Índia – Parte 7 – Darjeeling

Estamos no Dekeling Resort at Hawk’s Nest. Na sala, um levíssimo aroma de tabaco. Alguém fumara horas antes e deixara um rastro daquele perfume meio adocicado e muito agradável. O silêncio quase absoluto é interrompido, de vez em quando, pelo piar dos passarinhos e pelas risadas dos tibetanos na cozinha.

Pela janela, vejo o recorte azulado das montanhas do Himalaia, dos pinheiros e das coloridas bandeirinhas budistas.

Nosso hotel é pequeno. A sala de estar é como uma casinha: aconchegante, toda de madeira, cheia de livros, com cortinas floridas e móveis forrados de veludo vermelho-escuro, muitos mapas e fotos do Dalai Lama.

É a noite do dia 25 de dezembro e lembro de minha mãe. Exatamente um mês antes, ela havia sofrido um AVC. No dia 7, seu coração amoroso cansou de bater e eu me refugiei no lugar o mais longe possível dos festejos que ela tanto amava. Uma paz indescritível no ambiente. Apenas nós estamos hospedados no resort. O cozinheiro tibetano traz um chá e eu me perco na contemplação das fotos do Dalai Lama e do Tibet. Recapitulo minhas perdas e as comparo com as do Dalai: no caso dele havia família perdida, templos queimados, monges mortos, um país arrancado de suas mãos, exílio e perseguição. Concluo, muito budista e obviamente, que não estou sozinha entre os que se lamentam e choram. Nem minhas dores são as maiores sob o sol.

Os dias seguintes foram destinados a passeios pela cidade. Entre coloridíssimos templos hinduístas e budistas, destaca-se a austeridade das igrejas anglicanas. Passeamos pelas ruelas estreitas, contemplando com desgosto os rolos de fiação elétrica que enfeiam a paisagem. Não há como ignorar o contraste entre a sóbria arquitetura colonial inglesa e as vias barulhentas tomadas por vendedores ambulantes, feirantes em tendas plásticas e cachorros friorentos que vasculham os monturos de lixo. A manifestação religiosa é onipresente, traduzida em pinturas de gosto duvidoso que atacam qualquer parede disponível. Casinhas com telhado de zinco se equilibram nas encostas das montanhas. Nas varandas de madeira surgem pequenos jardins, mini hortas e vasinhos de flores vermelhas e amarelas que lutam para sobreviver ao inverno. Pelas estradinhas esburacadas, idosas nepalesas carregam cestos feixes de lenha nas costas e me dão a sensação que estou num filme de Zhang Yimou.

Darjeeling parece, simultaneamente, bela e decadente. Como uma velha dama vitoriana que empobreceu mas ainda se veste com apuro para o jantar solitário. Em vários lugares há antigas casas senhoriais arruinadas. Na maioria dos prédios de apartamentos, roupas estendidas nas janelas e sacadas reforçam a atmosfera de descuido.  Mesmo algumas casas de chá e restaurantes que remetem à época do Raj britânico e exibem um balcão de doces europeu têm um serviço bastante deficiente. Mas a cidade tem lá suas surpresas. De repente, ao se dobrar uma esquina, um suspiro escapa do peito: a delicadeza de uma flor vermelha diante dos bem cuidados portões do monastério budista tibetano Buty Bustia. Ou quando, bem diante dos olhos, desenha-se contra o céu azul a silhueta da cordilheira, quase escondida entre as nuvens claras e um mastro com as bandeirolas budistas. A paisagem tradicional do Himalaia faz tudo valer a pena.

O perfume dos pinheiros e das plantações de chá se juntam ao do incenso e das folhas queimadas em algum lugar. O que estraga o ambiente é a sujeira dos próprios indianos, que adoram jogar lixo no chão e parecem não se importar com a estética das cidades. Depois de visitar todos os mosteiros budistas dos arredores, decidimos passear no Toy Train – uma das mais famosas atrações turísticas da região. O nome real é imponente Darjeeling Himalayan Railway, uma linha férrea inaugurada em 1881 pelos ingleses. Mal sabíamos que uma saga se iniciava ali!

Alexandre acordou cedo e foi comprar os bilhetes. Esperou por trinta minutos na fila. A internet não funcionava. Dirigiu-se ao guichê ao lado, preencheu várias vezes o formulário (sempre faltava algum detalhe e o funcionário o obrigava a reiniciar o preenchimento), encarou a burocracia indiana e os fura-filas. Voltou estressado, quase uma hora e meia depois, exibindo os tickets como se fossem troféus. Fizemos o percurso de duas horas no pequeno trem azul até New Jalpaiguri. Os trilhos passam junto aos abismos e os olhos acompanham ao longe o conjunto de montanhas douradas pelo sol. O ar gelado invade as narinas e é interessante olhar para a expressão dos turistas europeus quando o trem dá uns solavancos ou para repentinamente para abastecer de água a caldeira ou consertar alguma peça quebrada.

Na noite do dia 31 de dezembro, tudo na cidade está funcionando normalmente: a Índia inteira vive um clima pesado após os atentados de Mumbai. Decidimos assistir a um filme no cinema local. Escolhemos o lançamento da temporada: Rab ne bana di jodi (Foi Deus quem uniu esse casal). A comédia romântica dançante é estrelada pelo astro indiano Shah Rukh Khan e pela estreante Anushka Sharma. Conta a história de uma moça Taani (Sharma) que se casa com um amigo quando fica órfã. O rapaz, Surinder Sahni (Khan), tem um coração de ouro e a ama, mas ela não está atraída pelo marido, um empregado-padrão de escritório, que se veste como avô, usa bigode a la Clark Gable e óculos enormes. Assim, ele se disfarça em “Raj”, um dançarino extrovertido, para conquistar a amada. Rimos e nos divertimos muito – até aprendi a cantar as canções do filme, como Tujh Mein Rab Dikhta Hai (Eu vejo Deus em você) em que se mostra toda a riqueza e multiplicidade da cultura religiosa da região do Punjab e a dançante Dance Pe Chance. Como todo filme de Bollywood, há muita música, muita dança e nenhum beijo.

Com quase três horas de duração, o filme tem um intervalo na metade para que a platéia possa ir ao toilette ou fazer um lanche. Todos os snacks disponíveis são muito apimentados e, ao contrário do que mostrou uma novela brasileira, ninguém levanta para dançar no cinema.

No último dia em Darjeeling, caminhamos por horas com um casal de americanos, Jonathan e Saiko. Arriscamo-nos fora da cidade, onde encontramos mulheres idosas enroladas em cobertores ou jogando cartas na rua, enquanto bebiam chá. Na trilha visitamos templos em ruínas, locais abandonados e apreciamos em plenitude a natureza selvagem, com árvores imensas e um intenso perfume de flores. No Alooburi Monastery, o contraste mais evidente é entre as delicadíssimas pinturas originais budistas e a má conservação do edifício. Mal notamos que a noite caía rapidamente e com ela trouxe uma neblina que encobriu o caminho e um frio que nos enregelou os ossos. Voltamos em silêncio, tateando pelos trilhos da estrada de ferro, temerosos dessa terra de assustadora beleza.

No dia seguinte, voltamos para Calcutá – não sem antes prometer a nossos novos amigos que iríamos visitá-los em Seattle. E, como costuma ocorrer com os amores de verão e as amizades turísticas, jamais aconteceu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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