Índia – Parte 6 – O sol nasce no Himalaia

De Calcutá, um voo direto nos levou para Bagdogra, a cidade mais próxima de Darjeeling e que tem aeroporto. Desci excitadíssima: Darjeeling, a terra do chá, estava bem ali ao lado, à minha espera. Sonhei com esse momento por meses: queria ver as montanhas, os tea gardens (plantações de chá preto, famosíssimas), o cheiro daquele lugar – a joia de Bengala Ocidental.

Um calor insuportável nos aguardava em Bagdogra. Alex zombava de mim: “Não era aqui que você disse que era mais friozinho? Isso aqui está tipo Rio de Janeiro no verão”.  O motorista do Dekeling Resort nos aguardava, como combinado anteriormente com o proprietário tibetano, Mr. Dekeva.

O motorista era um nepalês ultra sorridente que dirigia um Jeep. Ele atravessou Bagdogra, uma cidadezinha minúscula (nosso avião era o único voo de toda aquela tarde) e que eu achei adorável. Começamos a subir as montanhas para chegar a Darjeeling, alguns mil metros acima. Aos poucos, a paisagem plana sumiu e, junto com ela, o calor. Surgiram as primeiras plantações de chá, mas nem deu para sentir alegria, já que terror & pânico começavam a tomar conta de nós. É que a estrada para Darjeeling é um pesadelo: esburacada, sem qualquer proteção nas laterais, estreitíssima. O Jeep vai contornando as montanhas, em curvas infindáveis e nas quais é impossível ver se vêm carros na direção contrária. Uma aflição! Olhei pela janela e vi um abismo de centenas de quilômetros, com a copa de árvores altíssimas junto aos pneus do carro e notei que na estrada mal cabiam dois carros. Mentalmente fui somando as chances que tinha  de sobreviver à viagem: quase zero!

Além da estrada de reality show de caminhoneiro com tendências suicidas, acrescento as quatro horas de viagem, o motorista indiano-nepalês, que dirigia indianamente (se é que me entendem) como se fosse o Schumacher em pista impecável. A certa altura, abri a bolsa, engoli (sem água) dois comprimidos de Dramin e dei boa-noite ao Alex: “Amor, se a gente estiver para morrer, não me acorde, ok?”. Alex apenas acenou com a cabeça e eu me perguntei se ele também havia perdido a  fala por conta da situação. Fiz um travesseiro com o casaco e dormi quase imediatamente. Umas duas horas depois, acordei e perguntei a Alex: “Estamos perto?” Resposta: “Billie, volte a dormir. Aqui está com emoção”. Nem titubeei e, rendendo graças ao deus Dramin, voltei a dormir o sono dos justos.

Acordei na chegada a Darjeeling, após quatro horas de subida. Anoitecia e a cidade se espalhava pelas montanhas. Meu coração dava pulinhos. Fomos direto para o Resort do Dekeling Hotel, que se chama Hawk’s Nest (Ninho do Falcão), um nome apropriadíssimo, já que fica bem no alto da montanha. Quando as portas do carro se abriram, finalmente descobri o que é o frio do Himalaia. Olhei para Alex e apenas sorri ironicamente, lembrando da frase sobre o verão carioca.

No Hawk’s Nest, dia 24 de dezembro de 2008, às 18 horas, éramos os únicos hóspedes. O hotel é encantador, com janelas que permitem ver as montanhas famosas, mas era inverno e uma densa neblina cobria tudo. Desde a época do Raj Britânico, a primavera e o verão fazem de Darjeeling o paraíso dos aposentados europeus e os preços sobem bastante, mas na véspera de Natal estávamos sós.

Um frio brutal nos alcançou e insisti que desejava acender a lareira. O cozinheiro-gerente e porteiro de plantão concordou. Ao acender a lareira e o minúsculo aquecedor elétrico, o efeito foi quase zero! Naquela ocasião, não havia aquecedor central no quarto. Meu casaco não me ajudava em quase nada e só então notei uma descomunal montanha de edredons sobre a cama. Embrulhei-me em todos eles e estendi o pé na direção do aquecedor, para deleite do Alex, que ria descontroladamente daquela situação ridícula.

Estávamos, na noite de Natal, isolados num hotel indiano-tibetano, nas bordas do Himalaya, sem telefone, internet e TV, com um frio da peste e com uma fome descomunal (nem um biscoito seco na bolsa!). Poderia piorar? Sim! Comecei a ter enxaqueca por causa do longo tempo sem comer. E é lógico que também não tinha um só analgésico.

A comida chegou às 21 horas. Era simplesmente deliciosa (o guia da Lonely Planet não mentiu ao mencionar a maravilhosa comida tibetana do hotel). Uma pena que tudo esfriava em questão de minutos. Comemos e enfrentamos a tarefa de escovar os dentes com água quase congelando. Em seguida, fomos dormir abraçados, menos por amor e mais por espírito de sobrevivência, sob a montanha de edredons. Por volta de 23h,a  lareira apagou, a energia elétrica sumiu pela segunda vez naquela noite, a dor de cabeça aumentou e eu só conseguia pensar que faltavam mais de oito horas para o café da manhã e para as farmácias abrirem. Dormi me perguntando: “Como será que se fala analgésico em hindi?

Amanheceu e Alex foi comprar analgésicos. Eu não queria tomar banho porque tinha certeza que viraria picolé no banheiro sem aquecedor. Mesmo assim, encarei o banho, engoli um analgésico e parti para o café da manhã. Diante de uma chuva de granizo, desfrutamos da área comum, que nada tem de luxuosa, mas é acolhedora e confortável. A cidade estava completamente envolvida pelas nuvens e a temperatura em torno de -3 graus, mas quando o tempo melhorou encaramos visitas aos dois parques locais  Gangamaya Park (lugar de sonhos, com lagos de águas transparentes cheios de flores de lótus e enfeitado por árvores belíssimas) e o Rock Garden, que tem dezenas de pequenas corredeiras e cascatas, além de longos caminhos repletos de flores, bancos no jardim, cenários espetaculares, restaurantes e apresentações de dança tibetana e nepalesa. Na volta, com o frio aumentando, descobrimos que o manjar dos deuses e a salvação dos friorentos atende pelo nome de hot lemon ginger honey, uma limonada quente (fervente, na verdade) com gengibre e mel. Viciamos.

Na manhã seguinte, exatamente às 5 da madrugada, saímos para um dos mais famosos pontos turísticos locais, Tiger Hill. De lá se pode ver o amanhecer no Himalaia. É indescritível, mas tentarei contar a experiência.  Diante de nós estava a cadeia montanhosa do Kangchenjunga, a terceira mais alta montanha do mundo. No Himalaia, perde apenas para o Everest. O imponente conjunto se estende da Índia ao Nepal. Em Tiger Hill, o sol vem abrindo caminho entre as nuvens, o disco dourado surgindo lentamente e a luz se espalhando sobre as montanhas do lado oposto. Só então se pode compreender porque, na Antiguidade, os indianos achavam que o Himalaia era a morada dos deuses. Os picos altíssimos são majestosos e parecem flutuar sobre as nuvens. Imensos, cobertos de neve, são a pura poesia da terra.

Ainda atordoados, no caminho de volta paramos para conhecer alguns tea gardens. Fiquei sem fala ao contemplar, de pertinho, os jardins onde brota o mais maravilhoso chá preto do planeta. Algumas barracas de pequenos produtores locais vendem os pacotes de chá. Bem diferente dos grandes produtores de chá gourmet que visitamos posteriormente. Não titubeei e, ao experimentar a maravilha em seu estado natural e comprei nada menos que vinte quilos de chá preto. Mentalmente, juro que escutei a risada de aprovação de George Orwell.

Ainda neste dia, visitamos o  Bhutia Busty Monastery, um dos tradicionais templos budistas de Darjeeling, com a delicadeza dos desenhos, as cores fortes e  o refinamento das pinturas.  Não se permite mais fotografias nesse templo que veio transportado por partes, em lombo de iaque, em 1879. O lugar é pequeno e um monge muito simpático nos recebeu. Queria saber tudo de nós e do Brasil. Quando ele abriu as portas do mosteiro para nos mostrar o interior, fiquei sem fala: o mais belo Buda que  já vi estava no centro do templo. Todo dourado, com os olhos pacíficos de sempre. As paredes eram cobertas de pinturas muito antigas, com pó de ouro e de prata ou pintados com tintas extraídas de flores. Naquele lugar impregnado de paz e com os olhos cheios de lágrimas de gratidão acendi duas velas de manteiga em memória de meus pais.

 

 

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