O rei nu

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Salvador Dalí. Soft Self Portrait with Grilled Bacon.

Talvez uma das maiores tragédias dos ídolos seja acreditarem na própria lenda. E Lula não escapou de si mesmo. No discurso desta quinta-feira (15), a personalidade real e a imagem construída travaram uma luta feroz. O resultado foi uma fala alquebrada, abatida pela contradição. Dorian Gray dialogando com o retrato na parede.

Desta vez não houve jararacas e outras bravatas, mas o espetáculo continuou carente de elegância e coerência. Aconselhado por seus advogados a moderar a linguagem, Lula optou pela fala mansa, mencionou perdão e amor. Mas a natureza – ah, a natureza, essa força contida a custo – não tardou a se exibir. Ao primeiro descuido, ressurgiu, desnudando parcialmente a alma do ex-presidente.

Confesso que Lula e suas mil faces me intrigam. A impressão é que possui inúmeras personalidades e as veste de acordo com a necessidade da hora ou o interlocutor a ser seduzido. Gosto de assisti-lo discursando: é ali, no calor do momento e no detalhe pequeno, que se revela um pouco. Como quando alardeia sua pobreza e, em seguida, desdenha o relógio em seu pulso, avaliando-o em “uns 800 reais“. Para um ex-presidente, certamente é um preço baixo, mas não é barato – especialmente para quem ganha salário mínimo. Da mesma lavra é a famosa frase que ele cunhou sobre o apartamento do Guarujá: “É um triplex Minha Casa, Minha Vida!“. Não há qualquer problema em usar relógios caros e comprar triplexes. A questão é possui-los enquanto se usa o manto da pobreza para confundir os incautos.

O discurso de ontem revelou uma alma pequena e ressentida. Um rei nu, personagem trágico que insiste em escapulir, quando lhe convém, para um mundo de fantasia. Nessa Pasárgada pessoal, parece acreditar piamente que sua contribuição para o País é insuperável e que isso lhe dá salvo conduto perante a Justiça. Novamente a contradição. Embora tenha dito verbalmente que ninguém está acima da lei, todo o conjunto de seu discurso mostrou o oposto: evocou seu legado, idade, história de vida, filhos e netos como se fossem atenuantes para os crimes de que é acusado. Ou uma autorização tácita para condutas equivocadas. Considerou “desrespeito” sua mulher ter sido denunciada pelo Ministério Público e chegou a compará-la com a família dos procuradores. Mesmo sem conhecer os parentes de Deltan Dallagnol & Cia, Lula garantiu: Marisa lhes é superior.

Houve momentos de indizível constrangimento, como a afirmação de que “a profissão mais honesta é a do político”. Talvez uma das frases mais infelizes já produzidas pelo anedotário nacional. Pior ainda foi a explicação confusa que se seguiu: “Por mais ladrão que ele seja, tem que ir para a rua encarar o povo, e pedir voto“. Conclusão: para Lula, o político pode ser ladrão, mas, se encarar o povo e pedir votos, converte-se automaticamente em honesto. Não há exegese que salve.

Para coroar o momento, o ex-presidente contrapôs aos políticos campeões de honestidade nada menos que os concursados do serviço público. “Se forma na universidade, faz um concurso e está com emprego garantido o resto da vida. O político não. Ele é chamado de ladrão, é chamado de filho da mãe, é chamado de filho do pai, é chamado de tudo, mas ele tá lá, encarando, pedindo outra vez o seu emprego”. É de se lamentar que um ex-presidente da República tenha a coragem de, mais uma vez, condenar o estudo e o esforço. Igualmente emblemático é observar que, segundo esse raciocínio tortuoso, é preferível ser político ladrão a estudante esforçado. Basta ter sangue-frio o suficiente para ouvir xingamentos a cada quatro anos. Por esse critério, Eduardo Cunha já pode ser eleito a alma mais honesta do país? Não, pois Lula reivindicou para si mesmo esse posto ao declarar, há oito meses:Não tem uma viva alma mais honesta do que eu”. Se juntarmos as duas frases sobre honestidade há material para um tratado sobre a arte da auto-exposição. Revelador.

Tentando equilibrar a realidade com a auto-ilusão, Lula atrapalhou-se em várias ocasiões. Tropeçou quando iniciou as críticas a Fernando Collor, integrante da base de apoio de Dilma, seu companheiro de palanque nas últimas eleições e comensal no banquete do Petrolão; e titubeou ao iniciar sua fala contra os banqueiros, certamente por recordar-se de que seu governo os beneficiou significativamente. Culpou a imprensa e, em seguida, rogou que lhe concedesse o mesmo destaque dado aos procuradores na véspera. Louvou a capacidade de pedir desculpas mas em momento algum se desculpou pelos danos que ele e seu partido causaram ao país.

Em um artigo anterior já lamentei que Lula não tenha amigos que o advirtam para os excessos da vaidade. Ontem, mais uma vez, embora cercado de gente que o aplaudia, Lula estava só. Intoxicado pela auto-louvação e pelos tapinhas nas costas, não hesitou em recorrer ao velho discurso vitimista e aos delírios sobre seu grande papel junto aos líderes mundiais. Embalado pelo coro de ilusões, até tentou plantar a discórdia no Ministério Público, apelando para que os demais procuradores federais não deixassem “meia dúzia de pessoas” mancharem o MPF, instituição que ele “ajudou a criar” na Constituição de 1988. E aí temos mais um momento de providencial amnésia: Lula e o PT votaram contra a Constituição porque tinham suas próprias ideias sobre a Carta (leia aqui).

Outro paradoxo digno de nota refere-se ao fato de que o mesmo homem que diz combater o complexo de vira-latas, que se orgulha de não ler e que usa a ignorância como troféu político, deixa escapar que se ressente dos que estudaram. Além de universitários, dos concursados e dos que estudaram no exterior, voltou as baterias em diversas ocasiões contra um certo “sociólogo” cujo nome não foi pronunciado, mas todos sabem quem é. Em contraposição, referindo-se a si mesmo, usou expressões como “o coitado do metalúrgico” e “bagrinho em meio aos peixões”.

Houve momentos em que a indigência moral foi mais ostensiva, como o ataque aos “meninos” da Lava-Jato, no qual buscou caracterizar os procuradores como jovens inexperientes enquanto trouxe para si o papel de raposa versada nas artimanhas políticas. “Ontem eu vi eles falarem dos partidos políticos, dos governos de coalizão, vocês sabem que muita gente que tem diploma universitário, que fez concurso, é analfabeto político. O cara não entende do mundo da política. Não tem noção do que é um governo de coalizão. Ele não tem noção do que é um partido ser eleito com 50 deputados de 513 e que tem que montar maioria”. Um novo tiro no pé. A frase explicita que no Brasil só se governa no toma-lá-dá-cá. Com esta sentença, deu razão aos procuradores que o apontam como chefe de um grande esquema.

Lula derramou lágrimas que não sensibilizaram uma nação já vacinada contra o choro de políticos flagrados em delito. É um clássico em Brasília que senadores e deputados reajam com soluços, lábios trêmulos e olhos marejados quando confrontados pela Justiça ou cassados por seus pares. Antes dele, José Roberto Arruda, Jader Barbalho, Gim Argello, Delcídio do Amaral e Eduardo Cunha deixaram cair sentidas lágrimas. Ninguém se comoveu.

Não vou me deter a analisar as tentativas canhestras de atropelar propositalmente a verdade, de reforçar a deturpação da fala de seus acusadores sobre uma suposta falta de provas contra ele. Também não dedicarei longo tempo às velhas táticas de semear a discórdia entre os brasileiros e de atribuir qualquer oposição ao fato de seu governo ter possibilitado “empregada usar perfume” e “pobre viajar de avião”. No fantástico mundo de Lula, ele “anda de cabeça erguida”, é mais conhecido que Jesus Cristo e pode até desafiar o país: “Provem uma corrupção minha, que eu irei a pé para ser preso”.

Desafio aceito, Lula. De São Bernardo a Curitiba são 401 km. Segundo o Google Maps, totaliza 85 horas de caminhada. Em linha reta – registre-se.

13 comentários em “O rei nu

  • setembro 16, 2016 em 5:34 pm
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    Espetacular Sonia Zaghetto !
    … ainda procurando adjetivos, intejeições, palavras de concordância, elogios ao seu texto, mordaz sem ser vulgar, satírico sem ser burlesco, uma rara jóia.
    Um tratado de sociologia, de psiquiatria … , você dissecou com maestria exatamente o que vimos atônitos, no “pronunciamento dèjà vu” de Lula, o louco varrido.( … e espero sinceramente que seja varrido de vez do cenário político e social do País ).
    Ricardo Daiha

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  • setembro 16, 2016 em 5:46 pm
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    Faço minhas as suas palavras. Posso compartilhar?

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    • setembro 19, 2016 em 9:06 pm
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      Claro. Muito obrigada.

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  • setembro 16, 2016 em 6:00 pm
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    No noticiário de Bahia Noticias, entre outras o dito declarou: “aqui no Brasil só ganha para mim, em honestidade, Jesus Cristo…”. Bem como havia dois acompanhando o Cristo, e possível que haja lugar para mais um.

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  • setembro 16, 2016 em 7:49 pm
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    Um texto poético para um assunto tão medonho. Parabéns pela proeza de tratar um tema tão vergonhoso com tamanha elegância!

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  • setembro 17, 2016 em 12:38 am
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    Sensacional descobrir, em meio a timeline da querida amiga Márcinha Zoé, tão consciente análise. O inacreditável cotidiano político, pincelado de arte. Parabéns Zaghetto!
    PS para conclusão: e findada a sexta-feira, posso afirmar: não vi ninguém de vermelho por aí.

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  • setembro 17, 2016 em 2:09 pm
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    Parabéns pelo texto! Desnudou quem já estava nu, pelas suas próprias palavras e ações contraditórias.

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  • setembro 17, 2016 em 2:17 pm
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    Simplesmente……..PERFEITO.
    Parabéns.

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  • setembro 17, 2016 em 3:34 pm
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    O rei louco que se desnuda através dos seus atos e discursos. Um psicopata que acredita e quer fazer o povo brasileiro acreditar que sua história deve ser coroada com a impunidade.
    Um velhaco, canalha e ladrao
    É somente rei para os seus bobos da corte

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  • setembro 17, 2016 em 8:18 pm
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    Excelente e oportuno comentário, recheado de lucidez e competência. Dissecou cristalina e objeivamente, as asneiras delirante do falsante prestes a fazer sua “caminhada” rumo à prisão. Quantas colocações e comparações medíocres e imbecis !

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  • setembro 22, 2016 em 11:58 am
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    Sônia, o Lula está mostrando, com aquele discurso, o que significa governar e fazer política no Brasil, dentro do vigente quadro institucional-legal, na forma como entendem os homens públicos mais destacados. Como disse antes, o grande mérito dos governos petistas é exatamente esse: evidenciar as características do meio em que os fenômenos políticos são produzidos – o “campo político”, para utilizar, adaptadamente, um conceito da física. Por não terem medida nem limites, eles colocaram as mazelas do país (não só do PT) sob a lente de aumento.
    Nesse sentido, é muito significativo o fato de ele defender os políticos, de um modo geral.
    Francamente, eu gostei do discurso! Não que eu aprove, mas porque é revelador. Traduzo imaginando Lula dizendo assim: “Gente, eu não tinha alternativa. Pra se realizar qualquer coisa neste país, tem que ser por esses métodos.”
    Parabéns, Sônia, por tuas análises.

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