Índia – parte 2: Nova Delhi e a estrada para Agra

Logo no primeiro dia decidimos pegar um táxi para conhecer a capital. Apareceu o Suresh: gordinho, o indefectível bigode e um ar simpático. Cabelos reluzentes pela aplicação de óleo de mostarda. Tinha o inglês mais engraçado da face da terra e, de cara, identificou em “Mr. Alex” seu principal interlocutor. Nas ruas, eu fotografava tudo: vacas, elefantes, tuk-tuks. O trânsito na Índia é surreal. Todo mundo buzina, o espelho retrovisor é meio inútil e – surpresa – quase ninguém xinga, reclama ou parece irritado.

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Suresh Sharma

Suresh nos levou a uma loja para comprarmos roupas indianas. Iniciantes, não lembramos da tradição de pechinchar. Pior: vendedor indiano só perde, no quesito persistência, para mendigo indiano. Resultado: comprei três saris caríssimos (costurados na hora e mais tarde entregues, embrulhados em papel de seda, no nosso hotel), roupas para o Alex e lembrancinhas chiques que levaram metade do nosso dinheiro reservado para as compras. (Dica 5: Cuidado. Praticamente todos os motoristas, seja de táxi, tuk-tuk ou riquixá, recebem comissões sobre as compras feitas por turistas. Aprenda a dizer não e a pechinchar).

Essas lojas são uma armadilha para o turista desavisado. Na que visitamos tinha tudo: roupas, sapatos, jóias, instrumentos musicais, tapetes e artigos de decoração. Quando você sai de um setor, os encarregados dos demais departamentos lhe seguram pelo braço e começa tudo de novo. Perdemos toda a manhã, encantados entre os tecidos, as cores e as conversas infindáveis dos vendedores.

Nosso favorito foi o vendedor de tapetes. Um personagem! A figura, vestida a caráter, servia chá e mostrava os tapetes. Ele fazia uma mesura dramática com as mãos e batia palmas ruidosamente, um sinal para que um dos empregados se aproximasse e estendesse o tapete, que se desenrolava com um estalar – capuf! – enquanto nós tentávamos estoicamente  não rir da cena. Dezenas de capufs depois (o tamanho dos tapetes diminuindo, numa tentativa do vendedor que comprássemos pelo menos um pequeno exemplar) desistimos e gastamos mais algumas milhares de rúpias adquirindo um pequeno persa para o nosso professor de Yoga.

Bastou um dia para concluir que os indianos das ruas eram, na sua maioria, de pele bem escura. Os da TV eram todos predominantemente de pele mais clara. E isso é a cara da Índia: castas mais baixas = pele mais escura.

Campos de mostarda

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Campos de mostarda

No segundo dia fomos acordados por um pavão animadíssimo no terreno baldio ao lado do hotel: cráaaaaaaaa. Sete da manhã e estávamos indo de carro para Agra com o Suresh (na véspera havíamos ido a uma agência de viagens e compramos um dos pacotes mais famosos: o golden triangle Agra-Jaipur-Delhi, com direito a um tempo, na volta, em Fatepur Sikri e no Fort Amber). Estou sonolenta e sorridente apesar de estarmos em péssimo estado. Dormíamos de luz acesa porque eu tinha medo das baratas e dos lençóis que haviam sido lavados antes da chegada dos ingleses. Não conseguíamos tomar um banho decente no banheiro que tinha uma “casca” de sujeira. Enfim, registrei no diário de viagem que fedíamos feito dois gambás. Só nossos dentes passariam numa inspeção materna séria.

Engolimos o café e fizemos uma completa sessão de fotos com o pessoal da cozinha do hotel. Risadas de ambas as partes só nos indicavam que eles pensavam o óbvio de nós: “Mas turista é besta, mesmo!”. No restaurante tinha uma TV que passava de tudo: cerimônias religiosas (hindus e sikhs, principalmente), filmes antigos de Bollywood, notícias e até umas novelinhas maneiras que passamos a acompanhar. Rimos demais ao ver uma propaganda de preservativos cuja marca era Kama Sutra.

A viagem foi deliciosa. Vimos incríveis campos de mostarda verde-amarelos e paramos em Matura, a cidade sagrada onde Krishna nasceu. Era o dia 13 de dezembro e fiquei durante algum tempo no Gurudev Temple, cercado da mais atroz miséria. Pelas ruas paupérrimas macacos, mendigos, vacas, mais mendigos, crianças magrinhas, outros mendigos.  Aprendi mais uma lição, ali, diante do templo de Krishna: de fato, não vou resolver a miséria do mundo. Olhei para minhas mãos cheias de moedas e para a multidão famélica em volta – e desisti, consternada. Coisas que a gente sabe, mas faz questão de se enganar até que a realidade dura nos encosta na parede e informa, com alguma frieza: acorde!

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Tumba de Akbar

Depois visitamos a tumba de Akbar. o grande, um personagem histórico digno de ser conhecido. (Dica 6: assista a este filme absolutamente fascinante sobre Akbar, Jodhaa Akbar). Pela primeira vez vimos os grandes macacos brancos, típicos da Índia, perambulando soltos, entre as pessoas e, é claro, uns indianos cobrando para tirarmos fotos com eles. Um deles fez uma pose semelhante aos asanas (posturas) do Hatha Yoga e logo um turista indiano sapecou: “Das rupee!” (Dez rúpias!), numa alusão bem-humorada ao hábito de se cobrar por tudo na Índia.

Cansadíssimos, chegamos no fim da tarde a Agra, a cidade onde está o Taj Mahal.

Um comentário em “Índia – parte 2: Nova Delhi e a estrada para Agra

  • julho 4, 2016 em 8:29 pm
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    Esta crônica muito bem escrita,me deixou sem vontade nenhuma de conhecer a Índia , já não era um roteiro da minha preferência como Israel e Egito não são também.

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