De cavernas e de muros

Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez conscienciosa.”

Martin Luther King

No dia 9 de novembro de 1989, caiu o muro de Berlim. Exatamente 27 anos depois, os Estados Unidos elegeram como seu 45º presidente um homem que prometeu construir um muro.

Muros sempre foram práticos e, simultaneamente, simbólicos. Barreiras altas contra adversários e indesejáveis. Trump propôs o seu para manter fora das fronteiras de seu país aquele exército latino mal visto por uma larga parcela dos americanos nativos. Deu-lhes um inimigo, técnica para seduzir mentes frágeis bastante eficiente e fartamente usada por praticamente todo mundo que faz política. O eleitorado? Respondeu com a docilidade que lhe é própria. Adotou o muro físico e várias muralhas ideológicas – dentro deles há conforto, familiaridade, rostos conhecidos.

No mais famoso diálogo d’A República de Platão, Sócrates induz Glauco e Adimanto a imaginarem uma caverna subterrânea onde humanos estão presos desde a infância. Suas pernas e pescoços estão acorrentados, de modo que só enxergam o que está diante deles. Na caverna há uma entrada pela qual chega a luz de uma fogueira acesa na colina que se ergue por trás dos acorrentados. Entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada, na qual há um pequeno muro. Diz Sócrates: “Ao longo desse muro, homens transportam objetos de toda espécie”. Os homens da caverna tomam por objetos reais as sombras projetadas na parede e julgam que as vozes dos trabalhadores, que ecoam, longínquas, são os sons emitidos pelos objetos.

Sócrates especula sobre o que aconteceria se alguém libertasse um desses prisioneiros e lhe mostrasse sua ignorância. Ele poderia mover o rosto, caminhar e contemplar a luz da fogueira, mas seus olhos estariam despreparados. Sua mente acostumada às sombras se refugiaria nas antigas memórias. Os olhos feridos pela luz ofuscante do sol não distinguiriam os objetos reais que lhe mostrassem. Arrancado à força da sua caverna e obrigado a trilhar o caminho rude e escarpado, acreditaria ser vítima de grande violência. Só aos poucos habituaria os olhos e distinguiria as imagens até aprender os detalhes do que chamamos mundo e seu funcionamento. A história prossegue, com esse liberto lembrando-se de sua primeira morada e de seus companheiros de cativeiro. Lamentaria os que lá ficaram. Voltaria, tentaria esclarecê-los. Em vão. Estes estariam acostumados à sombra. Pior: entre eles haveria os “doutores” na interpretação do que veem. Rir-se-iam-se dele. Poderiam até matá-lo.

Trump, Hillary e seus eleitores, direitistas, esquerdistas, imprensa, eu e você vivemos em cavernas mentais. Desabituados à escarpada estrada do conhecimento que liberta e à luz da reflexão madura, preferimos a prisão dos preconceitos, das ideias falsas e convenientes. Queremos muros protetores e cavernas familiares, além de cenários fáceis. A luz nos ofusca e incomoda. Qualquer sinal de mudança é um choque a nos apavorar. Impermeáveis a qualquer alteração no que julgamos ser o caminho certo, encharcados de certezas e dogmas, perdemos o bem mais precioso: a capacidade de questionar, duvidar, examinar e aprender com a observação e a experiência.

O que queremos afinal desta vida? Ter um teto sobre a cabeça, cama quentinha, comida à mesa, saúde pra dar e vender e uma família feliz. Nossas necessidades são bem básicas. É o que nos move. Humano. Muito humano. A civilização nos trouxe algum polimento, um verniz que se sobrepõe à necessidade de satisfazer sem freios os instintos primitivos e nos impulsiona em direção a um bem comum. Aprendemos cortesia, tolerância, respeito mútuo. E nos adaptamos às regras do grupo social.

Mas animais políticos anseiam por algo mais: controlar as rédeas do jogo e o destino coletivo. Hoje a eleição americana nos escancara um fenômeno mundial: a guerra entre os prisioneiros de duas cavernas distintas.

Os primeiros embarcaram na fantasia do paraíso perdido. Querem ser grandes novamente: anseiam por regras duras, espaço territorial bem demarcado, comida farta e condições de pagar a hipoteca. Seus oponentes se julgam moralmente superiores, arvoram-se de defensores dos desvalidos e acreditam em almoço grátis e árvores de dinheiro brotando nos cofres públicos. Estes, certos de que detêm o monopólio da ética, pesaram demais a mão. Tanto patrulharam, tanto se excederam que esqueceram do pêndulo sócio-político. Diante de extremismos, as sociedades reagem. Os cidadãos fazem o pêndulo balançar para o lado oposto. É uma espécie de karma, que atinge em cheio os modernos guerreiros que se creem guardiães da ética e protetores dos excluídos.

A maior parte dos humanos jovens adora pensar em si mesmo como um iconoclasta imbuído da grandiosa missão de mudar o mundo. Isso é clássico na trajetória dos bípedes pensantes. Mas nos últimos anos vimos uma explosiva combinação de fatores contribuir para a piora do quadro. Entraram em cena teorias pedagógicas que tudo permitem a crianças e jovens; a alta visibilidade oferecida pela web e pelas redes sociais; uma contínua redução de leitura e do acesso a cultura, além do hábito de expressar o pensamento mediante clichês, piadinhas, memes e raciocínios rasos. Em resumo, um caldo que nutriu ingênuos de ego inflado e os tornou joguetes de políticos espertalhões. E o mundo inteiro viu surgir uma geração cada vez mais mimada, com auto-imagem distorcida, habituada a ganhar no grito em vez da argumentação.

Os pequenos imperadores, bajulados por pais e professores, agem de forma padronizada: usam as mesmas expressões, valem-se de técnicas assemelhadas e abusam da paciência da coletividade que não partilha de suas opiniões. Atuam como salvadores do mundo, esquecidos que, no passado, houve outros que lutaram pelos direitos civis com muito mais sabedoria e habilidade, obtendo grandes resultados. A provocação infantil gera raiva no suposto oponente e nutre o círculo vicioso do ódio, mas quem vive isolado na caverna nada sabe sobre isso.

Sim, ainda há muita violência contra a mulher, machismo, racismo e preconceito contra pobres e homossexuais, mas é essencial saber escolher a ferramenta de luta: esclarecer, refletir, educar e posicionar-se com argumentos são uma opção. A outra é a adoção da agenda superficial, com frases de efeito, vitimismo, exibicionismo provocativo e excessos sem efeito prático. O uso de gênero neutro, protesto contra cartaz de filme de super herói, peludas axilas e frases generalistas como “todo homem é estuprador em potencial” ou “a casa grande surta quando a senzala aprende a ler” soam apenas como malcriação, seja aqui ou nos EUA. Seu efeito cosmético funciona somente dentro do próprio grupo que se retroalimenta. Se espiassem fora da caverna, os americanos desse grupo veriam uma larga faixa de seus compatriotas ainda traumatizada pelos ataques de 11 de setembro, uma classe média angustiada há quase uma década e uma gente que treme perante o diferente. Saberiam, ainda, que as mudanças são lentas e que a sociedade reage com dureza a movimentos bruscos. Conquistas são pequenos passos seguros, dados – como disse Dr. King – com mente firme e coração terno.

O resultado dos excessos nos Estados Unidos? A caverna vizinha moveu o pêndulo social. Alarmaram-se os outros prisioneiros, sentiram falta do que lhes é familiar. Reagiram ao discurso apocalíptico, às condenações ao esforço e ao mérito, à falta de limites e aos arrogantes ansiosos por holofotes. Para eles,  a rota segura é feita de pescoços avermelhados pelo sol que incide no lombo, Bíblia na mão, empregos de volta e uma boa comida feita pela mulherzinha na cozinha. Com pouca escolaridade, temem imigrantes, querem fábricas em território americano e violento combate ao terrorismo. Suspiram à menção de que sua mítica América será grande novamente e acham que gays vão pro inferno sem escalas. São pessoas que acreditaram na balela de Donald Trump sobre Obama não ser americano ou Hillary ter criado o Estado Islâmico.  Tratar com esse público requer um talento marqueteiro específico. Trump valeu-se de um discurso populista e tosco para alcançá-los, inclusive declarando que construiria um muro e mandaria a conta para o México. Brilharam os olhos dos acorrentados quando o republicano encheu a boca para chamar Clinton de “criminosa” e “falsa”. Somando-se isso ao perfil e à biografia de Hillary, nenhuma surpresa quantoao resultado das urnas.

Por outro lado, entre os eleitores de Trump há dois outros grupos, não majoritários e mais esclarecidos intelectualmente. Um é formado por pessoas que se preservam em público e, embora não sejam homofóbicas-machistas-racistas, secretamente repudiam os exageros do politicamente correto. Trump fez em público o que estes não têm coragem sequer de sussurrar. Por isso o chamam, erroneamente, de “autêntico”. O outro grupo de apoiadores do bilionário é o dos que tratam a economia não como inimigo, mas como motor do progresso, e a querem mais pujante; almejam por mais armas nas mãos da população e pensam que o combate à desigualdade social se faz com educação e empregos, e não com mera distribuição de renda. Obviamente, nessa caverna também se escondem teorias conspiratórias risíveis. Não estivessem tão absorvidos contemplando as sombras da parede e tais prisioneiros ririam também. Estes tentam ignorar que Trump é um falastrão inconveniente, que chama os mexicanos de estupradores e trata mulheres como sub-raça. De olhos postos nas próprias visões do mundo, mal veem que Trump rompeu o pacto social, não se intimidou em inventar mentiras, abusou da leviandade e fez retroagir algumas décadas de polidez – e esta não se confunde, em momento algum, com o politicamente correto.

Para a geração que acha que o próprio umbigo é o sol, Trump foi um choque de realidade. Atingidos em cheio pelo movimento pendular. E assim os EUA sairão do atual cenário – presidente negro, filho de imigrantes, carismático e conciliador – para lidar com um ricaço grosseirão, que flerta com a sordidez e não mede palavras ou consequências. O susto atingiu também outros dois grupos: o dos que nunca imaginaram que alguém com tal perfil pudesse ser eleito e a torcida com crachá de jornalista. Encerrados nas próprias cavernas, foram surpreendidos pelos fatos e reagiram como sempre: apregoando o apocalipse. Os primeiros pecaram por subestimar a grande massa dos que querem emprego e segurança. Quanto aos segundos, é o preço que se paga por não seguir o manual da profissão, que recomenda não se envolver excessivamente com o objeto da notícia. Alguma neutralidade (a que for possível) na avaliação nunca fez mal ao jornalismo sério. No futuro, menos adjetivos e advérbios, mais verbos e substantivos.

Ambos os grupos aprisionaram-se em seus muros. Se abrissem os olhos identificariam que a lógica e o bom senso já não governavam a caverna ao lado. É perfeitamente detectável o sentimento de vingança dos eleitores de Trump ao eleger alguém que enfrentou a patrulha ideológica e “vai fazer as coisas voltarem aos eixos”. Os red necks mandaram um duro recado à prepotência dos justiceiros sociais, aos políticos que os manipulam e à sua irritante capacidade de descobrir razões de ofensa em todas as coisas.  À histérica fala dos caçadores de privilégios alheios, reagiram alçando à Casa Branca o contra padrão: um homem sem escrúpulos morais, com ares de predador sexual e vocação para o sadismo. De quebra, humilharam um segmento cada vez mais impopular – o político de carreira. Como bem adiantou Michael Moore em julho passado, Trump foi arremessado por esses eleitores como um “coquetel molotov pessoal”.

Mais valeria a pena – caros meninos do milênio, que acham que sabem todas as coisas – terem ouvido a voz experiente de Martin Luther King: “No processo de conquistar nosso legítimo direito, não devemos ser culpados de ações injustas. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Temos sempre que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar sós”.

A postura de Dr. King é o atrito necessário para que o pêndulo sossegue. Quanto mais cedo aprendermos isso, melhor.

Voltemos ao Muro de Berlim. No dia 12 de junho de 1987, o ex-presidente americano Ronald Reagan visitou rapidamente a Alemanha. Em meio à tensão da guerra fria, o republicano postou-se no Portão de Brandemburgo protegido por dois painéis à prova de balas. Diante de 45 mil pessoas, fez um discurso inspirado (leia aqui) e apelou ao então líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev: “Há um sinal de que os soviéticos podem fazer que seria inconfundível, que faria avançar dramaticamente a causa da liberdade e da paz. Secretário Geral Gorbachev, se o senhor procura a paz, se procura prosperidade para a União Soviética e a Europa Oriental, se procura a liberalização, venha aqui para este portão. Sr. Gorbachev, abra o portão. Sr. Gorbachev, derrube esse muro!” (Assista aqui, ao discurso de Reagan (em inglês).

Na mitologia grega, o Tártaro era o local mais profundo da terra. Uma prisão escura e abafada, por onde corria um rio de fogo. Esse lugar de sofrimentos, que despertou a imaginação de poetas como Hesíodo e Virgílio, era cercado por tremenda muralha de bronze. Desde a antiguidade é sabido que o muro delimita o inferno.

Quer descobrir o mundo real e libertar-se do inferno da opinião que lhe faz cego na caverna? Derrube o muro! Tear down this wall!

 

2 comentários em “De cavernas e de muros

  • novembro 11, 2016 em 12:02 am
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    Na verdade, a prosperidade é uma condição buscada por muitas pessoas e infelizmente na política as pessoas reagem de formas diferentes, mas é sempre a base, a classe trabalhadora que sofre, pois não conseguiu construir patrimônio algum. Digo a base pois nós é que pagamos o mais alto salário aos políticos e seus assessores e pagamos os impostos mais altos pois somo nós que recebemos um salário de miséia. Na verdade a sociedade nunca conheceu a verdadeira paz. Políticos fazem seus dircursos pregando a paz, a properidade, o fim da desigualdade social e outras muitas coisas, mas nunca cumprem o que prometem. O povo é a base de toda a sociedade, é o povo que ganha mal, é o povo que morre todo dia nos hospitais, vítimas de violência em todos os aspectos. É o povo que fica sempre preocupado, esperando o fim do mês para receber o seu salário que já está contado e maioria fica devendo seus credores para pagar no próximo mês e sempre vai ser assim. A honestidade não dá privilégio para ninguém. Nunca houve democracia e liberdade em nenhuma parte do planeta terra. O mundo não tem mais solução. Nunca existiu distribuição de renda em país nenhum país do ocidente e o acesso a educação ainda é sim um passo para o ser humano tentar atingir o topo, pois na ignorância ele sempre será um manipulado e oprimido. Ora, se o Donald Trump foi eleito, será que o povo estava satisfeito com o Barack Obama, ou seriam felizes com a Hillary Clinton? Se estavam felizes e satisfeitos, se tinham esperança de melhorias, então porque trocariam o “certeza” pela dúvida?
    Ninguém pode dar esta certeza de nada. Jamais existirá liberdade com a cultura de políticos com regalias e o trabalhador, que alcançou o milagre de um emprego, com dívidas até o pescoço. Os poderosos lucram com a desgraça da sociedade. levantam-se muros, derrubam-se muros e o povo continua debaixo dos pés e nas rédeas dos poderosos. Eles sim, vivem no total glamour com suas famílas em redomas intransponíveis. Mostrem-me o filho, mãe, pai, irmão, esposa, esposo de um político no mundo que passa necessidades. Porque é sempre quando acabam e começam eleições é que existem salvadores da pátria e esperança para o povo? É o povo que sempre reclama. É o povo que nunca é atendido. Não coloquem a culpa no povo eleitor A e no povo eleitor B, pois os dois sempre perdem.

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  • novembro 11, 2016 em 7:41 am
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    Brilhante, simplesmente brilhante o paralelo traçado.
    Termino a leitura com mais inteligência dentro de minha cabeça.
    Parabéns.

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