Brainwashed

Para George

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Edouard Manet – Le Déjeuner sur l’Herbe

Minha amiga decidiu raspar a cabeça. E o fez porque gosta e acha prático. Foi uma comoção: a mãe chorou, estranhos a olharam com muita compaixão, supondo que enfrentava os efeitos de uma quimioterapia; e houve quem se afastasse dela no ônibus, estampando nos olhos o temor de contágio de alguma doença.

Bastou cortar os cabelos para acender a imaginação das pessoas. Um mundo de suposições, preconceitos e medos tomou conta de amigos e desconhecidos. Enquanto ela me contava, aos risos, a experiência, lembrei que vários amigos homens também optam pela máquina zero sem causar uma comoção. Questão de gênero? Não. Questão de convenção mesmo. Acostumamo-nos a um padrão e ele passa a ser inquestionável. Pelo menos até que algo dentro de nós se insurja e faça a pergunta fatal: por que penso assim?

Em 2012, aqui no Brasil, uma garota foi expulsa da escola porque tinha cabelo azul. Passados apenas quatro anos, as meninas pintam cabelos de todas as cores imagináveis sem que isso renda manchetes. Rapidamente o exótico passou a ser natural nesse nosso mundo em que todos querem ser tão únicos. O que mudou no caso do cabelo azul? Responda: você sabe. Quanto a mim, rendeu a seguinte reflexão.

Mal abrimos os olhos no mundo e descobrimos que tudo é organizado, catalogado, normatizado. Meninas são cor-de-rosa, garotos vão de azul e cabelos devem ser loiros, castanhos, pretos ou ruivos. Jamais azuis. Casamento é só entre homem e mulher (tem certeza?). Bonito é ser assim. Bom gosto é do jeito tal. Certo, errado, belo, horrível, bom, ruim, adequado, indesejável, brega, cafona, sublime – quem disse?

Desde muito cedo nos enquadramos e nos auto-rotulamos, construindo uma identidade externa. Basta observar como nos identificamos: sou fulano (indica a profissão), tenho a idade tal, sou da família X, da nacionalidade Y, da religião Z, torço para time de futebol do Arranca Toco de Ipiranguaçu do Norte – o melhor do país.

Tudo exterioridade, tudo imposto de fora para dentro.  Orgulho nacionalista, paixão por um time de futebol, fanatismo religioso – de onde vem isso senão de um mundo que nos é ensinado, da adesão a um padrão cultural?

Se nascesse na China, eu comeria cachorro e acharia uma delícia? Se vivesse na Tailândia apreciaria um bom prato de insetos grelhados? E, na Arábia Saudita, aguardaria ansiosa pelo convite de casamento no qual eu seria a feliz terceira esposa de um homem desconhecido? Na Índia, se eu fosse homem, passearia de mãos dadas com meu amigo (também homem) e ninguém acharia estranho.  E, numa praia de nudismo, sexos expostos não rendem qualquer comoção.

Esses somos nós. Algum carismático nos enche os ouvidos com uma tese e isso nos basta. Preferimos caminhar cegos, ovelhas obedientes, do que exercitar um espírito crítico, um pensamento próprio, uma reflexão madura.

E nessa lavagem cerebral permanente, a grande consequência é o apego. A que nos apegamos? A ideias, pessoas, situações. Adotamos um padrão e o seguimos, ortodoxamente. Por vezes aderimos à norma geral simplesmente porque ainda não descobrimos a possibilidade de outros caminhos; outras vezes porque é confortável; outras ainda porque temos medo, muito medo. Medo de romper com o padrão vigente, medo de perder o chão, medo do julgamento alheio, medo da opinião esmagadora da maioria, medo de seguir pelo desconhecido caminho do pensamento próprio (que em última instância vai exigir a extremada responsabilidade de arcar com as opiniões emitidas e as escolhas feitas).

Apego tem um adicional problema: ele gruda na gente o tal do pronome possessivo. Meu, minha, meus e minhas. Minha esposa, meu marido, meus filhos, minha família, minha cidade, meu país, meu time de futebol, meu cachorro, minha convicção (opa, opa: será minha mesmo?). E, automaticamente, passamos a ser “donos” de tudo: o amor solto e generoso é engolido pelo apego e pela posse. Ciúme, vingança, ódio, brutalidade, matanças, opressão – é tudo consequência.

O desejo – igualmente imposto de fora para dentro pelo caldo cultural – comanda a vida. Moda, publicidade, televisão, novela, líderes religiosos, cartilha de partidos políticos, torcida organizada, coisas que aprendemos em casa e na escola direcionam o desejo.

Tudo absorvemos e vivenciamos com a extremada força da mente manipulada e dócil.

Os desejos nos definem, limitam e dominam: sou chocólatra, não consigo parar de beber. Não vivo sem o perfume X. Quero um marido pra chamar de meu, se eu não casar não serei feliz. O cigarro é mais forte do que eu. Como assim: não come carne? Sou contra o casamento gay. Só voto no partido XYZ e não interessa o que a mídia malvada diz sobre ele. Vermelho é a cor do pecado, enquanto branco é paz. Dinheiro não traz felicidade, mas possibilita sofrer em Paris – por isso eu o quero. O que será de mim sem você? Quem não crê em Deus vai pro inferno, sem escalas no purgatório. Só pode casar virgem. Não pode ir para a escola de cabelo pintado de azul.

Conclusão: outros comandam nossos atos, palavras e pensamentos.  E repetimos o pensamento alheio sem reflexão alguma. Nem percebemos o envolvimento enquanto caminhamos jurando que somos livres e independentes.

O desejo tirano nos faz excluir pessoas, oprimi-las, mas também nos faz sofrer quando nos vemos frustrados. O desejo pelo convencional nos impede de amar o que não é espelho, torna-nos intolerantes com a diferença e nos faz passar por cima de tudo a fim de satisfazer o que consideramos bom e prazeroso. Sem mencionar os cadáveres emocionais que ficam pelo caminho.

Penso sempre nisso tudo quando alguém me pergunta: quem é você? Respondo apenas: sou a Sonia (e já é muito, pois esse é apenas o nome que meus pais acharam bonito). Sou um ser complexo demais para ser descrito numa apresentação rápida. Todos somos. E se eu tivesse a vida inteira para explicar quem eu sou, o que penso e como me desconstruo e reconstruo todo dia? Certamente não bastaria.

Hoje, eu começo a me ver, finalmente. Olho para mim mesma e para o mundo que me espreita, pronto a me dominar. Examino meus gostos e, sob a lupa do pensamento crítico, repito, devagar: será que eu gosto mesmo disso? Ou me ensinaram a gostar? Isso é convenção infligida?  Por que rejeito tal coisa? De onde vem esse pensamento, essa preferência? Concordo com isso? Faz sentido para mim?

Minha mente muito lentamente emerge desse emaranhado de sensações e opiniões alheias para se tornar apenas testemunha. Por isso esse texto é dedicado a George Harrison. No último álbum, antes de morrer, ele identificou todo esse ruidoso caos e optou pelo silêncio, pela meditação.  O eu – ensina-me Brainwashed, a canção que você ouve abaixo – é como uma cítara e uma tabla tocando ao longe quando, num rápido instante, todos os outros instrumentos silenciam.

 

Um comentário em “Brainwashed

  • julho 3, 2016 em 2:50 pm
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    Uau! Quanta coisa me ocorreu nessa leitura. Eu que ” me acho” fora do quadrado, quando penso que é dispensável uma foto diante da Torre Eifel indo a Paris, mas ao mesmo tempo nego qualquer possibilidade de um cabelo azul, quando digo” nunca serei uma preta loura”!
    Enfim, é difícil fugir dos rótulos e convenções sem ganhar uma adjetivação de Vânia, a doida! E sobre quem é você, lembro sempre de uma amiga , que ao morar por 2 anos em MG, se sentia chateada quando lhe perguntavam : ” você é filha de quem?” , costume mineiro tradicional para saber da origem familiar. E minha amiga me segregada que tinha vontade de respobder: sou FDP!😆

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