Teatro de sombras

sombraApós uma noite de sono e um tempo refletindo sobre as entrevistas de Michel Temer e  Marcelo Calero, chego à conclusão que ambas têm as mesmíssimas características. A saber: inteligência e senso de oportunidade.

Foram duas entrevistas pensadas cuidadosamente para projetar uma imagem correta de ambos. Temer escolheu prestar contas à população que se mobiliza para a marcha do dia 4 e disse que quem manda é o povo, como determina a Constituição. Calero apresentou-se como o cidadão honesto que não compactua com a corrupção.

Ambos também buscaram apelar para os sentimentos mais básicos dos telespectadores e apostaram na empatia: Temer deixando “escapar” sua indignação pela quebra de confiança e garantindo que jamais se valeria de tal expediente; Calero mencionando sua postura de homem de bem, chocado com os bastidores de Brasília.

As duas entrevistas deixaram uma forte sensação de que muito não foi dito. É que, no fundo, adivinhamos que diante de nós ocorre um verdadeiro teatro de sombras, em que seres de fantasia são projetados numa grande tela para entreter adultos e crianças,  enquanto nos bastidores a realidade é prosaica e todos advinham qual é: papel de seda, cola e um hábil manipulador.  Suspeito que Temer teve acesso a informações privilegiadas sobre o que Calero gravou. Por isso estava à vontade para pedir a divulgação dos diálogos. Calero, por sua vez, divulgou que tinha gravado Temer, fez mistério sobre o conteúdo, deixou as especulações correrem soltas e, na entrevista ao Fantástico, disse que gravou apenas uma conversa protocolar com o presidente. Teria gravado mesmo só por telefone? Ou teme exagerar na dose e perder apoio, atrair suspeitas e vir a ser processado? Terá alguma carta guardada na manga?

Notei o cuidado excessivo de Calero em mostrar que, na gravação telefônica, buscou manter a conversa em assuntos republicanos. Ou seja: ele, Calero, optou por preservar o presidente, em um gesto de nobreza. Mas me ocorrem singelas perguntas a essa altura: se queria preservar Temer, por que o gravou? Por que divulgou que havia gravado, sem informar o conteúdo e alimentando a boataria? Por que somente numa entrevista em horário nobre fez a revelação de que a montanha pariu um rato no que diz respeito às gravações?  Por que optou por preservar o presidente se na entrevista o acusa claramente de agir indignamente? É uma acusação muito séria e, para fazê-la, melhor seria estar resguardado por provas substanciais, não?

Não estamos tratando com amadores. Foi uma jogada acertadíssima de Temer dizer que não se deveria cobrar dele qualquer autoritarismo – menção direta a Dilma e sua fama de intransigente e arrogante. Calero também acertou a mão ao se apresentar como um inocente nas artes políticas – praticamente uma virgem em meio ao lupanar. Reconheço que foram movimentos muito inteligentes, só não me peçam para acreditar na sinceridade dessas almas. Ou em sua nobreza. Ambos tem objetivos políticos e só nos resta descobrir qual o de Calero, pois o de Temer está mais que óbvio.

De concreto mesmo, nas entrevistas de ontem, só o fato de que a emenda da anistia ao caixa 2 das eleições passadas parece estar definitivamente enterrada; e que a próxima moda entre os políticos será mostrar-se o mais puro possível. Prevejo que as próximas eleições serão um verdadeiro festival de demonstrações de honradez, tudo reconhecido em cartório e dito perante as câmeras com firmeza e segurança. A conferir.

Para a população, a única boa notícia disso tudo é que se tornou bem claro que a mobilização dos brasileiros e seu atento acompanhamento do que acontece em Brasília parece estar surtindo algum efeito. Essa nova estratégia de prestar contas aqui, mostrar-se atento ali, passar atestado não solicitado de honestidade inexpugnável e dizer que “ouviu a voz das ruas” tem todo jeito de autopreservação, mas mostra uma pequena mudança em relação a tudo o que se teve até agora. Mal vejo a hora em que vão parar de desviar dinheiro público, tramar nas sombras contra o país e enriquecer às custas dos impostos pagos por todos nós. Falei “mal vejo a hora”? Desculpem, excesso de otimismo: se isso vier a acontecer já estarei de ossos brancos. Talvez ali pelo século 22, se os ventos soprarem favoravelmente.

Enquanto isso, melhor participar das manifestações do dia 4 de dezembro. Seguro morreu de velho e desconfiado ainda está vivo.

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