O Brasil que eu quero

Ricardo Pulido

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Meninos pulando carniça. Cândido Portinari.

Continuo meio embasbacado com a abertura da Olimpíada do Rio. Superou minhas expectativas com larga margem, em especial após o amadorismo da abertura da Copa. Foi uma cerimônia bonita, animada, feliz. E cumpriu o papel que esse tipo de cerimônia tem: mostrar uma imagem do país-sede ao mundo.

E, em se tratando de Brasil, não foi uma, mas muitas imagens. Passadas, como manda nossa “tradição”, todas ao mesmo tempo, rapidamente, em caleidoscópio. E no final, fica-se apenas com aquela impressão de beleza, alegria e criatividade. Poderíamos parar por aqui, ficarmos felizes e cuidar da vida. Mas, tantos símbolos foram colocados nesse evento, que não podemos nos furtar de tentar apreender algo mais substancial.

Primeiramente, a questão ambiental. Hipocritamente lançou-se essa bandeira, ao mesmo tempo em que não limpamos a Baía de Guanabara, nem a Lagoa. Bem brasileiro: para problemas concretos, fazemos poesia. Mas de qualquer forma, as sementes que os atletas “plantaram” deverão virar um parque. Espero que sim.

A glorificação da favela. Outra coisa bem nossa: como não podemos melhorar a situação, como não queremos nem tentar, dizemos que é assim mesmo, que é bom, que é nosso, que ninguém sente dissabor. Com o tempo, acreditamos e passamos a defender o indefensável. Nada mais emblemático que a Regina Casé, maior representante de algo ruim (a favelização) apropriado e transformado em mais um campeão de audiência. Mais do mesmo, infelizmente.

A música, os estilos, a mistura, Jorge Benjor. A festa. Algo muito brasileiro, nossa maior qualidade. Nunca havia visto uma cerimônia de abertura que foi mais abertura que cerimônia. Um baile, uma delícia. O Patropi enviado a bilhões de pessoas mundo afora, abençoado por Deus, bonito por Natureza, deixando a vida levar, e agradecendo a tudo que Deus deu. E sim, Anitta foi bem, cantou com competência e outros atributos evidentes. Caetano e Gil envelhecidos, com vozes pequenas. Gil visivelmente se esforçando para ali estar, apesar dos limites do corpo. Emocionante.

Esse, amigos, é o Brasil que somos.

Mas a cerimônia foi longa, apesar de não ter sido cansativa. Detalhes mínimos e fantásticos, como a projeção em 3D do crescimento das cidades, as bicicletas na frente das delegações. O clima de festa na entrada dos atletas, apagando aquele clima de marcha militar. As criancinhas carregando as plantinhas. O uniforme ridículo dos americanos (pior que a bermuda do Rocky), e o óleo Johnsonn naquele cara de Tonga. Os refugiados, o Ban Ki Moon e aquela chinesa parecida com a Dilma. O Carlos Arthur Nuzman visivelmente nervoso, quase sofrendo uma síncope. O prêmio àquele queniano, as pipas, os juramentos. A bandeira olímpica com o Oscar, (grande Oscar!) e a Marta. Tudo como manda o figurino, mas mais tropical, mais solto, mais Ipanema.

Tivemos também os momentos ufanos. Santos Dumont, um dos maiores brasileiros, justamente homenageado de forma fantástica e inesperada. Gisele Bündchen, linda, deslumbrante, elegante, atravessando o gramado, sobre desenhos de Niemeyer e ao som de Garota de Ipanema. A bossa nova, a sofisticação. Um Brasil que quase fomos… Quase.

E por fim, a chama olímpica. A melhor surpresa da noite. A escolha dos atletas foi excelente. E se Pelé não quis ir, pior para ele. Wanderley Cordeiro de Lima, o maratonista que quase foi ouro, que quase ganhou, ali, recebendo uma honra maior que a medalha de ouro que seria sua, acendendo a pira. A nossa pira. Pequena e linda. Wanderley é o Brasil que somos, que tenta e não consegue. Um país abalroado na reta final. Mas que acende a pira.

Uma abertura emocionante e bela, como a execução do Hino. Nada de grandes vozes ou orquestras. Sem grandiloquências.

Apenas um senhor, negro, extremamente fino e elegante. Paulinho da Viola, dignamente belo, à frente de um conjunto de cordas, tocando nosso Hino, com um arranjo de samba. Uma voz suave, precisa, doce. Sem exageros, e mesmo assim, diferente de tudo no mundo.

O Brasil, o Rio, o morro, a cidade… não precisamos de Reginas Casés para nos afirmarmos. Precisamos apontar mais na direção de Santos Dumont. Mais para a leveza de um 14-bis, para a sensualidade delicada de uma Gisele, mais para a beleza de um Jobim, ou para a alegria de Jorge Benjor. Precisamos ser mais Wanderleys e menos Pelés.

Paulinho da Viola cantando o Hino Nacional é o Brasil que eu quero.

4 comentários em “O Brasil que eu quero

  • agosto 6, 2016 em 10:11 pm
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    Maravilhoso este texto. Este e o Brasil que queremos !

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  • agosto 6, 2016 em 11:17 pm
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    Texto sem acréscimo….muito .pertinente…..principalmente em relação ao “surgimento” da Regina Casé…estou até agora procurando saber o muito, o que ela estava fazendo ali?

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  • agosto 8, 2016 em 4:56 pm
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    Muito bom! O Brasil que também tem leveza e beleza sensual , verdadeiramente sensual, diga-se de passagem.

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