O abismo olha para nós

“Quem enfrenta monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti”. A frase de Nietzsche me vem à memória no exato instante em que leio sobre a agressão a Eduardo Cunha no aeroporto Santos Dumont.

É certo que estamos indignados pelos crimes deslavados, pela punição que parece tardar e pela sensação de que a justiça é mais leve para os que se aboletam nas castas superiores. A sucessiva onda de escândalos tem seu peso. Compreensível que tenhamos pressa. Queremos justiça. E queremos agora.

Há monstros – monstros a mancheias. E temos nos detido longamente a contemplá-los. Acompanhamos seus movimentos, observando as manobras que nos revoltam, as ofensas ao país e as traições à confiança depositada nos homens públicos. O problema é que, ao seguir atentamente a ação dos inimigos da pátria, lentamente começamos a pagar o tributo ao abismo.

Aprendemos não só a odiá-los, mas, sem nos dar conta, passamos a lhes imitar alguns gestos de baixeza. Já não nos basta a justiça. Desejamos também vingança e bofetada. É catártico.

Quase imperceptivelmente cedemos ao descontrole emocional, às palavras duras e à santa ira. Nem nos demos conta de que o ódio não é cultivado sem consequências. Ele contamina o cotidiano e se revela na irascibilidade onipresente, na impaciência generalizada e na exasperação com que dizemos que o Brasil já não tem jeito.

O perigo destas é que são práticas viciantes que não se limitam a episódios isolados. O ódio é insaciável e tem lá sua sedução.

Nossa fragilidade perante o abismo já havia se traduzido na cusparada de Jean Willys e nos recorrentes episódios de agressões verbais em restaurantes e hospitais. Agora com Eduardo Cunha demos um passo a mais: a violência física. Cá estamos nós copiando monstros.

O que há de mais terrível nisso tudo não é o mal que os monstros nos fazem fisicamente, mas os danos que infligem às almas. Pior que as astronômicas quantias roubadas e o escárnio dos que se julgam intocáveis é nos darmos conta que também nos foram subtraídos os traços de civilidade. Enquanto criticamos o discurso de ódio e as manipulações que seduzem incautos, igualmente nos convertemos em lobos, escravos dos impulsos, órfãos de virtude e envergonhados de nós mesmos.

Lamentáveis são os desvios de dinheiro público, mas pior que eles são a perda da ética e do limite que nos faz aguardar pela justiça em vez de mergulhar as mãos no sangue alheio.

Além de ofendidos, corremos o risco de nos tornar marionetes do ofensor, cuja presença nos desatina. Ou seja, rouba o dinheiro e leva a alma como bônus.

A História nos lembra outras vítimas do abismo. Não foram poucos os que, desatentos, cruzaram a tênue linha que separa o indignado do bárbaro. O terror na Revolução Francesa, o assassinato das crianças Romanov, as humilhações públicas na China de Mao são demonstrações cabais do descontrole. Basta a primeira pedra e rolam pelo chão séculos de aprimoramento social e racionalidade.

Os antigos gregos tinham uma palavra para designar a desmedida do gesto, o momento em que o pé ultrapassa a linha que demarca o razoável: hübris. Ela também marca este nosso tempo e tem efeito semelhante ao do álcool: intoxica os espíritos, obnubilando o senso.

A hübris é filha dileta do desprezo às leis. Marcada pela violenta paixão e pelo descontrole, não raro era duramente punida pelos deuses justamente porque avançava sobre o espaço alheio. Os modernos deuses da justiça também a isso punem – convém não esquecer.

O antídoto grego para a hübris? Sofrosine, a moderação e o autocontrole. Sob seu domínio, a discussão política, a natural indignação e o desejo de justiça vicejam sem que nos convertamos em desequilibrados caricatos.

Hoje o abismo olhou de volta. E viu quando rimos de Eduardo Cunha sendo espancado pela mulher que era açulada por outros.

A barbárie espreita. Urge escapar às suas fúrias.

 

6 comentários em “O abismo olha para nós

  • outubro 15, 2016 em 1:58 am
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    C’est parfait! Eu não ri da cena no aeroporto! Mas não saberia dizer de tão bela escrita o quanto esse escárnio é deplorável!👏👏👏

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  • outubro 15, 2016 em 8:56 am
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    Há no alto daquilo que Éuma OuTRA verdade dentro disso tudo que não foi ainda falada: a Verdade da Lei da Causa e do Efeito e esta é IMPLACÁVEL! A Natureza desta Lei como toda a Natureza é tão perfeita que uma vez a Lei sendo ultrajada, a consequência dela, principio mínimo científico não poderá ser evitada pois está no alto daquilo que É…..por natureza!
    Não queremos maremotos, terremotos, tsunamis ou atrairmos pessoas loucas sobre nós, o abismo??? Então não façamos nada contra as Leis da Natureza….porque quando estas Leis forem infringidas a Natureza da vida não pedirá passagem pra entrar e arrasar com tudo…e com razão! Pois ela foi infringida!

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  • outubro 15, 2016 em 9:19 am
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    Nunca vi um puxão de orelhas tão refinado! Quanta profundidade e quanta transcendência nessa reflexão! É uma demonstração eloquente da necessidade que temos de parar e olhar para nós mesmos. Para o que fazemos, inclusive em nome de princípios válidos.

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  • outubro 15, 2016 em 2:24 pm
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    Eu não a aplaudi. Senti constrangimento. Não gosto dessas agressões. Não podemos descer até eles.

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  • outubro 15, 2016 em 10:00 pm
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    Irretocável. Quando criança, assisti a um linchamento. Eu tinha menos de dez anos de idade. Foi horrível. Essa experiência marcante serviu para que eu formasse juízo sobre os linchadores: insanos, covardes e impiedosos. Esse texto veio para reforçar minha convicção de que, sem o respeito à lei, a barbárie impera. Quando isso ocorre, o homem revela a besta que ele encerra. Assim, resta aos sensatos alinharem-se à ideia central do artigo, a fim de fortalecer a civilidade em nossa sociedade fragilizada pela sensação de impunidade e pela consequente sede de vingança. Corolário: cumpra-se a lei, ainda que ela não nos agrade individualmente.

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  • outubro 15, 2016 em 10:01 pm
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    A vida é uma ilusão, passa rapidinho e é feita pra causar dor, desconfôrto e medo. Quem não se interessar por ela , tiver uma boa dose de deboche e uma descrença sem limites nos ensinamentos todos, pode até se safar dessa Matrix em que vivemos.

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