O alfinete na língua

“Uma nação pode sobreviver a seus tolos, e mesmo aos ambiciosos. Mas não pode sobreviver à traição interna. Um inimigo nos portões é menos formidável, porque é conhecido e carrega sua bandeira abertamente. Mas o traidor move-se livremente entre os que estão do lado de dentro, seus sussurros manhosos farfalham por todos os becos, ouvidos nos próprios corredores do governo. Pois o traidor não parece um traidor; ele fala em um tom familiar a suas vítimas, seu rosto se parece com o delas e usa os seus argumentos; ele apela para a baixeza que jaz no fundo do coração de todos os homens. Ele apodrece a alma de uma nação, trabalha secretamente e oculto na noite para minar os pilares da cidade; ele infecta o corpo político para que não possa mais resistir. Um assassino deve ser menos temido”

Marco Túlio Cícero

Gêmeos na queda, roubaram da Nação brasileira quase um ano de vida. Um precioso ano de vida em que a poeira cobriu tudo. Um ano sem colheitas, sem festas de primavera, sem mãos que arassem a terra. Onze meses em que uma paralisia impediu a vida de seguir seu ritmo. No compasso de uma espera que parecia infinita, alguns ciscavam em seus celulares, alimentando a guerra imensa.

Foram eleitos entre delírios comemorativos, viviam cercados de acólitos, servidos em bandejas de ouro. Cegos pelo brilho falso dos elogios, não viram o abismo bem à frente. Eram intocáveis, onipotentes. Podiam mentir, reescrever a história, fazer desmoronar até a reputação dos justos. E o faziam com segurança, enquanto puxavam as douradas correias que mantinham seus lacaios bem presos. À passagem de suas carruagens de  fantasia, atiravam moedas aos miseráveis e distribuíam a carne de sua gente aos cães raivosos que os serviam – tão fiéis.

Desnudados, açularam seus lobos e lançaram mão das teias que enredam a Justiça. E assim consumiram quase um ano de nossas curtas vidas. Foram tantos os recursos, gritos, ações e gestos que cansaram mortalmente quem já não os tolerava. Negaram todos os crimes, jamais se curvaram às evidências, nunca experimentaram a humildade.

Encerraram suas carreiras políticas de forma melancólica. O ostracismo é implacável. Sem poder, o que resta? O longo caminho que conduz de volta à mortalidade é duro.

Ela se foi no silêncio da noite. Embora seus amigos lhe atirassem flores um tanto murchas, havia amargor. E solidão. Prometeu guerra; seus amigos, vingança. Limpou as gavetas, levou os presentes, matou o cachorro. E se foi, com a arrogância de sempre, certa de que era vítima.

Ele se foi em meio ao desprezo dos seus. Como um leproso da Antiguidade. A voz embargada e os lábios trêmulos a ninguém comoveram. Deixou a sala do trono como pária – ele que um dia foi rei. E se foi, com a arrogância de sempre, certo de que era vítima.

Deixaram para trás uma nação despedaçada. Aquela terra tão farta e espoliada gemeu mais uma vez. Os dois decaídos eram somente as faces mais conhecidas da grande chusma que a consumia. Foram precedidos por dinastias inteiras que a exploraram. Gordos parasitas que há décadas lhe devoram as carnes. Insaciáveis. A saída de ambos os caídos não foi o fim do calvário. Longe disso. Afinal, era um antigo sofrimento auto-imposto – pois que desde tempos imemoriais seus filhos insensatos cultivavam o hábito de trazer para casa, e nutrir, o inimigo interno. A cara dos parasitas espelhava a alma dos infantes, suas vozes prometiam um mundo menos injusto e o sotaque soava familiar – tudo isso confundia os meninos da terra. Encantados e tolos, contentavam-se os filhos em comer os restos que as sanguessugas deixavam escapar das ávidas bocas. Não ouviam os sussurros do inimigo pelos becos e ruelas, nem suas tramas na escuridão da noite. Com o tempo, passaram mesmo a amar esses inimigos íntimos. Alegravam-se em adorá-los, defendê-los. Enxergavam-nos como mascotes em vez dos vermes que verdadeiramente eram. E, se alguém os alertava, conformavam-se: sempre foi assim. Livramo-nos desses? Outros virão.

Depois que os gêmeos decaídos se foram, a terra contemplou suas feridas. No azul das veias percebia o movimento dos parasitas. Ainda estavam lá. Quis lutar, mas não sabia muito bem por onde começar. Seus filhos impediam qualquer gesto em socorro próprio. É que os inimigos internos – se não sábios, mas muito inteligentes – já lhes haviam inoculado um vírus insidioso, que causava cegueira parcial. Assim, viam o mal apenas nos mascotes alheios – e vice versa. Engalfinhavam-se por isso. Uma lágrima brotou do chão quando a velha pátria cansada notou um efeito colateral: muitos de seus filhos, já anêmicos de boas novas, jaziam enojados de tudo, abatidos pela depressão, roídos pela descrença.

Foi quando a encontrei.

Ela apenas me contemplou, identificando também na minha alma as marcas da doença emocional que consumia os meus irmãos. Demorou os olhos sobre minhas malas prontas e soube que eu partiria em breve. Nada disse, mas, ao baixar os olhos, cansada, quase patética, despertou uma dor lancinante neste meu peito que sofre.

_ Velha amiga que me viste nascer…

Ela interrompeu a frase. Os dedos da pátria nos meus cabelos escuros despejou o pote de mágoas longamente guardado.

_Onde estão os heróis desta terra? Em que buraco se esconderam os Ulisses e os Aquiles? Para onde migraram os livros, os filósofos e as canções? Há tanto lixo nas ruas, tanto horror nas esquinas. Teu corpo conspurcado me fere os olhos. Não consigo viver mais neste lugar onde os vermes fizeram morada. E nada os afasta, pois o organismo está viciado. Libera-me, por caridade. Deixa-me ir agora.

Ela sorriu com os olhos, lembrando-me que heróis – mesmo os de ficção – são imperfeitos e dispensáveis.

_ Ulisses se valia de ardis demais, filha. E Aquiles tinha aquele calcanhar que era seu ponto fraco. Melhor buscar algo factível, palpável.

Teimosa, fiz-me de surda. Prossegui.

_ Esse inimigo oculto, de que fala Cícero… como sabemos, está aqui, agora mesmo. Como um novo Iago, envenenando ouvidos, confundindo os tolos, rindo-se dos seguidores. É como um predador: identifica nossas fragilidades emocionais e as usa. Estimula a baixeza que repousa no fundo dos nossos corações e nos converte em monstros de ódio ou de corrupção. Ele nos injeta o veneno que paralisa. Ou o lança perfume das tolices que distraem. Ah, pátria-mãe, vejo que ele apodreceu a nossa alma e minou os pilares que nos sustentam. Tudo está infectado, como profetizou o velho romano. Onde estão os políticos de bem? Os oradores? Aquela gente que pega as palavras e as doma como se fossem pequenas feras? Deveríamos ter aqui homens capazes de erguer uma nação com a força de suas palavras e atos. Onde se ocultam os inspiradores? Quanto bem nos faria um Cícero…

 _ Cícero, disseste? Ah, filha, Cícero tinha lá suas falhas (todos temos). E foi morto. A esposa de Marco Antônio arrancou a língua do cadáver e a espetou várias vezes com um alfinete de cabelo. Ela se vingava pelas palavras que expuseram as mazelas da atuação política de Antonio. Como vês, a doença é antiga. E combatê-la, perigoso.
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Tens razão, sábia pátria adoentada. Queremos expulsar os parasitas, mas falta-nos força e método, além de alternativas verdadeiramente sérias. Há lotes de medicamentos falsificados, vermífugos de araque e inimigos estreantes camuflados no cenário. Sem mencionar que o ato de dizer a verdade nesta terra é, sim, risco alto. De imediato lhe colam à testa uns rótulos grudentos. E há a desconstrução das reputações. Estamos tão envolvidos pelo ópio de uma mentalidade torta que se torna difícil até cultivar o sonho. Desconfiamos de tudo, procuramos chifres em cabeça de cavalo. Diante dos que apontam a falência de nosso sistema de representação política, comemoramos com cautela, mortos de medo de que estejamos louvando gente indigna. E assim seguimos, equilibrados entre a frágil esperança e o peso do temor.
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Perante os abutres da causa pública, resta-nos uma escolha: o abraço do inimigo ou o alfinete na língua.
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Imagem: Fulvia with the head of Cicero, de Pavel Svedomsky .

5 comentários em “O alfinete na língua

  • setembro 13, 2016 em 7:05 pm
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    ainda vejo todo esse cenário político como quem vai bater o recorde mundial de queda de dominós em sequencia e acaba de derrubar as primeiras peças.

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  • setembro 13, 2016 em 7:16 pm
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    Nas figuras de linguagem a excelente colocação da situação política atual . Parabéns, Sonia! Realmente perfeito o seu texto .

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  • setembro 13, 2016 em 8:31 pm
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    Sonia, seu texto é fantástico de um lirismo emocionante que lágrimas correram mansamente pela face e aumentando a saudades de um Ulisses, um Tancredo que nos encantavá com seus discursos . Hoje só nos resta aquele espetáculo de terror de palavras engasgadas vociferando ódio e falsidade para nossos ouvidos . Obrigada ler você e uma alegria que nos faz tánto
    o bem que vou dormir bem mais feliz . Bjos no seu coração !

    palavras que vocfiravam

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  • setembro 13, 2016 em 8:52 pm
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    Suspiro. Coração amolecido e olhos úmidos. Carinho imenso querendo pular das mãos e juntar à Pátria cansada. Ou nós estamos cansados? Reagir com entusiasmo a algo novo e bom já não passa de uma resposta lá de dentro do corpo que não chega à superfície porque o medo de novo engano tudo afoga. Nisso tudo brasileira Sonia, o alento é nos encontrarmos nesse sentimento amargo, perceber que não, não somos loucos distorcendo a realidade, mas semelhantes no mesmo barco. Dai pode vir a força. Desse plural. E gratidão. Por vc expressar perfeitamente o que passa pelo coração ardido dos semelhantes brasileiros.

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  • setembro 14, 2016 em 1:03 pm
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    Soninha querida, que dura a nossa realidade! Mesmo assim o texto é belíssimo. Poeticamente triste. Que vontade de chorar!

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