Lamia e o significado dos nomes

Todos os encantos não se dissipam ao mero toque da triste filosofia?
Lamia – John Keats
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Lamia. Waterhouse.

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Nomes podem ser proféticos e reveladores do que se mantém cuidadosamente oculto? Em seu significado jazem confidências secretas? Indago aos poetas se é possível haver alertas que passem despercebidos na aparente escolha fortuita dos nomes. E Shakespeare responde-me que há mais coisas entre o céu, a terra e a escolha de substantivos do que sonha a minha filosofia. Duvido. Seria possível que nas letras que se unem, quietas, esperando que alguém as decifre, escondam-se segredos de vida e de morte? Tudo isso me ocorre quando penso na sigla da empresa que enlutou a nossa gente: Lamia.

Lamia (Λάμια), na mitologia grega, era uma bela rainha convertida em demônio devorador de seres humanos. Com o tempo, o nome lamia passou a designar monstros que se ocultavam sob uma boa aparência a fim de atacar jovens ou viajantes, e devorá-los. Um nome adequado para a Línea Aérea Mérida Internacional de Aviación, que igualmente dizimou nossos jovens viajantes. Sua monstruosa irresponsabilidade, camuflada sob uma aparência enganadora de competência e de bons serviços, destruiu  71 famílias e encharcou de sangue brasileiro o chão da Colômbia.

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Na literatura, a figura de Lamia está presente em textos clássicos e contemporâneos – desde a Bíblia, Horácio e Homero até John Keats. Na mitologia, na literatura e na vida real, Lamia segue, mais viva do que nunca, com seus vícios, devorando os que nela acreditaram, vitimando os inocentes com sua ganância.  Uma permanente ameaça  à humanidade, por sua natureza selvagem e maligna representada em um corpo metade humano metade serpente.

Lamia sobrevive até os dias de hoje na tradição popular da Grécia. E suas características são bem humanas: sede de sangue, impureza, glutonaria e estupidez. O provérbio grego “της Λάμιας τα σαρώματα” traduz desleixo. São os despojos de Lamia. Tanto lá como aqui na América do Sul, resume o que matou tantos: impureza de propósitos, cega voracidade que faz arriscar a vida por migalhas; e a velha estupidez que acabou por abater a própria empresa.

Na história mitológica, Lamia era amante de Zeus. A esposa deste, Hera, enciumada, a transformou em um monstro, matou-lhe os filhinhos e a condenou a não poder cerrar os olhos, para que ficasse para sempre obcecada pela imagem dos filhos mortos. Zeus, movido pela compaixão, deu a Lamia o dom de poder retirar os olhos para descansar. Aos dirigentes da Lamia não haverá essa chance. Estão condenados a carregar, pelo resto de seus dias, a imagem dos brasileiros e a de seus próprios filhos abatidos pela ganância que destruiu os sonhos de tantos.

Enquanto reflito sobre todas essas coisas, a TV me convida a receber uma nova lição sobre os nomes. A tela mostra milhares de pessoas em lágrimas, vestindo verde e carregando balões brancos. É o povo de Santa Catarina? Não. Eram os torcedores do Atlético Nacional, aqueles que seriam considerados os “inimigos” se a tragédia não tivesse eliminado o time da Chapecoense.

E minha voz subitamente se cala. É preciso fazer respeitoso silêncio diante de palavras sublimes e de grandes gestos.
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Olho para aquelas 44 mil pessoas que saíram de suas casas a fim de homenagear os nossos mortos e penso que descobri a tradução exata de uma palavra também vinda do grego: ágape (αγάπη). Ali, no rosto emocionado daqueles colombianos desconhecidos, estava escrito, em grandes letras, o significado do que chamamos amor: uma gota de divindade no humano coração.

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