Palavras

Tlec tlec tlec tlec. Mercados, Dow Jones, títulos da dívida…

Mãe, você imaginaria que galhardia quer dizer elegância? – Nadja interrompe o martelar ritmado do meu teclado.

Hum…

Pois eu imaginaria algo espalhafatoso, uma farofada…

– !…

É o Gregório de Matos!  E ela sai recitando, com as duas covinhas surgindo no rosto, exatamente como acontece todas as vezes que ela tenta não rir gostosamente enquanto fala: “Ontem a vi, por minha desventura, na cara, no bom ar, na galhardia...” Viu, mãe?? Ele viu a mulher na galhardia… Se fosse comigo, eu  acharia que era safadeza.

– ?

Éééééé. Porque lembra… desculpa… galinhagem! Veio de imediato na minha cabeça que a moça estava numa roda de pagode, se esbaldando e tentando algo com o marido da vizinha.

Ah, Nadja, tem razão. Cada palavra estranha que não combina com nada, que parece divorciada do significado que deram a ela! Deixo de lado a bolsa, a instabilidade dos mercados e o risco Brasil: – Diga aí outra palavra esquisita…

Bilboquê! Deveria ser sinônimo de floricultura e não um brinquedo. Não é como repolho, que é totalmente adaptado! A boca se enche quando você diz repolho. Você pensa logo que ele foi cozido, pois é uma palavra com textura. Dá até para mastigar.

Ela não desiste.

E Florbela Espanca! Como é que o nome dela pode ser “Espanca”? Penso imediatamente na lei Maria da Penha!

Ei, não mexa com a Florbela! É uma das minhas poetisas favoritas! Além do mais, o nome dela é uma espécie de yin-yang literário: o primeiro nome é lírico e o segundo é épico.

Explodo numa seqüência de risadas sem fim, visualizando repolhos cozidos e uma donzela do século 17 rebolando as cadeiras no pagode.

Nadja tem esse dom, de dizer as coisas mais improváveis. Ela me espreita enquanto escrevo coisas muito sérias e me atira num mundo colorido, palhaço, onde não há mais nada além de sua graça, onde palavras dançam, pulam corda e equilibram balões vermelhos na ponta do nariz. Nadja é a reinvenção do dicionário e da minha própria vida.

 

 

Um comentário em “Palavras

  • junho 19, 2016 em 4:00 pm
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    Conto leve, divertido, ingênuo até, nos traz a tona algo há algum tempo sepultado, esquecido e soterrado por toneladas de citações políticas, – e delações premiadas fraudulentas, concluios devassos, julgamentos tendenciosos e comprados, impunes roubos descarados, impúdicos desvios de moral e material, mau caratismos aos cantaros, … – , o sorriso, a alegria no rosto, a tênue brisa da Esperança, de que ainda há algo de bom a esperar da Vida. De que pode existir ainda um Melhor Horizonte.
    Valeu cara Sonia Zaguetto, um excelente domingo prá você. O meu, depois desta, já está ótimo !
    Ricardo Daiha

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