O tempo

Hoje é o aniversário de Robert Redford. 80 anos. Logo cedo, a Magnum Photos publicou, em seu perfil no Facebook, a foto acima.  A fotografia de Christopher Anderson mostra um Redford cuja pele parece um pergaminho. O rosto do ator é como terra ressequida, preenchida com os sinais do tempo –  minúsculas negras manchas, rugas profundas.

De imediato, alguém comentou: “Não, Redford merece outra coisa. Ele não está a serviço da arte do fotógrafo, mas o contrário, como nesta foto de Alex Webb. Como disse Brian de Palma, as mulheres e os atores são mais bonitos em filme que em digital. O filme não está morto, mas na Magnum sim, ao que parece. Uma pena.” E o comentador anexou uma foto do ator ainda jovem, sem rugas, em uma postura que transmitia força e sensualidade. Outro emendou: O que é isso? Isso não é um retrato. É um desastre do photoshop” e um terceiro “Foto horrível!”. Postaram, então, algumas fotos de um jovem e sorridente Redford.  Alguém lamentou, por fim: “Ele era tão bonito…”  Uma comentadora notou que os olhos e a expressão não haviam mudado. Outro pediu respeito, poucos elogiaram o retrato e alguns dedicaram-se a criticar a técnica do fotógrafo.

Indiferente ao debate, Robert Redford se mostrava no auge de sua beleza. A foto é um poema. Traduz numa imagem o conjunto de uma vida inteira, com sulcos de lágrimas fundas, com marcas de risos rasgando a pele. Ela fala de plenitude, de intensidade, do longo caminho que nos faz humanos. É um tratado de filosofia, que nos diz tanto sobre o tempo, sobre a transitoriedade de todas as coisas, sobre os valores que importam, sobre a velhice que nos iguala ao reunir na massa de brancos cabelos e peles flácidas os deuses e os anônimos.

Os cabelos de Redford parecem de menino, assim como seus olhos claros. O rosto enrugado se faz máscara do homem vigoroso que ainda vive nele? A mão pousada no pescoço deixa entrever, na camisa aberta, os pelos do peito. O que estaria dizendo quando fez aquele gesto?

Diante daquele retrato, reverencio o ciclo perfeito que aos poucos se fecha, o ritmo natural de toda vida. Minha memória então busca Platão e encontra, no livro I de A República, o diálogo entre Sócrates e o idoso Céfalo. “Eu me comprazo bastante, ó Céfalo, em conversar com pessoas de idade avançada. Sempre achei que me podem dizer como é o caminho por eles percorrido e que nós também talvez tenhamos de vencer; irregular e penoso, ou fácil e cômodo de percorrer?“.

Céfalo conta a Sócrates sobre seus amigos idosos, que não paravam de lamentar-se e lastimar a perda das alegrias da juventude, evocando à memória os prazeres do amor e da mesa, queixando-se dos parentes e da decrepitude do corpo. Céfalo acha que essa forma de ver as coisas não tem como causa a velhice, pois, se assim fosse, tal estado de espírito seria comum a todos os homens. Ele relembra o poeta Sófocles, quando indagado se ainda se unia a mulheres e desfrutava dos prazeres do amor. Conta Céfalo que respondeu o poeta: “Cala-te, amigo! Estou mais do que satisfeito por me haver libertado disso, como quem conseguiu escapar de um senhor despótico e violento“. Para Céfalo, as palavras soaram muito belas e, com esse pensamento gravado na alma, ele concluiu: “De fato, a velhice traz consigo paz e liberdade. Quando as paixões afrouxam o seu domínio e deixam de se fazer sentir, confirma-se plenamente o dito de Sófocles: livramo-nos de uma turba de tiranos enfurecidos. Sobre isso e as queixas relativas aos familiares, a causa é uma só: a velhice não tem culpa, Sócrates, mas o temperamento de cada um. Para quem sempre viveu com ordem e simplicidade, a velhice é um fardo suportável. De outro modo, Sócrates, tanto a velhice como a mocidade são penosas para qualquer pessoa“.

Sim, Céfalo. Sim, Sócrates: quem enxerga a beleza da vida, traduzida em sua completude que inclui velhice e morte, está pronto para a filosofia.

 

 

 

6 comentários em “O tempo

  • agosto 18, 2016 em 7:10 pm
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    ” Rugas …
    Não as troco por ocas e falsamente artificiais peles lisas, aplainadas, impessoais e impersonais, plastificadas dermes e epidermes descaracterizadas, dos que não têm absolutamente nada mais em si que a insossa lisura do nada.”
    – Ricardo José Daiha Vieira –
    * Excelente seu artigo Sonia Zaghetto, uma lição de vida.

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  • setembro 3, 2016 em 4:04 pm
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    Bela reflexão. Muito instrutiva.

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  • agosto 20, 2017 em 5:42 pm
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    A velhice retrata com muita beleza !!!!!!

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    • agosto 20, 2017 em 5:44 pm
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      Sorry…….. retratada com uma beleza adquirida com o tempo !!!!!!!

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  • agosto 20, 2017 em 5:46 pm
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    Belo jovem ….. belo com o passar do tempo !
    Adoro o ator !!!! Pudesse um dia conhecê-lo !!!!!!!

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