Os jogos do Rio, vistos pelo New York Times

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Corpo flutua na baía de Guanabara. Foto: Lalo de Almeida para o The New York Times

O jornal norte-americano The New York Times fez uma radiografia da sujeira nas águas e na cidade do Rio de Janeiro. O texto do jornalista Andrew Jacobs pode ser lido aqui, no original (clique e veja também as fotos).

Abaixo está a tradução livre do texto:
Andrew Jacobs
The New York Times

RIO DE JANEIRO – Especialistas em saúde no Brasil têm um conselho para os nadadores de maratona aquática, velejadores e windsurfistas olímpicos que vão competir nas águas de cartão-postal do Rio de Janeiro no próximo mês: mantenham a boca fechada.

Apesar das promessas do governo, há sete anos,  de conter os resíduos que contaminam a extensa Baía de Guanabara e as fabulosas praias oceânicas da cidade, as autoridades reconhecem que seus esforços para tratar o esgoto bruto e recolher  o lixo doméstico ficaram muito aquém.

Na verdade, ambientalistas e cientistas dizem que as águas do Rio estão muito mais contaminadas do que se pensava anteriormente.

Testes recentes feitos pelo governo e por cientistas independentes revelaram uma verdadeira placa de Petri de patógenos em muitas das águas da cidade. De rotavírus, que podem causar diarreia e vômito, a “super bactérias” resistentes a medicamentos que podem ser fatais para pessoas com sistemas imunológicos enfraquecidos.

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro também encontraram grave contaminação nas praias de luxo de Ipanema e Leblon, onde muitos dos meio milhão de espectadores dos Jogos Olímpicos são esperados para se divertir no intervalo entre os eventos desportivos.

“Atletas estrangeiros estarão literalmente nadando em excremento humano, e correm o risco de ficar doentes, contaminados por todos esses micro-organismos”, disse o Dr. Daniel Becker, um pediatra local, que trabalha em bairros pobres. “É triste, mas também preocupante.”

Funcionários do governo brasileiro e do Comitê Olímpico Internacional reconhecem que, em muitos lugares, as águas da cidade são imundas. Mas dizem que as áreas onde os atletas farão provas – como as águas da Praia de Copacabana, onde os nadadores vão competir – atendem aos padrões de segurança da Organização Mundial de Saúde.

Mesmo alguns locais com níveis mais elevados de dejetos humanos, como a Baía de Guanabara, apresentam risco apenas mínimo porque os atletas da vela ou do windsurf que competirão neles terão contato limitado com a contaminação potencial, acrescentam.

Ainda assim, dirigentes olímpicos admitem que os seus esforços não abordaram um problema fundamental: grande parte do esgoto e lixo produzido pelos 12 milhões de habitantes da região continua a fluir sem tratamento para as águas do Rio.

“Nossa maior praga, o nosso maior problema ambiental, é o saneamento básico”, disse Andrea Correa, a mais alta autoridade ambiental no estado do Rio de Janeiro. “Os Jogos Olímpicos acordaram as pessoas para o problema.”

Atletas estrangeiros que há muito se preparam para os Jogos manifestaram preocupação que as doenças transmitidas pela água poderiam frustrar seus sonhos olímpicos. Uma investigação da Associated Press no ano passado registrou, em alguns testes, vírus causadores de doenças em uma quantidade 1,7 milhão de vezes superior ao nível do que seria considerado perigoso em uma praia do sul da Califórnia.”Temos que manter nossas bocas fechadas quando a água respinga”, disse Afrodite Zegers, 24, membro da equipe de vela da Holanda, que tem praticado na Baía de Guanabara.

Alguns atletas que estão aqui para os Jogos e outras competições foram derrubados por doenças gastrointestinais, incluindo os membros das equipes de vela da Espanha e da Áustria. Durante uma competição de surf no ano passado, cerca de um quarto dos participantes foram abatidos por náuseas e diarreia, disseram os organizadores.

Funcionários têm se debatido com uma profusão de desafios à medida que se esforçam para a cerimônia de abertura dos jogos no dia 5 de  agosto. A epidemia do vírus Zika reduziu a venda de ingressos no estrangeiro, o crime está aumentando, e o governo federal está paralisado pelo processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

No mês passado, o governador em exercício do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, declarou estado de emergência, alegando que a falta de dinheiro ameaçava causar “um colapso total na segurança pública, saúde, educação, transporte e gestão ambiental.”

Ainda assim, os organizadores dizem que as instalações esportivas estão quase completas, e o governo federal tem proporcionado fundos de emergência para o estado. Muitos atletas esperam que os Jogos ocorram sem complicações graves.

As águas contaminadas da cidade, no entanto, são outra questão.

“É nojento”, disse Nigel Cochrane, treinador da equipe feminina de vela da Espanha. “Estamos muito preocupados.”

Para muitos, a crise de esgoto é emblemática da corrupção e má gestão que há muito tempo trava o maior país da América Latina.

Desde os anos 1990, as autoridades do Rio afirmam ter gasto bilhões de dólares em sistemas de tratamento de esgoto, mas poucos estão funcionando.

Na sua proposta de 2009 para os Jogos, o Brasil se comprometeu a gastar US $ 4 bilhões para limpar 80% do esgoto que flui sem tratamento na baía. No final, o governo do Estado gastou apenas US $ 170 milhões, alegando uma crise orçamentária, disseram as autoridades.

A maioria do dinheiro do orçamento de saneamento do Estado tem sido gasto em barcos de coleta de lixo e barreiras portáteis para parar a lama e os detritos que fluem para a baía.

Os críticos dizem que são medidas cosméticas.

“Eles podem tentar bloquear grandes itens como sofás e cadáveres, mas estes rios são lodo puro, então as bactérias e os vírus vão passar” disse Stelberto Soares, um engenheiro municipal que passou três décadas estudando a crise de saneamento da cidade.

Soares disse que riu quando ouviu funcionários prometendo resolver o problema de esgoto antes dos Jogos.

Um esforço anterior, de bilhões de dólares financiados por doadores internacionais, rendeu uma rede de 35 estações de tratamento de esgoto, 500 milhas de conduítes e 85 bombas, disse ele. Quando ele fez sua última verificação, apenas três das bombas e duas dessas estações de tratamento ainda estavam funcionando; o resto tinha sido abandonado e, principalmente, vandalizado, disse ele.

Perguntado sobre o que tinha acontecido, ele levantou as mãos. “No Brasil, eles dizem que o saneamento não rende votos.”

Romário Monteiro, 45, um pescador de segunda geração, que passou a vida trabalhando na Baía de Guanabara, lembra quando as águas eram cristalina e os peixes abundantes.

Agora sua rede, muitas vezes pesca mais lixo do que peixes, incluindo televisores, cães mortos e ocasionais golfinhos mortos por ingerir sacos de plástico.

“É nojento”, disse Monteiro.

Ele já navegou entre alguns poucos cadáveres, incluindo o corpo de um homem – cujas pernas estavam atadas por uma corda – balançando na água, no mês passado.

Mas o Sr. Monteiro está mais preocupado com as fábricas situadas na costa que descarregam resíduos químicos e com os navios petroleiros que expelem o conteúdo de seus porões, dando à superfície da água um brilho colorido.

Assim que deixou o porto perto de sua casa na Ilha do Governador, ele apontou para uma meia dúzia de tubos, expostos pela maré baixa, despejando dejetos de 300.000 moradores da ilha.

“Quando você abre o peixe, as entranhas estão pretas de óleo e lama”, disse ele. “Mas nós limpamos com sabão e comemos de qualquer maneira.”

Para muitos moradores, especialmente aqueles que vivem nas favelas, a falta de saneamento causa miséria. A hepatite A é endêmica entre os moradores das favelas, dizem especialistas em saúde, e as crianças são frequentemente contaminadas pelos agentes patogênicos que escorrem de bueiros de carregados de esgoto diretamente nas tubulações de água potável improvisadas.

Irenaldo Honorio da Silva, de 47 anos, que dirige a Comissão de Moradores do Pica-Pau, uma favela com 7.000 habitantes, informou que há décadas as autoridades locais prometem resolver a crise do saneamento.

“Eles vêm, em seguida, eles vão”, disse ele.

As fortes chuvas transformam as ruas do Pica-Pau num ensopado pútrido. Um lado da comunidade é delimitada por um canal fétido, suas margens alinhadas com casas, carros abandonados e vendedores de alimentos.

O odor é opressivo.

“Isso não é nada”, diz Silva. “No verão, é insuportável.”

Todos os dias, o Instituto Estadual do Ambiente testa os níveis de bactérias das águas e os põe em um gráfico colorido online. Muitas praias-vitrines são classificadas como “inadequadas” para a atividade humana.

Isso inclui o Flamengo, a enseada onde acontecerão as competições de barco nas Olimpíadas, e as  icônicas praias em frente a alguns dos bairros mais ricos do Rio de Janeiro.

Moradores ainda lotam as praias no fim de semana, mas Renata Picão, microbiologista da Universidade Federal do Rio,tem se recusado a pisar na água desde que começou os testes há três anos.

Renata Picão identifica altos níveis de micróbios resistentes a medicamentos em cinco das praias mais conhecidas da cidade. A Fundação Oswaldo Cruz, um laboratório administrado pelo governo, encontrou superbactérias na lagoa Rodrigo de Freitas, cercada por condomínios de alto preço.

Ela disse que os agentes patogênicos, potencialmente fatais para as pessoas com imunidade comprometida, provavelmente vêm de hospitais locais que descarregam ali resíduos não tratados. Embora as super bactérias possam não representar uma ameaça para as pessoas saudáveis, os organismos podem permanecer no corpo durante anos e causar estragos se a pessoa ficar fragilizada  por outras doenças.

Ms. Picão e outros especialistas em saúde dizem que, ao contrário dos moradores, que têm sido repetidamente expostos a agentes patogênicos originários do esgoto, visitantes estrangeiros são mais propensos a adoecer após o contato com águas contaminadas.

E ela não é otimista sobre futuros esforços de limpeza.

“Se eles não puderam limpar para os Jogos Olímpicos, uma oportunidade única na vida, receio que isso nunca venha a acontecer”, disse ela.

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