Santos-Dumont é nosso herói, sim

Meu mais intenso desejo é ver verdadeiras escolas de aviação no Brasil.
Ver o aeroplano percorrendo as nossas imensas regiões,
povoando o nosso céu, para onde, primeiro, levantou os olhos o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão.
Alberto Santos-Dumont
Entre os muitos dissabores que a internet me ofereceu  esta semana está um artigo de um famoso colunista sobre Santos- Dumont. Ultimamente tem se tornado moda mundial, para provar um ponto, valer-se de liberdades poéticas, por assim dizer, ao comentar a biografia alheia. E dessa forma destroem-se reputações, reinventa-se a história ou descobre-se que personalidades até então admiradas têm um pé fincado na canalhice ou na mediocridade. 
É uma vigilância sobre os ídolos alheios que dá gosto. Hoje em dia, há de se ter imenso cuidado ao escolher heróis. Se o eleito não for fundador de quilombo, portador de deficiência, estuprado na infância, famélico e morto em decorrência da tuberculose aos 19 anos, escolha outro. Caso contrário, vão vasculhar a vida do coitado e descobrir que era um  criminoso nato ou uma fraude vergonhosa. Ou que nem era herói coisa nenhuma.
Não se pode mais admirar ninguém impunemente, ora veja. 
Não sou dada a idealizações. Gosto das pessoas por seu caráter ou por sua inteligência, engenho e arte. Meus ídolos não são perfeitos. Van Gogh era bipolar e uma pessoa dificílima no trato pessoal; Schopenhauer, insuportável; Kant era tão metódico que a vizinhança acertava o relógio quando ele passava na calçada. E Oscar Wilde? Um imprudente, claro, mas como escrevia bem! 
 Isto posto, falemos de Santos-Dumont.
Estava eu posta em sossego quando li o mencionado texto, que em resumo afirma que o empreendedorismo de Santos-Dumont era fruto da cultura francesa; que ele só criou o 14-BIS para ganhar um prêmio em dinheiro na França; e que os brasileiros haviam sido enganados. O autor afirma com desgosto que “a escolha de heróis diz muito sobre um país”, garante que Santos Dumont jamais inspirou os brasileiros e ele “é nosso herói porque não temos heróis e nossa elite incompetente se apropria (de um francês, no caso)”. Há tantos equívocos no texto que dá até para fazer um jogo dos sete erros. Vamos a eles?
Comecemos pelo conceito de herói, que pode ser um indivíduo que se notabilizou por suas realizações, coragem, abnegação, magnanimidade; figura central de um período; pessoa que se distingue ou é centro de atenções; ou que desperta enorme admiração; ídolo. Pois bem, há mais de cem anos Santos-Dumont cumpre todos esses requisitos. Nosso aviador está merecidamente no panteão de heróis – e não por seus belos olhos. Foi colocado ali por suas qualidades éticas e profissionais, por seu trabalho sério e seu caráter nobre. Um inventor, pesquisador, filantropo e benfeitor da humanidade.
São heroicas sua tenacidade e fidelidade a seus objetivos. Estudou e trabalhou arduamente por anos a fio a fim de criar a sua máquina de voar. Visitou diversos países em busca de informações científicas e pesquisadores da área, investigou combustíveis, dedicou-se à física, a estudos de engenharia mecânica, à pesquisa dos motores e à análise de materiais para o corpo dos aviões. Suas invenções jamais podem ser restritas ao 14-BIS ou à mera data de criação do avião, mas estendem-se a balões, dirigíveis e aeronaves. Uma vida inteira dedicada à ciência de voar e que se iniciou muitos anos antes do Sr. Deutsch instituir seu prêmio. A propósito, Santos-Dumont concorria a prêmios pelo desafio da descoberta e amor à ciência, e não por causa do dinheiro. Embora acreditasse que os concursos deveriam existir para estimular a indústria aeronáutica iniciante, pessoalmente achava de mau gosto ser movido por ambição financeira, afinal era riquíssimo. Assim, doou todos os valores dos prêmios que recebeu. No caso do Deutsch, entregou metade a seus empregados e o restante ao prefeito de polícia de Paris, para que este distribuísse o dinheiro aos pobres da cidade. Esta frase, que consta de seu livro Dans l’ air, parece responder às acusações que lhe fazem hoje: “Eu não visava o premio Deutsch ao começar a construir aeronaves. Por tê-lo ganho, não havia pois nenhuma razão para interromper as minhas experiencias. Quando meu primeiro aparelho foi lançado, nem o Aero Club nem o premio Deutsch existiam”. Santos-Dumont também abriu mão de todas as patentes de seus aviões – incluindo sua obra-prima, Demoiselle – porque acreditava que toda a humanidade deveria ter o direito de voar.
Diante disso, torna-se sem sentido essa frase do texto que menciono: “Santos Dumont se tornou herói porque um capitalista francês criou o prêmio Deutsch de la Meurthe de 50.000 Francos franceses para o primeiro que produzisse um avião que contornasse a Torre Eiffel, em Paris, França”. Lamentável. Um reducionismo inaceitável, fruto da ignorância sobre a biografia do aviador.
Ah, sim, o prêmio Deutsch vencido por Santos-Dumont não era de 50.000 francos franceses e sim de 100 mil francos. Outra coisa, não era um prêmio para o primeiro que produzisse um avião que contornasse a Torre Eiffel. Não, senhor. O Prêmio era destinado a quem conseguisse resolver o problema da dirigibilidade dos balões. O desafio era fazer um balão dirigível sair de Saint-Cloud dar a volta na Torre Eiffel e retornar a Saint-Cloud em um tempo igual ou inferior 30 minutos. Por fim, não foi com o 14-BIS que Santos-Dumont arrebatou esse prêmio: foi com o dirigível N-6, de 622 metros cúbicos e motor de 20 cavalos.  Mais tarde, houve um Prêmio Deutsch-Archdeacon no valor de 50 mil francos, destinado ao primeiro aviador que fizesse um vôo circular de 1 quilômetro num veículo tripulado em veículo mais pesado que o ar. Este prêmio não foi ganho por Santos-Dumont e sim por Henry Farman. Sim, são detalhes, mas revelam quão pequeno é o conhecimento do colunista sobre Santos-Dumont. 
Sobre a afirmação que Dumont era “francês”, basta lembrar que ele se mudou para Paris somente aos 24 anos, e ali – apesar do ambiente tecnicamente mais favorável – encontrou muitas dificuldades em seus estudos e pesquisas sobre a ciência aeronáutica. No dia  4 de novembro de 1901, aos 28 anos, ganhou o prêmio Deutsch. Ou seja, quatro anos depois de sua chegada. Nesse curto período de tempo não dá para capturar a identidade gaulesa. Nem Santos-Dumont o desejava. O que Dumont reconhecia é que as liberais leis francesas favoreciam bastante seu trabalho e experiências. Ali também encontrou experientes mecânicos e um público que o amava e apoiava, além de autoridades que não o puniam quando se acidentava. Mas o contraponto a isso não era o Brasil especificamente. Tanto que ele resistia em sair da França para trabalhar na Inglaterra (onde se chegava a dar tiros em balões) ou nos Estados Unidos – terra dos empreendedores. Considerava Paris como sua segunda casa por todos esses fatores, inclusive emocionais, mas é um exagero atribuir-lhe alma francesa em detrimento do país natal que tanto amava.
Aliás, sobre a frase “A única coisa que Santos Dumont não pode controlar foi o país em que nasceu”, respondo apostando alto que, se pudesse, ele nada mudaria. Basta ler seus livros e cartas para notar o enorme amor que ele sentia pelo país em que nasceu. Fez questão de colocar um hífen unindo o sobrenome Santos ao Dumont, justamente para que sua origem brasileira não ficasse esquecida. E que tal recordar que seus primeiros balões se chamavam… Brasil?
Hoje, o mundo, o Brasil, o colunista citado e especialmente os norte-americanos não têm a menor ideia de quem foi Santos-Dumont. Sim, o tempo é cruel. Quase ninguém sabe que, com a conquista do Prêmio Deutsch e posteriormente com o 14-BIS e o Demoiselle, Santos Dumont tornou-se umathomas das maiores celebridades mundiais. Celebridade de verdade, sabe? Do tipo que imperadores e reis atravessavam a rua para cumprimentar. Literalmente. De artistas como Rodin a cientistas como Graham Bell, Santos-Dumont era admirado em todo o planeta. Alvo de milhares de reportagens e edições ilustradas em vários países, suas fotografias eram disputadas, sua efígie foi transformada até em um biscoito e as caixas de chocolate francesas traziam como brinde miniaturas de seus aviões. Qualquer coisa que usasse tornava-se moda instantaneamente. Foi o caso dos seus colarinhos altos, dos elegantes ternos risca-de-giz, do chapéu invertido e do relógio de pulso, criado pelo joalheiro Louis Cartier para atender a um pedido do brasileiro e até hoje uma das mais famosas (e caras) peças da Maison Cartier. Veja aqui o Santos – pronuncia-se Santôs e, sim, o nome é uma homenagem de Cartier ao nosso aviador. E o que dizer dessa dedicatória (foto) de Thomas Edison? Foi um presente quando Santos-Dumont viajou para os Estados Unidos e visitou os laboratórios de Edison. Na ocasião, o aviador foi recebido na Casa Branca pelo presidente Roosevelt.
É que Santos-Dumont encarnava à perfeição o ideal heróico: grande inteligência, dedicação intensa à ciência e ao trabalho, visão à frente do seu tempo, corajoso (sofreu vários acidentes sérios enquanto testava seus modelos), aventureiro (tinha verdadeira paixão por velocidade e esportes radicais); elegante no vestir e nas atitudes pessoais; esbanjava equilíbrio (emancipado aos 18 anos e milionário, manteve-se fiel à dama ciência e não a uma vida de dissipação); e profundamente generoso.
Seduzia o público essa personalidade cativante, que transitava com naturalidade entre aristocratas e mecânicos, ditava moda, estacionava o avião na porta de casa, dirigia em alta velocidade pelas ruas de Paris, e – numa época em que as mulheres raramente trabalhavam – ofereceu seu caríssimo dirigível #9 para que Aída de Acosta Root Breckinridge, de 19 anos, o pilotasse sozinha. Reza a lenda que Alberto a seguiu, de bicicleta, pelas ruas de Paris, gritando instruções. Aída foi a primeira mulher a pilotar um balão dirigível.
Em sua terra – à qual sempre esteve ligado – não faltaram homenagens, noticiário farto e reconhecimento. Para ficar em um singelo exemplo: em 1901, o presidente Campos Salles enviou-lhe um prêmio em dinheiro no mesmo valor do Prêmio Deutsch, bem como uma medalha de ouro com sua efígie e uma alusão a Camões: “Por céus nunca dantes navegados”.  Em Petrópolis, a casa de Santos-Dumont chama-se Encantada e é uma boa amostra da visão de futuro deste homem extraordinário. Modelo super compacto com total aproveitamento do espaço, um inédito (na época) chuveiro de água quente, escada com design inovador e armários embutidos. Uma verdadeira casa de pássaro, primor de arquitetura, encravada num penhasco e tradução de um espírito genial. E mais: no país da Embraer e do ITA, será lícito dizer que Santos-Dumont nada inspirou?
Voo_do_14_bisSobre esta outra frase do texto (Nossa elite improdutiva e incompetente enganou você, se apropriando de um francês e dizendo que foi o Brasil que inventou o avião), cito o próprio Santos-Dumont, quando mostra que sua paixão pela engenharia mecânica nasceu aqui mesmo, nas terras da fazenda em que morava:  “Vivi ali (na fazenda) uma vida livre, indispensável para formar o temperamento e o gosto pela aventura. Desde a infância eu tinha uma grande queda por coisas mecânicas e, como todos os que possuem ou pensam possuir uma vocação, eu cultivava a minha com cuidado e paixão. Eu sempre brincava de imaginar e construir pequenos engenhos mecânicos, que me distraíam e me valiam grande consideração na família. Minha maior alegria era me ocupar das instalações mecânicas de meu pai. Esse era o meu departamento, o que me deixava muito orgulhoso”.
 
Sobre o empreendedorismo de Santos-Dumont, que é igualmente atribuído à cultura francesa, mais uma vez cito uma frase do próprio aviador: “É costume oriental fazer recair sobre os pais todo o mérito, toda a glória, que um homem conquiste na vida. Esta maneira de ver pode ser criticada ou desaprovada, porém, no meu caso, ela seria muito justa, pois, tudo devo a meu pai: conselhos, exemplos de trabalho, de audácia, de economia, sobriedade e os meios com os quais pude realizar as minhas invenções. Tudo lhe devo, desde os exemplos“. De fato, o pai de Santos-Dumont foi um exemplo. Empresário de sucesso, multimilionário e de reconhecido talento para os negócios.
Justiça se faça: o autor terminou o texto com uma única frase correta: “E posso dizer que temos muitos heróis sim, mas que nunca valorizamos”. Parabéns, caro senhor colunista. Foi exatamente o que senhor acabou de fazer: desvalorizou um herói nacional. Talvez o maior que já tivemos.
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Conheça Santos Dumont:
3. Caderno especial do jornal Estado de São Paulo sobre Santos-Dumont. Fotos e informações inéditas do arquivo pessoal do aviador.
5. Vídeo L’Odyssée de Cartier – A maison francesa dá destaque a Santos-Dumont nesse vídeo.
6. L’Homme Mecanique – Um livro inédito de Santos-Dumont no qual ele fala sobre os irmãos Wright

10 comentários em “Santos-Dumont é nosso herói, sim

  • agosto 8, 2016 em 2:24 pm
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    Sensacional, Sonia!
    Eu li o artigo que motivou o seu texto e também fiquei indignado.
    Obrigado por cada palavra que escreveu!

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  • agosto 8, 2016 em 8:42 pm
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    Caríssima Sonia!
    Vc é genial! Mega jornalista, hiper colunista e a melhor e maior escritora crítica do país!

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  • agosto 9, 2016 em 10:06 am
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    É mania de brasileiro querer ser capacho dos outros , desmerecendo sua dignidade em prol de países que nem sequer na maioria , se importam com nossas mazelas, e nem ai estão para nossa opinião

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  • agosto 9, 2016 em 11:02 am
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    Obrigada Sonia. Ótimo artigo.
    Faltou identificar o “tal colunista” . Eu gostaria imenso de ler o que ele escreveu.

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  • agosto 9, 2016 em 10:25 pm
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    Como diria o nosso saudoso José Wilker .. . Sonia você é Felomenal. Fantástica está aula sobre o grande aviador, aprendemos muito com sua garra jornalística e quem sabe este jornalista nas próximas matérias vai precisar mais para não escrever besteiras . Parabéns querida e obrigada !

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  • agosto 10, 2016 em 7:36 pm
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    uma justa e grande defesa de um grande Homem!!!
    lamentável uma pessoa escrever sem ter o menor conhecimento sobre o personagem e a história envolvida no assunto.

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  • agosto 11, 2016 em 7:22 pm
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    Texto impecável da Sônia, como sempre. Só complementando, Santos-Dumont é reconhecido no meio aeronáutico até mesmo entre os americanos. A contribuição dele para a aviação foi decisiva. Embora existam dúvidas sobre quem voou primeiro (Eu particularmente acho uma dúvida boba, pois se não foram os Wright, seria Dumont, se não fosse Dumont, seria Blériot, ou algum outro. Naquela época havia uma corrida para desenvolver o avião. Mas voar não era novidade pois já existiam os balões e os planadores já voavam desde 1889 com Otto Lillienthal – este último também inventou o acidente aéreo, pois morreu em uma queda de seu planador).

    Eu sou apaixonado por aviação. Desde moleque sempre fui rato de hangar. Sim, olho para o céu toda vez que escuto um avião e, acredite, tenho um ouvido e uma visão apuradíssima para encontra-los no ar. Identifico muitas aeronaves somente pelo som do motor (O Airbus da TAM tem um som mais agudo que o Boeing da Gol, por exemplo. O E-Jet da Azul tem um som parecido com o Airbus mas um pouco abafado). Como um rato de hangar que se preze, conheço muita gente na aviação, e afirmo sem medo de errar que todos eles, brasileiros ou não, admiram Santos-Dumont pela inventividade e genialidade. Dumont projetou o primeiro motor de cilindros opostos, padrão na aviação até hoje (os famosos motores Lycoming usados por quase todos os aviões de pequeno porte tem esta disposição). Mas o grande feito de Santos-Dumont, maior que o voo do 14-bis, foi tornar público os projetos de suas aeronaves. Este foi o primeiro passo para o nascimento da aviação. O 14-bis e o Demoiselle foi uma coisa parecida com o que é hoje o software livre – o código estava lá, bastava alguém pegar e melhorar. O resultado disto? Um boom na indústria aeronáutica em pouco menos de uma década. Só para ficar na história da aviação no Brasil: em 1910 um senhor chamado Dimitri Senseaud de Lavaud construiu o primeiro avião em solo brasileiro, na cidade de Osasco, SP; em 14 de outubro de 1911 nascia o primeiro aeroclube do Brasil (em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, RJ) que teve como um dos sócios fundadores Santos-Dumont ;em 1919 já havia correio aéreo no Brasil; em 1927 surgia a nossa primeira empresa aérea a VARIG. Na década de 1930 o jornalista Assis-Chateubriand (sim, ele, o fundador do Correio Brasiliense) financiou a criação de aeroclubes em todo o país.

    A história da aviação nacional é riquíssima. E tem como seu ícone Alberto Santos-Dumont.

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