Nós, que nos amávamos tanto

tarsila
Tarsila do Amaral. O Vendedor de Frutas.

Assisti à abertura das Olimpíadas do Rio exercitando meu budismo diletante: evitando expectativas. Decidi que primeiro assistiria e depois comentaria, elogiando o que fosse bom e fazendo observações sobre o que não foi satisfatório na minha opinião. Deixei para escrever dois dias depois porque desejava observar a reação nas redes sociais. Sempre há ondas: inicialmente, uma explosão de emoção, com choro, empolgação e deslumbramento. É seguida de leituras supostamente “profundas” nas quais se desqualifica o que havia sido unanimidade antes. Segue-se uma terceira onda, na qual se desqualifica a desqualificação anterior. Passo seguinte: intensificação de choro e ranger de dentes. Não foi diferente desta vez.  E me deu margem para refletir sobre a cerimônia em si e sobre nós, brasileiros, que atualmente somos um pote até aqui de mágoa.

A abertura das olimpíadas foi, sim, tecnicamente um belo espetáculo, conduzido por gente experiente: cineastas, carnavalescos, publicitários. A ideia era essa mesmo: vender uma imagem positiva do Brasil, despertar emoção. Queriam o quê, cenas de tiroteio ou lixo boiando na baía de Guanabara? Assim, a abertura mostrou uma parte bonita do Brasil. Reconheçamos: missão cumprida com louvor. Visualmente grandioso, muito bem executado.

Paulinho da Viola, o voo do 14-Bis, Gisele, Wilson das Neves e o garotinho Thawan Lucas da Trindade nos relembraram um outro Brasil, que anda soterrado por escândalos de corrupção e uma flagrante incapacidade administrativa. Um Brasil que não apenas canta e é feliz, mas também trabalha, estuda e é original embora fiel às suas raízes mais honoráveis. Não é um Brasil que copia, que dá jeitinho, que suborna ou aceita propina. O que todos estes personagens têm em comum? Esforço, dedicação, elegância. Até o garotinho? Sim, o garotinho de 8 anos que nos lembrou o original encantamento do samba é uma criança focada e com um talento nato. Igualzinho a Gisele, Santos Dumont, Paulinho e Wilson. Li nessa matéria aqui o quanto aquele menino valoriza o estudo e já planeja uma carreira de coréografo.  Thawan me restaurou um pouco a esperança. Seus passos certeiros, sua ginga bonita e sua felicidade foram uma reverência aos nomes sagrados que Wilson das Neves evocou na cerimônia. Um menino à moda antiga, mais adequado a um Brasil que já acabou.

Ouvir Paulinho da Viola é sempre um prazer. Um lorde. Enquanto a voz suave cantava Brasil, um sonho intenso, um raio vívido de amor e de esperança meu coração soluçava baixinho, ferido por um sentimento de compaixão pela mãe gentil cujo leite nutriu uns filhos tão raivosos. Logo nós, que achávamos que éramos tão alegres e solidários. Bastaram uns políticos matreiros e uns marqueteiros bem pagos para nos fazer cair a máscara e descobrir que não nos amávamos tanto assim. Logo nós, que nos acreditávamos tão acolhedores e recepcionamos os turistas com golpes mesquinhos, violência e preços surreais.

O voo do 14-Bis foi uma escolha acertada. Santos Dumont traduz as melhores qualidades do que imaginamos ser um brasileiro inspirador: um homem criativo e determinado, que não mediu esforços para concretizar seu sonho; que, mesmo sendo bem sucedido na França, demonstrava amar profundamente o Brasil; que valorizava seus empregados e compartilhava suas descobertas com toda a humanidade.

Não, a abertura dos Jogos não traduziu a cultura brasileira. Faltou mais arte e muito mais cultura, especialmente a regional. Verdade que estiveram lá Athos Bulcão, Ary Barroso, Tom & Vinicius, Drummond e sua extasiante  A flor e a náusea. Também estavam Gil, Caetano e Elza Soares. Os queridinhos da mídia e os ídolos das novas gerações também marcaram presença. Compreensível. Sim, vieram os índios e os competentes artesãos do festival de Parintins, mas o restante do Brasil ficou esquecido. De que diversidade brasileira estamos falando, afinal? Nossa diversidade se limita à cor da pele ou às classes sociais? Estávamos tão ocupados em “empoderar” (desculpem o palavrão) os segmentos que rendem mídia atualmente que esquecemos as demais regiões do país? A lacuna imensa estava lá, no silêncio de gaúchos, nortistas, rendeiras, sanfonas e pantanais. Um vazio de Trenzinho do Caipira, de Emília e Visconde, de Tarsila e Di Cavalcanti, de Portinari e Macunaíma, de Brás Cubas e Gabriela. Não faltou tempo para revelar essa riqueza. Só faltou vontade para isso, já que as escolas de samba mostram civilizações inteiras em apenas uma hora de desfile e a publicidade tem o dom de concentrar mensagens enormes em 30 segundos de propaganda.

A pregação em defesa da ecologia foi além do necessário. Ela já estava presente na mensagem eloquente das sementes plantadas pelos Atletas e na utilização de materiais e estratégias ecologicamente corretos, mas a “lição” ao mundo soou faça-o-que-eu-digo-não-faça-o-que-eu-faço perante as águas poluídas da baía de Guanabara ou a construção do campo de Golfe sobre as terras de uma Reserva Ambiental.

Mal acabou a cerimônia, o país das emoções à flor da pele ressurgiu. Lágrimas abundantes lavaram a alma brasileira e, por um fugaz momento, ressuscitaram o moribundo sentimento de orgulho nacional. A cerimônia nos lembrou que éramos um país gigante pela própria natureza, um impávido colosso cujo futuro espelha essa grandeza. A abertura dos jogos foi nosso carnaval, em que a fantasia oculta a realidade. A imprensa internacional aplaudiu, os organizadores se emocionaram, as redes sociais deliraram. Quanto riso, quanta alegria. E as trombetas de uma nova era anunciaram: Vamos todos ser felizes! Parem de reclamar! Nunca houve uma cerimônia de abertura tão bela! Ah, o Brasil, tão único.

Mas, como em toda publicidade, a mágica funciona apenas por breve tempo. Mesmeriza e vende sonhos enquanto está diante dos olhos. Logo que passa o efeito, a realidade se impõe, o relógio soa as doze badaladas e o restante já se sabe: carruagens viram abóboras, princesas estão com a cara suja de cinzas e corcéis se revelam ratinhos. No dia seguinte já estávamos na quarta-feira de cinzas. A falta de organização e o despreparo deram as caras logo nas primeiras competições no parque olímpico. O número de detectores de metal e raio X era tão pequeno que se formavam filas quilométricas; na maior parte do tempo o raio X pra bolsas não funcionava e os militares precisavam fazer uma revista “rapidinha”; havia poucas pessoas que falavam inglês para auxiliar os turistas; comprar bebida e comida tornou-se um pesadelo, tal a extensão das filas e a demora no atendimento. O resultado ? Arquibancadas vazias porque a maioria das pessoas não conseguia chegar a tempo para os jogos, muita gente com fome e sede, irritada e reclamando. Cereja do bolo: já que não conseguimos atender rapidamente as pessoas, reduziu-se os cardápios a refrigerante, água e salgadinhos. Ah, mas o que vale é a alegria do carioca e o espírito olímpico, não é? Basta fazer uma mímica ou falar devagarzinho (“sal-ga-di-nho”, “re-fri-ge-ran-te”) e um tradutor se instalará por milagre na cabeça do turista que não fala português. Por que será, meus deuses olímpicos, que alguns brasileiros acreditam que soletrar palavras ou falar alto vai fazer os estrangeiros entenderem alguma coisa em nosso idioma? Ponha na conta do nosso amadorismo.

Enfim, nos dois dias seguintes,voltamos à programação normal. Nas redes sociais, tudo também como dantes: raiva, reclamação, mais raiva, brigas, outras raivas. No grande altar dos ódios nacionais, houve quem criticasse tudo: Gisele, Paulinho da Viola, Anitta, Santos Dumont. Até Santos Dumont? Sim, até esse agora foi transformado num burguês afrancesado, explorador, que nada inventou. Em dois minutos, os novos tempos brasileiros enxovalharam a honra de um homem digno de nosso orgulho – mas isso é assunto para outro artigo.

Por ora basta saber que nós, que nos amávamos tanto, seguimos entre a fantasia cega e o ódio sem pudor.

 

 

3 comentários em “Nós, que nos amávamos tanto

  • agosto 7, 2016 em 7:55 pm
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    Esperava ansiosa por seu texto!
    Fico sem palavras, você é uma das poucas que ainda vive neste mundo real.
    Muito Obrigada!
    Leda Maria

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  • agosto 7, 2016 em 10:48 pm
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    Como sempre lúcida e pontualíssima , Sonia. Difícil sucumbir às emoções sem perder a razão .
    Sabemos que a magia do espetáculo dribla por um tempo o que não queremos admitir. É naquela magia que queríamos perpetuar o sonho de um Brasil Q desse certo . Queríamos …

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  • agosto 7, 2016 em 11:49 pm
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    Encantada e emocionada com a sua habilidade de mostrar a essência de um momento belo e mágico.
    Parabéns!!
    Grande abraço!!

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