Diário da crise 24/03/2015

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Os Trapaceiros. Caravaggio.

O jogo político em Brasília se intensifica. Para nós, os espectadores da crise que não termina, a impressão que fica é que alguns jogadores ameaçam a lisura da partida com movimentos questionáveis.

Vamos às principais jogadas do dia:

  1. À medida que o processo de impeachment avança e influentes veículos de comunicação estrangeiros passaram a sugerir em editoriais a renúncia da presidente Dilma Rousseff, o governo começa a subir o tom e a abrir várias frentes de ataque. Agora Dilma e Lula falam abertamente em “golpe” e “ameaça à democracia” e as manifestações de apoio dos correligionários se multiplicam. Outra estratégia é buscar os correspondentes estrangeiros a fim de pautar a imprensa internacional. Ontem, o ministro Jaques Wagner reuniu-se, no Rio de Janeiro, com a mídia de outros países. Os veículos brasileiros tiveram o acesso vedado. Em mais de duas horas de encontro, Wagner disse que falta maturidade ao Brasil e criticou a imprensa nacional, que ele avaliou estar “descompassada da crise política”. Também acusou “segmentos da imprensa nacional” de “militarem por uma tese”.
    2. Na mesma linha, hoje a presidente Dilma Rousseff convocou uma entrevista coletiva na qual falou a seis veículos estrangeiros: The New York Times (EUA), The Guardian (Inglaterra),  Le Monde (França), El País (Espanha), Página 12 (Argentina) e Die Zeit (Alemanha). Ela voltou a negar a possibilidade de renunciar, falou em golpe, afirmou que não há base legal para a aprovação de seu impeachment pelo Congresso e declarou que seu afastamento deixaria “cicatrizes profundas” na vida política brasileira. Encerrou dizendo que não é “agradável” ser vaiada em protestos nas ruas, mas que não é uma pessoa depressiva e dorme bem à noite.
  2. Ainda dentro da ofensiva  sobre a opinião pública de outros países, o governo divulgou que o novo presidente da Argentina, Maurício Macri, declarou apoio a Dilma. Entretanto, uma olhada nos jornais argentinos mostra um apoio cauteloso, no qual o governo vizinho, cuja economia depende da estabilidade brasileira, diz o óbvio: “Não pode haver nenhuma forma de mudança que não seja feita mediante instituições democráticas“. Editoriais e reportagens argentinos não hesitam em interpretar a viagem de Barack Obama ao país como uma demonstração de que o presidente norte-americano está fortalecendo a liderança portenha na América do Sul, em detrimento do Brasil. Leia aqui o que dizem o Clarín e o La Nacion, por exemplo.  Esta reportagem do espanhol El País, mostra o dilema de Macri e esta aqui, de O Globo, explicita a fala protocolar de Obama sobre a crise brasileira: “O Brasil é um país grande, é amigo dos nossos dois países. A boa notícia – e o presidente Macri apontou isso – é que a democracia (brasileira) está madura. Acho que os sistemas de leis e estruturas são fortes o suficiente para que isso seja resolvido de forma que o Brasil prospere e seja o líder mundial que é”. Curiosamente, Obama e Macri  contradisseram o que o ministro Jaques Wagner disse ontem aos jornalistas estrangeiros. O presidente norte-americano observou que a democracia brasileira está madura, enquanto o ministro apontou a falta de maturidade nacional.
  3. O blog O Antagonista lançou uma tese que, se for confirmada, tornará ainda mais grave a participação de Marcelo Odebrecht no grande esquema de corrupção que abala o país. Em julho do ano passado, o blog chamou a atenção para uma das mensagens mais intrigantes encontradas pela Lava Jato no celular de Marcelo Odebrecht. Era a frase “Armadilha Bisol/contra-infos” e sugeriria a reedição de um estratagema usada na década de noventa para engavetar outra investigação contra a empreiteira. A estratégia atual seria a divulgação da lista com mais de 200 nomes de políticos,  uma armadilha destinada a confundir e desacreditar a operação Lava-Jato. A conferir.
  4. Na contramão da grande campanha de ataques ao juiz Sérgio Moro, a prestigiada revista americana Fortune incluiu o juiz federal  entre os 50 maiores “líderes” capazes de transformar o mundo. Moro foi escolhido, claro, por liderar a Operação Lava Jato, que, segundo a publicação, tem potencial para deixar no passado “a longa endemia de corrupção da América Latina”. A Fortune disse que o juiz é “protagonista de uma edição real de ‘Os Intocáveis'”, uma referência ao livro e ao filme que narram o trabalho da equipe que levou à prisão o gângster Al Capone. Moro está em 13ºna lista, que também inclui o papa Francisco, a chanceler alemã Angela Merkel, a prêmio Nobel Aung San Suu Kyi, o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau e o presidente argentino Maurício Macri.

Um comentário em “Diário da crise 24/03/2015

  • março 24, 2016 em 8:43 pm
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    Hj vi um gif que mostra um personagem procurando o nome de Lula ( e Dilma) na lista da Odebresct. Deveria estar procurando nessa lista dos grandes líderes da Fortune , afinal ele não é o Cara , o fodão das palestras internacionais ? 😊

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