até aceitam que um gay faça parte de seu círculo social, desde que se mantenha invisível, com sua sexualidade fora do alcance dos puríssimos olhos das pessoas. Que mecanismo faz com que esses 18% supostamente tolerantes, que aceitariam amigos e companheiros de trabalho gays, neguem a essas pessoas o direito de ter uma família perante a lei e a sociedade?

O gay é, repito, um pária ocidental, a quem se permite que exista, desde que não deixe sua sombra contaminar os que se aboletaram nas castas superiores.

Vamos aos estarrecedores números e dados? A prática homossexual ainda é crime em 78 países, punida com prisão, chibatadas e torturas diversas. Cinco deles aplicam pena de morte: Arábia Saudita, Irã, Iêmen, Mauritânia e Sudão – além de regiões da Nigéria e da Somália. São execuções brutais: apedrejamento, enforcamento em praça pública ou, à moda do Estado Islâmico: atirando as pessoas do alto de prédios. Segundo a Organização das Nações Unidas, a aplicação da pena de morte na punição de crimes não violentos –incluindo relações sexuais entre adultos do mesmo sexo– constitui violação da lei internacional sobre direitos humanos. Levantamento do site Spotniks elencou os quinze países onde as leis homofóbicas resultam em punições de rara crueldade(leia aqui). 

Diante de tal realidade, é forçoso refletir sobre o tema. Haverá de fato quem ache justas tais punições? Será correto que um filho seja espancado ou um ser humano agredido e morto por ser homossexual? Combater esses excessos não é uma luta vã. Basta lembrar que desde o ano 2000 várias leis que criminalizam atos homossexuais foram revogadas na Armênia, Azerbaijão, Bósnia-Herzegovina, Cabo Verde, Geórgia, Nicarágua, Estados Unidos, Panamá, Nepal e Fiji.

Em segundo lugar, é necessário fazer um expurgo interno e arrancar da alma a erva daninha do preconceito que viceja e toma o lugar das flores da compreensão, da solidariedade e dos sentimentos que nos fazem dignos de ser chamados humanos.

O foco de intolerância disfarçada está expresso em frases do tipo “Ah, nada contra os gays, desde que não seja na minha frente”. É lógico e aceitável que casais – sejam homo ou heterossexuais – por uma questão de elegância e autopreservação, não dêem espetáculos públicos de sua intimidade – mas isso vale para todo mundo, não é? A questão é que há um abismo entre esse comportamento e um simples andar de mãos dadas ou abraçado, ou dar selinhos em público. Qualquer casal heterossexual pode fazer isso sem causar uma comoção – mas experimente comportar-se assim com alguém do mesmo sexo! Imediatamente entram em ação as frases fatais: Não na minha frente; não em público, não, não, não e não! É aí que rolam as máscaras.

Por que não? Por que longe dos olhos? Vale a pena refletir na razão porque baixamos os olhos diante de algo. É porque nos incomoda? Revira o estômago? Choca, desconcerta e nos deixa sem graça? Seja o que for, é essa a prova cabal de que o assunto ou situação não estão resolvidos. Permanecem como sujeira embaixo de algum tapete esperando que a reflexão madura venha expurgá-la.

A experiência me mostrou que, no nascedouro, todas as religiões são belos sonhos de igualdade, fraternidade e liberdade – pequenos botões de flores que encerram promessas de alegria e paz nos corações. Porém, no exato instante em que se tornam organizações humanas, com estruturas de poder, bens, imóveis e uma imensa multiplicidade de interesses a administrar, todos esses sonhos transformam-se em uma realidade dura, na qual os ideais são sufocados. E as belas flores, frescas e delicadas do ideal, são encerradas em um livro muito velho, onde secarão entre poeira e traças. Mas, esse também é outro assunto. Nele só toquei a fim de lembrar, aos que lerão esse texto até o fim, que é com o nome divino nos lábios que se arrancam lascas de carne do lombo alheio. É defendendo a moral e os bons costumes que se viola a ética e a dignidade ao negar ao outro o direito de se relacionar com quem lhe aprouver. Em última análise, cassa-se até o direito de amar – e quem o caça são aqueles que julgam agir em nome do amor a Deus.

Sei que de nada adianta argumentar com o fanatismo, uma vez que o fanático encontra em seus livros e líderes a justificativa plena para todas as barbáries. Estão aí as guerras santas, os mártires de Alah e a inquisição que não me deixam mentir. Pobres loucos, que caminham como cegos, escravizados por coisas que acreditam ser verdades absolutas. Alguém lhes disse que é assim e eles creem. A maioria baseia a vida em textos manipulados, em traduções bizarras, em opiniões de medíocres ou de aproveitadores com objetivos pessoais bem claros. Ao adotar uma religião formal, a maioria das pessoas compra junto um pacote de pensamentos-prontos, de direcionamentos e de ideologias que passam a reger a vida. A partir de então, quase tudo o que se pensa passa a ter o selo do “aprove-se” religioso. Queira-se ou não, desde que se cola à testa o rótulo de uma religião, adota-se o vocabulário, a postura e as idéias comuns àquele grupo social – caso contrário, é o ostracismo. Passa-se a percorrer um caminho programado por outros e não o ditado por sua própria alma e convicções, fruto da reflexão de sua mente livre.

Ao longo desse caminho de pensamentos pré-moldados acumularam-se os cadáveres de anônimos e famosos. Aos anônimos espancados pelos pais, torturados pelo chicote das línguas ferinas, agredidos nas ruas, ameaçados por demônios e mortos pelo delírio salvacionista juntam-se as sombras tristes de poetas, cientistas e príncipes obrigados a contrariar a própria natureza a fim de atender aos anseios de outrem.

Posso ver Oscar Wilde gemendo nos calabouços da prisão de Reading e Alan Turing – um dos maiores cientistas de nosso tempo – lançando mão de cianeto por não mais suportar a castração química, as injeções de hormônio e tudo o mais que a mente humana foi capaz de engendrar para punir os párias que ousam ultrapassar a cerca. E me pergunto: até quando?

Até quando teremos a pretensão de impor regras à sexualidade e ao sentimento alheios? Tolos são os que se imaginam capazes de penetrar a alma do outro e fazer dela seu terreno.  Cruéis são os que lançam mão de seu poder para negar ao outro a possibilidade de construir um lar, de criar uma família, de nutrir filhos e de vê-los crescer, de envelhecer ao lado do parceiro escolhido. Quem somos nós para negar isso? Quem nos deu o poder de escolher com quem o outro faz sexo ou quer passar os dias que lhe restam sobre a terra? Que orgulho insensato nos faz pensar que podemos arbitrar sobre o amor alheio?

Na Índia, os párias são os excluídos do sistema de castas. Em sânscrito, a palavra para casta é “varna” (cor). E os estudiosos sérios concordam: o sistema de castas foi a feição religiosa para consolidar na alma popular um instrumento de dominação política dos árias, de pele clara, sobre os drávidas, povo de pele escura que vivia no Vale do Indo. Adivinhe a cor da pele das castas mais altas? Gandhi, com seu pensamento além das convenções humanas, desafiou esse sistema consolidado e a crença da nação que o adorava. Arriscando-se a perder apoio no mais delicado momento da história recente da Índia, a Grande Alma abriu os braços aos dalits e os chamou simplesmente harijans, crianças de Deus. Benditos sejam os olhos de Gandhi, que viram a maquinação política sobre a religião e o socialmente aceito.

As coisas são mais simples do que supõe a nossa conturbada mente afogada em convenções. Uma alma livre e aberta é tudo o que precisamos nesse instante em que os preconceitos se acumulam e em que nosso mundo mergulha cada vez mais em no perigoso lamaçal dos extremismos. Algo como a reação da criança desse vídeo abaixo, que, ao ver pela primeira vez um casal gay, registrou o estranhamento da novidade. Mas logo em seguida concluiu, sabiamente: “Se estão juntos, se casaram, é porque se amam. E se amam muito”. Ato seguinte: “Vou jogar ping-pong. Se quiserem, vocês podem vir”.

Vamos brincar juntos, todos nós? Só por um dia, de armas baixas, de coração leve, olhando nos olhos uns dos outros e enxergando neles toda a esperança de um mundo mais tolerante, gentil e verdadeiramente amoroso.

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