Desumanidade

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William Adolphe Bouguereau. Egalité devant la mort .

A prisão do ex-ministro Guido Mantega na 34ª fase da Lava-Jato  despertou, nas primeiras horas, um intenso clamor por parte dos petistas e seus aliados. “Desumanidade!”, bradavam, referindo-se ao fato do ex-ministro ter sido preso no térreo do Hospital Albert Einstein, onde acompanhava sua mulher.  Seis horas depois, o juiz Sergio Moro revogou a prisão temporária e determinou a soltura de Mantega. No despacho Moro afirmou que as buscas já haviam sido feitas e que, ao decretar a prisão, não sabia do grave quadro clínico da mulher do ex-ministro. Destacou, ainda, que a prisão foi feita com toda a discrição e fora do hospital, que o ex-ministro foi avisado por telefone, desceu e encontrou os agentes em uma rua lateral.

De imediato, o país se dividiu em quatro grupos de pessoas:

  1. Dura lex, sed lex. A lei é dura, mas é a lei. Estes acham que Moro agiu certo ao determinar a prisão e que não deveria revogá-la, pois que nenhum outro criminoso teria benefício semelhante ao de Mantega.
  2. Moro, o Estrategista – Os que reconhecem que, com a revogação da prisão, Moro evitou mais prejuízos à imagem da Lava Jato.
  3. Moro, o desumano – Os que condenaram o juiz por ter determinado a prisão. A estes não importa a revogação do ato, mas a oportunidade de demonizar o juiz mais uma vez.
  4. Moro, o compassivo – Os que apoiaram a decisão do juiz por entenderem seu gesto como humanitário diante da gravidade do quadro da esposa do ex-ministro.

Sensibilizo-me – e creio que, também, o juiz Sergio Moro – com a situação pessoal do ex-ministro, mas acredito que sua dor não o põe acima da lei. Especialmente quando seus atos contribuíram para levar uma nação inteira à bancarrota.

Tivessem o hábito de refletir, corruptos teriam muito a aprender com este episódio. Talvez meditassem não sobre sofisticados dilemas filosóficos, mas sobre aquela questão prosaica que, mais cedo ou mais tarde, visita a todos nós: o momento em que se estará só, perante a morte e a doença, a anos-luz de holofotes e luxos.  Sim, caros senhores poderosos a quem agora me dirijo, é platitude, obviedade, certeza: a vida é breve e há coisas que o vil metal não compra – como devem ter lhes dito seus pais, avós e a sabedoria popular. Como se viu nesta manhã, quando chegar o grande nivelador das gentes, seu ouro, seu roubo, seus esquemas e vassalos serão inúteis. Nenhum de vós sobreviverá à prova do tempo, embora as marcas de seus crimes talvez levem séculos para serem apagadas.

Quanto aos episódios de hoje, penso que não seja desumanidade pôr na prisão alguém profundamente envolvido no maior esquema de corrupção da história nacional. Desumanas são as consequências dos atos de homens públicos indignos.

Desumanidade é a humilhante espera de quem depende dos serviços públicos de saúde no Brasil.

Desumanidade é malbaratar o dinheiro dos impostos dos cidadãos.

Desumanidade é a corrupção nossa de cada dia.

Desumanidade é o sucateamento da educação que nos torna nanicos intelectuais.

Desumanidade é assaltar os cofres públicos, sem jamais reconhecer os crimes que cometeu.

Desumanidade é a fuga de cérebros, cansados de ver o país afundando.

Desumanidade é viver atormentado pela onipresente violência.

Desumanidade é atacar juiz e procuradores da Lava Jato porque se empenham em fazer sua tarefa.

Desumanidade é vender a própria alma em troca de um projeto de poder.

Desumanidade é destruir reputações com a mesma displicência com que se mastiga chicletes.

Desumanidade é transformar seres pensantes em zumbis.

Desumanidade é dividir um país à força do populismo.

Desumanidade é plantar a desesperança no coração da Nação.

Desumanidade é vender sonhos e entregar pesadelos.

 

6 comentários em “Desumanidade

  • setembro 22, 2016 em 6:07 pm
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    Muito bom! E em muito boa hora…. precisamos, nós os CONTRIBUINTES e eles os que malversam aquilo que lhes é confiado, refletir, ponderar mas, NUNCA perdoar o que é IMPERDOÁVEL nem, muito menos, chacotear daqueles que somente cumprem o papel que a sociedade lhes outorgou !!! O castigo é merecido àqueles que cometem crimes e deve ser aplicado, via de regra, sempre que necessário. Pois a punição, antes de ser pena é, muito mais, exemplo.

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  • setembro 22, 2016 em 6:36 pm
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    Maravilhoso! Onde assino?

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  • setembro 23, 2016 em 8:49 am
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    Concordo inteiramente. Desumanidade é a grande parcela do povo brasileiro não poder tratar os seus entes queridos com dignidade na hora da doença. Pois os políticos colocaram e continuam a colocar o dinheiro público no bolso. É bom poder tratar as pessoas queridas em bons hospitais, ao povo resta o SUS. Se fosse um Zé não estaria acontecendo esse mi mi mi. Cadeia neles.

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  • setembro 23, 2016 em 9:11 am
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    Sim. Não é desumanidade. Não é desumano prender um comprovado criminoso. Mas, prender um ex-ministro por delações de um empresário por, supostamente, ter participado de uma negociação não comprovada é abusivo. Sim, deve ser investigado. Mas, o dialogo pode nem ter havido … e ele não ter recebido nenhuma vantagem. Creio que ninguém gostaria de ser preso por causa de um depoimento que pode ser falso. Você gostaria Sonia? Passar encarcerado por tempo indeterminado sem provas ou ser condenada pelo “domínio do fato” seno inocente?

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