A saga do castelo de Abrantes

greekAqui no castelo de Abrantes, lembro bem, vivíamos dias de cinzas, senhores.

Amordaçados andávamos. Queríamos a volta do irmão do Henfil e que a liberdade abrisse as asas sobre nós. Havia lutas várias – ocultas e abertas. Inicialmente pensei que todos tínhamos objetivos semelhantes. Ledo engano. A sua luta era para nos tirar da gaiola e pôr em outra, tão ruim quanto a anterior. Trocava apenas a cor da jaula.

Lembram-se, senhores, de Beth Mendes, José Eudes e Ayrton Soares? Eu lembro: depois de enchermos as ruas pedindo eleições diretas para a Presidência da República, fomos derrotados. Mas duas candidaturas foram apresentadas ao colégio eleitoral. Era escolher entre Paulo Maluf, representante da gaiola então vigente; e Tancredo Neves, uma remota possibilidade de escape. Quem escolheram vocês? Nem um, nem outro! E o que isso tem a ver com Beth, Eudes e Ayrton? Ah, sim, já ia esquecendo de rememorar: foram expulsos do seu grupo por terem votado em Tancredo. Na época, meus caros, juro que não entendi: se os senhores defendiam a democracia, por que não votaram em Tancredo, meu Bom Jesus de Matosinhos?

A mão pesada do destino levou Tancredo e nos deixou Sarney. Madrasta sorte. Mas tínhamos Ulysses e sob a condução segura do Senhor Diretas elaboramos uma nova Carta. Trazia direitos amplos. Estávamos com tanto medo que toda aquela bagunça de 64 pudesse ocorrer novamente que exageramos na dose. Nossa Constituição-Cidadã tratava de cílio de mosquito a bucha de canhão. Já nasceu obesa, mas todos compreenderam as circunstâncias. Comemoramos esse marco da nossa democracia recém-nascida – menos os senhores, que se recusaram a assinar a Carta.

Naquele tempo já devíamos muito. Os olhos da cara, para ser precisa. Um dragão de inflação nos comia os dinheiros e nos fazia correr pelos supermercados driblando as máquinas de remarcação de preços. Ficamos milionários de mentira, exibindo contracheques com muitos zeros. Uma pena que o pão francês e o cafezinho também custassem somas astronômicas. Rockfellers da ilusão bebendo prata líquida e mastigando ouro em pó.

A esse tempo, recordo ainda, suas vozes já gritavam, altíssimas. Fora, FMI!

Surgiu o caçador de Marajás. Bem vestido e falastrão, penteado e sorridente, empunhou a bandeira da ética. Tinha como adversário a estrela de vocês. Os habitantes do castelo caíram no logro. Eu votei na estrela, seduzida pelo discurso da virtude na política. Logo ruíram as máscaras e o caçador tornou-se caça. Nas ruas vestimos preto e vocês lutaram, finalmente, ao nosso lado. Por um instante pensamos que estaríamos sempre juntos. Novo engano. Mal caiu o caçador, todas as forças políticas se deram conta: façamos um governo de união nacional. Vocês?  Deram as costas. O novo dirigente do castelo, Itamar Franco, era um homem de hábitos simples e sem ódio no peito – mesmo rejeitado convidou uma de vocês, Luíza Erundina, para o ministério. Vocês a expulsaram também.

Com o Castelo de Abrantes soterrado pela hiper-inflação, Itamar, o Breve apresentou o Plano Real em mais uma tentativa de derrotar a crise que se arrastava sem controle. Como reagiram os senhores? Foram contra. Suas vozes se elevaram, duras: Abaixo o Real! Felizmente, estavam errados. De novo.

Economia estabilizada. O governo seguinte, de Fernando Henrique Cardoso, apresentou a Lei de Responsabilidade Fiscal. Era uma tentativa de controlar os gastos desmedidos do governo. Vocês? Foram contra. Mais uma vez. E o Bolsa Escola? Foi chamado de Bolsa Esmola.

Um país destroçado, pesado, antigo, precisava de reformas estruturantes. Sua resposta? Fora FHC! Não importava que algumas privatizações de serviços, como a telefonia, tenham tido efeito benéfico. O importante era gritar, denunciar e apontar dedos.

Cansados de derrotas nas urnas, vocês mudaram de estratégia. Saiu de cena o sindicalista desgrenhado e raivoso. O discurso de sua estrela maior foi convertido em paz e amor. Uma metamorfose! Fala moderada, herói do povo, ternos bem cortados. Apesar da desconfiança de alguns, Luís Inácio Lula da Silva foi eleito.  Curiosamente, naquela época não havia esse ódio todo entre tucanos e petistas – aliás, ambos compartilhavam a experiência de terem combatido o regime militar, lembram? FHC sorria na posse de Lula e passou-lhe o governo depois de abrir as portas, com meses de antecedência, para que a nova equipe conhecesse os meandros da administração federal.

Tudo era festa no seu primeiro governo. A oposição era pouca; a visibilidade internacional, farta. Aos poucos, o poder inebriante se materializou na autoimagem distorcida: nunca antes na história deste país! Bolsa-Escola virou Bolsa-Família e privatização também mudou de nome. Abrantes, cuja data de fundação datava de 1.500, tirou uma nova certidão de nascimento, na qual figurava, em douradas letras, o dia 1 de janeiro de 2003.

Mas, em meio a risos e alegrias, veio o mensalão. E o castelo inteiro se perguntou: o que houve com os paladinos da moral, as vestais da ética, os arautos da honestidade? Só pode ser engano! Não era. O encanto havia se quebrado. Lágrimas de decepção brotaram dos meus olhos e de muitos outros. Nos subterrâneos de Brasília, o caso arrastou-se e a oposição cresceu.

Aos poucos, uma guerra surda se espalhou, estruturas paralelas de poder e milícias virtuais se instalaram. Destas, o poder de convencimento era imenso. Persuadiram metade do reino de que só estavam do lado do bem os que pensavam como os senhores. E a guerra civil tomou as almas. Como os filhotes da Revolução dos Bichos, os mais jovens de Abrantes, com as mentes dominadas por sofismas e truques, tornaram-se cães raivosos, defensores intransigentes dos porcos no poder. Estes, por sua vez, estavam cada vez mais parecidos com aqueles a quem tanto criticavam. No mesmo palanque agora estavam a sua estrela e o antigo adversário, o caçador de marajás. Renan, Sarney e todo o conjunto antes demonizado converteram-se em seus melhores amigos. Juntos sugavam o ouro negro da nossa mais rica estatal. Mas quem notava essas coisas?

A memória curta, a propaganda espetacular, a história reescrita e os números inflados faziam do nosso castelo uma espécie de Xanadu tropical. Mas só na TV.

Como se sabe, não há fantasia que dure para sempre. Aos poucos, algumas vozes começaram a trombetear: o rei está nu! Foram caladas por frases de efeito. Acusadas de ser elite preconceituosa, eram combatidas pelos empoderados guerreiros da justiça social. Revoltadas, algumas dessas vozes reagiram mal e até regrediram a discursos da década de 60! Devemos-lhes esse retrocesso, senhores.

Treze anos se passaram, meus caros. Abrantes está cada vez mais surreal. Tornou-se um campo de batalha. Agora, mentir é tão natural quanto respirar. Independente de partidos, a moda é negar até o fim qualquer acusação. Extinguiu-se a vergonha ao ser flagrado cometendo crimes. Em todas as esferas, tornou-se normal vomitar na face alheia as mais duras palavras. Vomitar – é esta, sim, a palavra. E qualquer programa de governo só é bem visto se trouxer um conjunto de medidas irreais voltadas para atender às aspirações infantis de quem vive num mundo de fantasia. Quanto mais unicórnios cor-de-rosa, melhor. Fora, maturidade! Fora, vida real! Está instalado o Unicornismo político!

Nem mesmo o combate a uma epidemia de corrupção conseguiu unir os habitantes desta nossa terra adoentada. Com a mente confusa pela moléstia, alguns se voltaram contra médicos, remédios e terapias. Fora, cura! – bradavam estes, capitaneados por vocês. Uma revisita à revolta da vacina em pleno século 21.

Quando o dragão – que se julgava morto – deu sinais de vida e uma gravíssima crise econômica despontou no horizonte, muitos habitantes da terra se deram conta, enfim, de que era hora de pôr um fim na aventura que arrastava todo o castelo para o abismo. Depuseram a governante, que havia sido apresentada pelos senhores como leão, embora fosse apenas um bichano de peruca-juba e que miava grosso.  A reação foi bruta, lembram? Aquele instrumento constitucional – o mesmo usado para expulsar do trono o caçador de marajás – foi chamado de golpe, imaginem! E ainda nos fizeram passar vergonha perante os outros reinos e castelos.

O grão-vizir Temer assumiu. E de imediato lançou moda entre os descolados: era necessário “saudá-lo” primeiramente. Um sucesso entre os adeptos do unicornismo! O “Fora, Temer” tornou-se um clássico instantâneo entre adolescentes, artistas, subcelebridades e outros luminares da ciência política.

Neste exato instante, Abrantes está em maus lençóis e vive uma ressaca moral. Com sua economia arruinada, busca estancar a sangria que pode levar as contas públicas à bancarrota em menos de vinte anos. O grão-vizir vem de um grupo suspeito e a oposição tem telhado de vidro, mas tentam implantar uma restrição à gastança. Sussurra o bom senso: melhor entrar no bote com o adversário do que nos afogarmos todos.

Procurei por vocês, antigos governantes, aqueles que bradavam, há poucos meses, que éramos a Xanadu dos trópicos. E os encontrei ocupadíssimos gritando: “Fora, reformas!”. Vi, ainda, que os senhores ganharam a companhia dos que têm ojeriza ao sacrifício. Cobertor curto? Vou me cobrir primeiro! – é o mantra destes últimos.

Mas como sobreviverá a nossa terra? – pergunto. Ah, é rica. Deus, que é abrantiano, e aquela unicórnica árvore de dinheiro haverão de prover. Tudo como dantes por aqui. A experiência de nada lhes serviu. Só me causa algum espanto que suas vozes – que silenciaram perante os descalabros da corrupção de seus pares – agora ressoem tão altas, tão zelosas do bem público.

Pensei até em lhes suplicar um cadinho de amor à pátria, mas desisti. Resigno-me a sugerir um pouco de bom senso, meus caros. Não ouso lhes pedir coisa alguma além disso.

Quanto a mim, enquanto observo esta saga inglória, repito pela milésima vez as palavras de Lorde Chatham: “O homem mais pobre, em sua cabana, pode desafiar todas as forças da Coroa. A cabana pode ser frágil, seu telhado pode tremer e o vento pode soprar através dele; a tempestade pode entrar, a chuva pode entrar – mas o rei da Inglaterra não pode entrar. Toda a sua força não se atreve a cruzar o limiar da casinha em ruínas!”.

Na minha casa, senhores, já não lhes permito entrar.

2 comentários em “A saga do castelo de Abrantes

  • outubro 9, 2016 em 1:34 pm
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    Perfeito! Fiz um texto no começo de 2016 contando uma historinha de um reino distante que cultiva um dragão e que ninguém via, mas, os aldeões sabiam que existia e mesmo quando os aldeões depois de muitas lutas dominaram o castelo, esqueceram com facilidade de tal motivação tornando-se reis iguaizinhos, alimentando o tal dragão… E por ai vai.
    Bjssss

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    • outubro 9, 2016 em 1:48 pm
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      Excelente, Rose. Coloca aí o link para a gente poder ler! Beijo.

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