Ética a Nadja

A vida é breve, a arte vasta, a ocasião instantânea, a experiência incerta, o juízo difícil.

Η ζωή είναι µικρή, η τέχνη ατέλειωτη, η ευκαιρία φευγαλέα, η πείρα απατηλή και η ορθή κρίση δύσκολη

Ἱπποκράτης (Hipócrates)

Filha,

guarde esta frase de Hipócrates no seu coração. Ela é poderosa e traduz a essência da Medicina. Sua arte é imensa, anterior a você e sobreviverá à sua passagem na Terra. Você também é mortal e igualmente suscetível a doenças. Esta arte, vasta como o mundo, precisa ser constantemente revisitada. Respeite-a e honre-a. Ela guarda segredos que se abrem aos que os buscam. Atenção às instantaneidades e não perca de vista o questionamento e a reflexão: sob o manto da experiência podem ocultar-se armadilhas. Diante das inseguranças, recorde-se que o juízo é difícil desde a Antiguidade. Não acontece apenas com você.

As palavras vindas da Grécia milenar são um alerta, tanto para a sua carreira de médica como para a sua vida diária. Por isso vou usar o aforismo do velho Pai da Medicina para construir esta carta de amor.

Sim, a vida é breve. Um sopro de brisa que leva as pequenas flores pelo ar e rapidamente desaparece. Ela – a vida – mal começou para você. Aproveite-a com sabedoria. Valorize cada dia, seja ele brilhante de sol ou carregado de nuvens. Nos ensolarados, use roupas leves e coloridas, que espelhem risadas. Aproveite os dias claros para ler nos parques, praticar esportes, fazer piqueniques, comer bolo e ficar bronzeada. Ah, sim, e como diz o texto de Mary Schmich, use protetor solar, afinal coisas bonitas e agradáveis também guardam seus perigos.  Além do mais, desde a Antiguidade é praxe os pais recomendarem prudência (Σωφροσύνη) aos filhos. Se nem Aristóteles fugiu à regra clássica, imagine eu!

Nos dias nublados, use roupas elegantes, chapéus charmosos, sombrinhas divertidas e as echarpes que lhe dei. Sempre veja a chuva cair – há tanta poesia nisso! Quando as gotas desabarem do céu, guarde algum momento para ver quanta beleza existe nas coisas simples e cotidianas. Tome uma bela caneca de café (ou uma xícara de chá) e aprecie o balé da chuva, a força dos raios, os desenhos das nuvens que se acumulam. Divirta-se pensando que, naquele instante, há florezinhas sedentas abrindo boquinhas imaginárias e há galhos de bambus se curvando até a terra, sem se quebrar. Dá para meditar vendo tempestades! E filosofar. Aprenda com esses dias que há lições extraordinárias em todas as ocasiões. E delas se pode extrair ricos aprendizados.

Em resumo, agradeça pelos dias dourados e também pelos cinzentos.

O juízo é difícil e somos guiados pelos sentidos e pelo calor das emoções. Mantenha-os sob vigilância. A arte de viver é igualmente vasta e requer exercícios constantes. Apoie-se na experiência, respeite-a, mas permita-se questioná-la a fim de não se tornar refém dos dogmas.

A ocasião é instantânea – disse o velho grego – por isso não a deixe passar: aprenda, aja, doe-se. Não deixe para amanhã o gesto de amor que pode ser feito agora. Para seus pacientes, você será sempre a imagem da esperança, a luz ao fim de um túnel, o brilho verde-esmeralda no fundo da caixa de Pandora. Quando a vida deles anunciar a fuga iminente, estenda a mão que conforta, o olhar de compreensão e a palavra de encorajamento.

E para não dizer que não falei de livros e dos escritores que tanto amo, veja nos seus pacientes sempre o solitário Ivan Ilitch de Tolstoi. Guarde no seu coração a dedicação do Bernard Rieux, de Camus. Leia os livros de Oliver Sacks, mocinha! E se tiver que se inspirar profissionalmente em alguém, que seja no meu amado Tchekhov, que além de viver à base de chá, só admitiu uma esposa na vida: a Medicina. A literatura e tudo o mais eram apenas amantes, sonhos de uma noite de verão.

Por fim, falemos de morte, pois esta faz parte de sua arte.

Um dia, a indesejada das gentes virá para mim e para você. Não tenha medo dela. É o ato final de toda a vida. Faça da sua existência a melhor possível, dentro de suas possibilidades. Sem cobranças, sem culpas. Buscando corrigir-se quando errar, abrindo a mente a novas visões, refletindo muito.

Se você abraçar a ética, nada há a temer. Se houver um paraíso, você estará nele; se houver reencarnação, você merecerá uma nova existência assinalada pelos seus méritos; se nada houver, você deixará o exemplo de uma existência digna e inspiradora. E isso, acredite-me, é o melhor de tudo.

No dia em que eu tiver partido, tenha certeza: estarei ao seu lado. Meu corpo terá voltado à natureza que tanto amei, mas estarei sempre presente – fisicamente, acredite. É que nas nossas lembranças certamente viverei, mas também estou impressa em você, no seu DNA, nos seus ossos, pele e nervos. Seu corpo foi gerado por mim. Eu e você somos poeira de estrelas, areia de rio e pena de passarinho. Nunca haverá separação entre nós.

Com o amor inesgotável de sempre e torcendo que Ἀσκληπιός lhe inspire em sua arte,

Mamãe.

Um comentário em “Ética a Nadja

  • novembro 28, 2016 em 1:35 pm
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    Digno de uma mãe, no sentido mais vívido, visceral e intelectual da palavra. Feliz Nadja. Feliz vc também, Sonia Zaghetto.

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