Várzea

chikenSempre foi unanimidade no mundo político brasileiro: uma delação premiada de Marcelo Odebrecht & friends desencadearia a Operação Fim do Mundo em Brasília. Ontem, quando a empresa divulgou a nota anunciando que seus principais executivos entregariam o mega esquema de corrupção, foi possível ouvir a risada maligna de milhares de brasileiros sequiosos de uma boa vingança.

Sim, vingança. Nem me venham dizer que brasileiro é bonzinho. Brasileiro ferido é pior que mulher traída e muito mais diabólico que escorpiano aguardando o fim do enterro do desafeto para sambar sobre a sepultura do defunto. Somado ao nosso inegável talento para o escárnio e a uma vocação para o politicamente incorreto, somos imbatíveis na arte da desforra. Não somos engraçadinhos, não. Somos um país de cartunistas da Charlie Hebdo que se imagina outro Charlie, o Brown.

Mas voltemos à Odebrecht. Depois de passar a noite roendo as unhas à espera da derrocada dos políticos que receberam recursos ilícitos da empreiteira, o Brasil foi recompensado pela manhã. Sim, lá estava – ao alcance de um clique – uma reluzente lista com mais de 200 nomes, inteirinhos à disposição da sanha assassina. Foi uma epifania! Um único objeto enfim unia governistas e oposicionistas: ela, a lista! Com os olhos brilhantes e os dedos trêmulos, todos correram a conferir os nomes. Não importava se as doações poderiam ser legais ou se as investigações estavam em curso: só interessava o batom na cueca transfigurado na longa lista de políticos de mais de dez partidos que constavam na planilha de pagamento da empresa que se tornou o centro da Lava Jato.

Interjeições surgiam a mancheias: Mas olha quem está lá!!! Ele também? Uai, mas esse não era o partido das vestais? Mas até tu, Brutus?  Saboreando o lauto banquete de checar os nomes de amigos e inimigos, o país deparou-se com uma inesperada sobremesa: os codinomes dados pelos organizadíssimos executivos da Odebrecht aos políticos beneficiados por suas generosas doações.

Uma gargalhada presa na garganta há muito tempo foi ouvida do Amapá ao Rio Grande do Sul quando os olhos brasileiros pousaram no codinome de Eduardo Cunha: “Caranguejo”. Ca-ran-gue-jo? Caranguejo! Neste instante, surgiu nas mentes verde-amarelas o aspecto profundo da vingança: ela pode ser secreta! Já não seria mais necessário apedrejar o Congresso como manifestação de revolta, nem excluir amigos no Facebook! O dicionário salvara o patrimônio nacional e as amizades virtuais ao definir Dudu Cunha como “crustáceo decápode de pernas terminadas em unhas pontudas e que se alimenta de toda sorte de detritos orgânicos”. A partir de agora, quando o presidente da Câmara desafiar a paciência nacional com suas infindáveis manobras, lá no fundo da alma auriverde brotará um indefectível risinho acompanhado do pensamento: “Aaaahhh, caranguejo!”. O previsível “Sai dessa lama, Dudu!” ficará restrito aos menos imaginativos, mas será usado – tenho certeza.

A lista nos legou uma ala de codinomes que deixam correr solta a imaginação e já geraram toda sorte de especulações na Internet. É o caso de Jarbas Vasconcelos Filho, o “Viagra”, e do ministro Jaques Wagner, o “Passivo”. Foram as primeiras vítimas das redes sociais. Também causou intensa especulação o apelido de Renan Calheiros, “Atleta”. Observando a ausência de hábitos desportivos do presidente do Senado e suas ligações anteriores com uma certa moçoila capa da Playboy, a picardia nacional decretou um complemento: “Atleta? Só se for de alcova!”.

 Romero Jucá, senador pela amazônica Roraima, ganhou o apelido de “Cacique”. Eduardo Paes surge como “Nervosinho” e o senador Humberto Costa, ex-ministro da saúde e cujo nome foi mencionado (sem comprovação ou indiciamento) no escândalo das sanguessugas,  é “Drácula”. O deputado federal Daniel Almeida, do PCdoB baiano, surge como “Comuna” e Raul Jungmann é apelidado de “Bruto”. O deputado estadual Jorge Picciani está assinalado pelo codinome “Grego”. O ex-governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, é chamado de “Proximus”. 

 Escaparam da piada pronta o senador Lindbergh Farias, o “Lindinho”, e o imortal (no sentido literal) José Sarney, o “Escritor”. Dado o inegável caráter de bullying dos codinomes, talvez não seja um elogio, viu Sarney? Já o apelido da deputada Manuela d’Ávila, “Avião”, deverá despertar a fúria das ativistas da terceira onda feminista que nada viram de importante em expressões bem mais grosseiras recentemente flagradas nos sacrossantos lábios de um dos ídolos da torcida.    
Como a Polícia Federal achou uma folha de papel com as regras do jogo, um amigo meu, o Ricardo, dado a criar equipes de futebol de várzea, fez logo a escalação do Sport Club Unidos Venceremos: Passivo; Paulinho Fiorella, Carangueijo (sic), Grego e Cacique; Colorido, Nervosinho, Escritor e Angorá; Chiquinho do Zaira e Próximus. O técnico? Drácula!
É uma pena que a criatividade do pessoal da Odebrecht não tenha dado apelidos carinhosos ao vice-presidente Michel Temer, à deputada Maria do Rosário e aos senadores José Serra e Aécio Neves. O país perdeu muitas risadas, embora a nossa imaginação de pândegos já tenha preenchido essas lacunas.

 

4 comentários em “Várzea

  • março 23, 2016 em 7:06 pm
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    Ah, só a pena vigorosa… digo: o teclado ágil da Sônia para percorrer pra nós todo esse universo da política do país, mostrando donde é que tudo emana e fazendo, consequentemente supor pra onde se dirigem as grandes decisões nacionais. Mesmo as doações legais não mudam a vinculação da política aos interesses.

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  • março 23, 2016 em 7:36 pm
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    Para minha felicidade, a internet ainda não captura pensamentos ao ponto registrar aqui outros pseudônimos menos circenses. Rs.
    Texto novamente impecável e com a dose certa de humor para aliviar este gosto de fel que as notícias recentes tentam colocar em nossos lábios.
    Obrigado por estar aí, deixando-nos muito mais informados e atentos.

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  • março 24, 2016 em 6:27 am
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    Quando bullying ainda nem havia entrado no dicionário brasileiro, eu já detestava apelidos, porque na infância eu fui a “crioulinha do Pageú” (só para os que entendem de óleo de cozinha dos anos 60), apelido atribuido por algum familiar , se duvidar meu pai , que era um pândego ( pra ussr uma expressão presidencial rs) , ou minha avó paterna, que era uma racista escancarada😕
    Talvez por isso continue detestando apelidos e evitando ao máximo atribuí -los , seja aos amigos ou aos inimigos . Mas confesso , entrei no jogo de interpretar os apelidos, até me surpreendi com o o senador ” aquele dos oclinhos ” lembra? Pensei que estaria na lista dos piada pronta: Hari Potter 😆 Teu texto inspirou imagens outras para o apelido do carangueijo (sic), lembrei de uma dancinha que um programa de TV fez virar modinha , numa época em que “meme ” também não figurava no nosso dicionário!
    Em tempo: quem escreve “carangueijo ” certamente o serve na “bandeija”. Muitas cabeças servidas na bandeja da Oderbrescht !

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    • março 24, 2016 em 7:32 am
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      Vania, pensei a mesma coisa quando vi a lista e estava escrito “carangueijo”. Foi instantânea a associação com “bandeija”. E você tem razão, apelido é terrível, e quando traz um componente racial é pior ainda. Mas olha que interessante: quando eu lhe conheci, só conseguia admirar sua inteligência e sua beleza. Quando eu era sua estagiária, achava incrível como você sabia tantas coisas e como era tão competente e elegante.Saber que aquela mulher tão incrível era chamada desse jeito depreciativo realmente cortou meu coração.

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