Um livro por dia em 2017 – Janeiro

Minha resolução de Ano Novo foi falar de um livro ou autor por dia, em 2017.

Eis a minha lista de janeiro:

Dia 1:  Shakespeare

Shakespeare. Foto: Sonia Zaghetto

É impossível iniciar qualquer lista de livros ou autores sem falar de William Shakespeare. O bardo britânico é a tradução poética da tragédia e da comédia humanas. São inigualáveis o refinamento e a grandeza com que desnuda o que nos move. Ambição, desejos, ciúmes e angústias estão retratados com extrema crueza e profundidade nas tragédias de Shakespeare – entre as quais destaco Hamlet, Macbeth, King Lear, Romeu e Julieta, A Tempestade, Otelo, Júlio César, Macbeth, Antônio e Cleópatra, Coriolano e Timão de Atenas. Como escapar à força do monólogo de Hamlet, às mãos sujas de sangue e culpa de Lady Macbeth ou às sombras nos olhos de Iago, o maior de todos os vilões?

E, no entanto, quem haveria, como ele, de nos arrancar risos diante das nossas tolices e desencontros amorosos? Por isso suas comédias são adoráveis, sejam plenas de fantasia como em Sonhos de uma Noite de Verão, ou uma sequência de confusões como em A Comédia dos Erros ou o  jogo de amor e ódio em Muito Barulho por Nada e A Megera Domada.

Não deixe de ler, ainda, os dramas históricos (especialmente Henrique V e Ricardo III) e os sonetos. Ah, os sonetos de amor de Shakespeare: são capazes de fazer a alma da gente suspirar.

Para finalizar, traduzi um trecho que demonstra a força arrebatadora de Shakespeare. O ator Damian Lewis interpreta, com perfeição, o discurso de Marco Antonio em Julio Cesar. Na peça, Antonio obtém permissão para falar no funeral de Cesar, desde que não implique os conspiradores na morte, mas ele habilmente volta a multidão contra os que atraiçoaram Julio Cesar. Cada linha deste texto, iluminada pela expressão do ator, nos deixa sem fôlego. Eis a tradução: “Amigos, Romanos, compatriotas, escutai-me. Eu venho para enterrar César, não para louvá-lo. O mal que fazem os homens vive após eles; o bem é muitas vezes enterrado com os seus ossos: que seja o mesmo para César! O nobre Brutus disse que César era ambicioso: se assim fosse, seria um erro grave, e gravemente César o expiou . Aqui, com a permissão de Brutus e dos outros (porque Brutus é um homem honrado, e eles são todos homens honrados) eu vim para falar no funeral de César. Ele era meu amigo, fiel e justo para mim; mas Brutus diz que ele era ambicioso, e Brutus é um homem honrado. Ele trouxe a Roma grande número de cativos, cujos resgates encheram os cofres públicos: foi isso o que pareceu ambicioso em César? Quando o pobre gemeu, César chorou: a ambição deveria ser feita de mais rígido estofo. Todavia Brutus diz que ele era ambicioso; e Brutus é um homem honrado. Todos vós vistes que nas Lupercais eu lhe apresentei por três vezes uma coroa real, que ele recusou três vezes: era isso ambição? Contudo Brutus afirma que ele era ambicioso; e seguramente ele é um homem honrado. Eu não falo para contestar o que declarou Brutus, mas estou aqui para dizer o que sei. Vós todos o amastes sempre, e não sem motivo; que motivo vos impede pois de o chorardes? Ó julgamento, tu fugiste dos brutos animais e os homens perderam a razão!… Desculpai-me: o meu coração está no caixão, ali, com César, e eu devo fazer uma pausa até que ele volte para mim“. Clique aqui para assistir a interpretação de Damian Lewis.

Dia 2: O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird) é um dos mais importantes romances da literatura norte-americana. A obra-prima de Harper Lee foi lançada em 1960 e aborda com sensibilidade a questão do racismo, da intolerância e do horror de se descobrir impotente perante a injustiça.

Narrado em primeira pessoa pela menina Scout, o livro tem como principal foco a história do pai dela, o advogado Atticus Finch, que nos anos 1930 defende um homem negro acusado injustamente de estuprar uma mulher branca em Maycomb, cidadezinha do Alabama, sul dos Estados Unidos. A história – com delicado lirismo em que as memórias de infância de Harper Lee são entremeadas à crueza racista da época – ganhou o prêmio Pulitzer de 1961 e foi considerada pelo “Library Journal” como o melhor romance do século XX. O livro vendeu milhões de exemplares, foi transformado em filme e incluído, pelos leitores da “Modern Library”, entre os 100 melhores romances da língua inglesa desde 1900.

Harper Lee – que era amiga de outro gênio da literatura dos EUA, Truman Capote – nunca mais escreveu outro romance e optou pelo isolamento. Em 2015, descobriu-se , numa caixa, os originais de Vá, coloque um vigia (Go set a watchman). Escrito antes de O Sol é para Todos, é a primeira versão do romance e foi recusado pelos editores. Lançado poucos meses antes da morte de Harper Lee, tornou-se sucesso instantâneo e gerou muita polêmica, já que nele a menina Scout, adulta, retorna de Nova York para visitar Maycomb e descobre o verdadeiro caráter de alguns de seus heróis de infância, imortalizados em O Sol é para Todos. Tendo como pano de fundo as mudanças monumentais na sociedade americana na década de 1950, representadas pelas tensões da luta pelos direitos civis, o livro original expõe os preconceitos raciais e as visões que separam as gerações. Para surpresa geral, o heroico personagem de O Sol é para Todos, Atticus Finch, é apresentado como um racista.

Após o anúncio do novo livro, Charles Shields, o principal biógrafo de Harper Lee, disse que a autora, então com 89 anos, vivendo em um asilo para idosos e vítima de um AVC, não estaria em “condições de autorizar a publicação”. Especulou-se que Lee havia sido manipulada por editores e advogados. Uma investigação do Estado do Alabama concluiu que a escritora lançou a obra por vontade própria.

O Sol é para Todos é um livro reverenciado por várias gerações. Um clássico atemporal que inspirou leitores do mundo inteiro. O mais interessante ao ler Vá, coloque um vigia é observar como Harper Lee evoluiu literariamente entre as duas versões. Aconselhada por um editor, ela retroagiu em vinte anos a história, focando na infância do Scout e expandindo os flashbacks do texto original. A impressão que se tem é que, ao reescrever o romance, a autora transferiu a desilusão de Scout com as visões racistas do pai para o personagem de Jem em O Sol é para Todos, quando este descobre que nem sempre a justiça prevalece. E foi assim que um texto menor, com traços de mais revolta e raiva, transformou-se em uma narrativa grandiosa, redentora, humanista e muito mais refinada.

Proust. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 3: Em busca do tempo perdido (A la recherche du temps perdu), de Marcel Proust. Escritos entre 1908-1909 e 1922 e publicados entre 1913 e 1927, os sete volumes são destinados a leitores apaixonados pela arte de escrever. Proust buscava a substância do tempo a fim de escapar à sua lei. Um experimento literário ousado que tentava capturar pela literatura a vida que se agitava no inconsciente: a realidade recriada pelo pensamento humano. Os sete livros são: Du côté de chez Swann (No caminho de Swann); À l’ombre des jeunes filles en fleurs (À sombra das raparigas em flor), com o qual recebeu o prémio Goncourt; Le Côté de Guermantes (O caminho de Guermantes), Sodome et Gomorrhe (Sodoma e Gomorra); La Prisonnière (A prisioneira); Albertine disparue (A Fugitiva); e Le Temps retrouvé (O tempo redescoberto).
Nesta foto, você vê “Em busca do tempo perdido” – uma das maiores obras da literatura mundial – publicada em português, na década de 1950, pela Editora Globo. A tradução é de alguns de nossos mais importantes literatos brasileiros: Mário Quintana (Volumes 1 a 4), Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar (Volume 5), Carlos Drummond de Andrade (Volume 6) e Lúcia Miguel Pereira (Volume 7).
A composição da foto remete a um famoso texto de Proust, o do chá com madeleines. Descubra-o!

Wilde. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 4: Oscar Wilde, com sua inteligência brilhante, sua ironia fina, seu requinte de alma. Um livro de Wilde? Recomendo o último da pilha: a obra completa, mas pode iniciar por O Retrato de Dorian Gray. Está cheio de pequenos detalhes importantes nesta foto: a porcelana azul que Oscar amava, o chá irlandês (Wilde nasceu na Irlanda sob o pomposo nome de Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde) e, bem ao fundo, um exemplar da Odisseia, de Homero: é que Oscar Wilde lia fluentemente em grego e costumava recitar os clássicos helênicos. 

Voltarei a falar de Oscar Wilde, especificamente sobre Dorian Gray, o longo poema intitulado A Balada do Cárcere de Reading e o livro De Profundis. Até lá, não deixe de conhecer seus contos infantis (meus favoritos são O Gigante Egoísta e O Rouxinol e a Rosa) e suas maravilhosas peças teatrais, como SaloméUm marido ideal e A Importância de ser Prudente.

Umberto Eco. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 5: O bibliófilo, filósofo, crítico literário e autor de romances Umberto Eco é o escolhido de hoje do projeto “Um autor/livro por dia em 2017”.

O italiano tem trabalhos para todos os gostos. Um deles tem um título que me é particularmente caro –  “Não Contem com o fim do Livro” mas são igualmente interessantes seus romances, ensaios e livros acadêmicos. E a lista é vasta: Baudolino, O Nome da Rosa, Obra Aberta,  História da Beleza, História da Feiura, O Pêndulo de Foucault, Arte e beleza na estética medieval e Diário Mínimo. 

Gibran. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 6:  O poeta libanês-americano Gibran Khalil Gibran, que nasceu no dia 6 de janeiro de 1883. Seus textos _ escritos em árabe e inglês _ são carregados de doce espiritualidade e de uma encantadora beleza embasada na sabedoria oriental. Livros como O Profeta e O Louco o tornaram o terceiro poeta que mais vende livros no mundo.

Publicado  em  1923, O Profeta versa sobre a  despedida  de  Mustafá (o profeta) do povo de Orfalese,  a cidade  onde  viveu por doze  anos,  à espera do  navio  que  o  levaria  de  volta  à terra em que nascera.  Quatro trechos do livro ilustram bem seu conteúdo:

1.“O  amor  não  conhece  a  sua  própria  profundidade  até  a  hora  da  separação”.

2. “Alegria e tristeza  são  inseparáveis.  Elas  vêm  juntas,  e  quando  uma  está  convosco  na  mesa,  a  outra  está  dormindo  na  vossa  cama”.

3. “A  insatisfação  com  o  que   possuímos  entra  ardilosamente  em  nossa  casa  como  um  hóspede,  depois  torna-se  anfitrião  e  mais  tarde  proprietário.  Sim,  e  torna-se  um  domador  e,  com  ganchos  e  cordas,  nos  faz  marionetes  de  nossos  próprios  desejos.   As  suas  mãos  são  de  seda,  mas  seu  coração  é  de  ferro.  Ele  nos  faz  dormir,  só  para  ficar  ao  lado  da  cama  e  ridicularizar  a  dignidade  da  carne…  Na  verdade,  o  desejo  de  conforto  mata  a  paixão  da  alma,  e  depois vai  sorrindo  ao  funeral”.

 

Camões. Foto: Sonia Zaghetto.

Dia 7: Os Lusíadas. Luís de Camões.  “Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruito, Naquele engano de alma, ledo e cego, Que a Fortuna não deixa durar muito”. A história de Inês de Castro – que foi assassinada no dia 7 de janeiro de 1355 e cujo viúvo, D. Pedro, vingou-se tornando-a rainha depois de morta – é um dos temas da grande epopéia lusitana de Luís de Camões. Os Lusíadas é o sétimo livro do projeto “Um Livro/Autor por Dia em 2017”. Camões deveria ser mais lido. Se no texto épico já é um assombro, na lírica é apaixonante, com alguns dos mais belos sonetos da língua portuguesa. No canto 3 d’Os Lusíadas, o poeta alcança o sublime: “Tu, só tu, puro amor, com força crua, Que os corações humanos tanto obriga, Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga”.

Eneida. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 8: Eneida, a epopéia de Virgilio está para Roma como a Odisséia e a Ilíada estão para a Grécia. Elaborada por encomenda do imperador Augusto, narra a saga do troiano Enéias – o mais importante herói troiano depois de Heitor – cujo destino seria tornar-se o ancestral dos romanos. A Eneida (Aeneis em latim) tem doze cantos, foi escrita no século I a.C, levou dez anos para ser concluída.

Além de criar uma origem e um passado glorioso para Roma, oferece um panorama de seus mitos e instaura uma ética para as relações sociais. Diz  lenda que Virgílio, ao sentir que ia morrer, pediu que queimassem o poema, por julgá-lo imperfeito. Felizmente não foi atendido. Dante elegeu Virgilio como seu guia na Divina Comédia e a Eneida inspirou poetas e pintores ao longo dos séculos. Em um dos mais famosos episódios da Eneida, o herói carrega nas costas o pai idoso (Anquises), a fim de salvá-lo.

A história se passa imediatamente após a queda de Troia. A ideia de Virgilio, portanto, é que a Eneida  dê continuidade à Ilíada de Homero, mas focando na saga de um troiano que foge com sua família e procura um lugar  para fundar uma nova cidade. Esta cidade no futuro seria Roma.

Beauvoir. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 9: Simone de Beauvoir nasceu em 9 de janeiro de 1908. Ela é a escritora do dia. Além de seus livros icônicos (O Segundo Sexo, A Convidada e A Velhice) destaco “Cerimônia do Adeus” de 1981, em que ela narra os últimos dez anos da vida de seu companheiro, Jean-Paul Sartre: a cegueira, a perda da memória e as bebedeiras e discussões filosófico-literárias que mantinham. É uma narrativa comovente e simultaneamente atroz do ocaso do filósofo. Simone tem sido muito comentada ultimamente (em geral por pessoas que jamais leram um de seus livros). É um grande favor não confundi-la com adolescentes tolinhas dos tempos modernos.

Ramayana. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 10: O Ramayana ( रामायण) é uma das duas grandes epopeias indianas e o décimo livro de 2017. É um dos textos mais belos que já li. O príncipe Rama _ que perde o trono às vésperas de ser coroado _ encarna todos os melhores valores e sentimentos humanos: nobreza, serenidade, coragem, abnegação e senso de justiça.

O livro milenar, atribuído ao poeta Valmiki e cuja data estimada é entre 500 e 100 antes de Cristo, é composto de sete livros. Influenciou poderosamente a cultura indiana e toda a literatura do subcontinente. Tem reflexão filosófica na medida certa, a grandiosidade dos épicos, a mitologia da Índia e a capacidade de nos inspirar a ser melhores.

Em português há online uma tradução completa do épico indiano, de autoria de Eleonora Meier (clique aqui para ler) e temos impressa a edição de William Buck, que reconta o Ramayana e é excelente para quem não tem acesso ao texto original (este você encontra neste link, na íntegra, em inglês) ou para quem prefere ler uma versão resumida, mas altamente poética, como se vê no trecho abaixo:

Oh! Homem, sou o demônio guerreiro Indrajit, difícil de ver. Luto invisivelmente, escondido da tua vista por encantamento. Ataco por trás dos ventos selvagens do mau pensamento; apago muitas luzes desguardadas. Eu te conheço, e as boas obras realizadas em tua vida serão o teu único escudo quando precisares morrer e passar sozinho por mim a caminho do outro mundo. Podes esconder-te à noite, do sol, mas nunca do teu próprio coração, onde vive o senhor Narayana. (…) Dilata o coração. Renuncia à cólera. Acredita-me: teus poucos dias estão contados; faze agora mesmo uma escolha rápida e não penses em outra! Vem, aclara o coração e, prestes, caminha comigo para o seio de Brama, enquanto é tempo”.

Dia 11: Há 94 anos nascia Sergio Porto, imortalizado sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Jornalista e escritor muito bem humorado, é meu muso inspirador nos textos de política. Um verbo afiado, uma verve ímpar e um senso crítico enorme. Ele é o escritor do dia 11 de janeiro. Hoje ele se deliciaria com esse nosso Brasil. Apesar de que, ao lê-lo, dá vontade de ressuscitar seu imortal título: o FEBEAPÁ – Festival de Besteira que Assola o País. Atualíssimo!

Quer se divertir com uma crônica do adorável Stanislaw? Clique aqui!

 

Poe. Foto: Sonia Zaghetto

Dias 12 e 13: Sexta -feira, 13 de janeiro. E os livros 12 e 13 de 2017 são de Edgar Allan Poe: Histórias Extraordinárias (Tales of the Grotesque and Arabesque) e os poemas, com destaque para O Corvo (The Raven). Em português há várias traduções. Eu prefiro a do genial Fernando Pessoa (que você lê aqui).

Poe é o mestre do fantástico e seu trabalho é impregnado de brumas, de morte e mentes transtornadas nas quais ficção e realidade se confundem. Fazem par perfeito com as ilustrações do francês Gustave Doré (nesse link você encontra todos os desenhos geniais de Doré).

Incorporo a esse texto a sugestão de Marcelo Suplicy – um leitor incrível – em que o ator Vincent Price declama o texto original de The Raven. Clique aqui e assista: é excelente!

 

Alice. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 14 – As aventuras de Alice no País das Maravilhas, do romancista, contista, poeta, desenhista, fotógrafo, professor de matemática e… diácono (ufa) Charles Lutwidge Dodgson, conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll. O livro – cuja origem é uma história inventada para a menina Alice Liddell – foi um clássico desde a primeira edição, com seus personagens incríveis, suas metáforas e o mergulho no nonsense. Até a rainha Victoria e Oscar Wilde leram o livro, lindamente ilustrado por John Tenniel. Atenção para dois pontos: 1) é um livro excelente para adultos; 2) não deixe de ler os outros livros de Carroll, especialmente “Através do Espelho e o que Alice encontrou lá “.

Homero. Foto: Sonia Zaghetto

Dias 15 e 16: A Ilíada e a Odisséia são os dois degraus veneráveis onde se inicia a grande escadaria da literatura ocidental. Esses dois monumentos clássicos, atribuídos a Homero, foram compostos por volta do século VIII a.C. A Ilíada narra a ira de Aquiles, seu desejo de se tornar imortal e a Guerra de Tróia. A Odisséia narra a viagem de Ulisses (Odisseu) – o herói dos mil ardis, idealizador do cavalo de Tróia – em sua jornada de volta para seu reino, a ilha de Ítaca.
Inspiradoras de poetas e escritores, as duas epopéias têm diálogos esplêndidos, heróis inesquecíveis e histórias apaixonantes. Livros número 14 e 15 do projeto “Um Livro por Dia em 2017”.

 

Dia 17: Flush: Uma Biografia (Flush: A Biography), da inglesa Virginia Woolf. O livro é uma biografia imaginária do cocker spaniel Flush, que pertenceu à poetisa Elizabeth Barrett Browning. É uma combinação de ficção e não-ficção. Virginia usou dois poemas de Elizabeth sobre o cão e as cartas da poetisa ao marido, Robert Browning.

A partir dessa base real conseguiu fazer experimentos literários e reflexões, traçar um retrato da época vitoriana, da realidade de mulheres intelectuais, da doença da poetisa e de seu casamento com outro esplêndido escritor. Um trecho: “Entre os dois existia o maior abismo que pode separar um ser do outro. Ela falava. Ele era mudo. Ela era uma mulher; ele era um cão. Assim, intimamente ligados; assim, imensamente separados, um encarava o outro. Então, de um salto, Flush subiu no sofá e se acomodou no lugar em que permaneceria para todo o sempre — sobre a manta aos pés da Senhorita Barrett“.
Leia aqui um dos poemas de Elizabeth Barrett Browning para seu cãozinho Flush (em inglês)

Saint-Exupéry. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 18:  Antoine de Saint -Exupéry. Além de O Pequeno Príncipe , ele deixou Terra dos Homens e Cidadela, obra póstuma publicada em 1948 e que reúne meditações e reflexões poéticas. Um rei governa uma cidade em pleno deserto do Saara. Bela metáfora do império interno e do governo pessoal.

Leia aqui, em francês, a íntegra de Le Petit Prince (O Pequeno Príncipe)

Leia aqui, em francês, a íntegra de Citadelle (Cidadela)

 

Dia 19: Mr. Slang e o Brasil, de Monteiro Lobato. Nele, o escritor simula um diálogo com um certo Mister Slang, inglês radicado no Brasil que se dedica a avaliar os problemas do país e indicar soluções. Lobato não economiza no vinagre.
Construído com altas doses de ironia e uma aguda visão sobre o país, o livro deve ser lido hoje com os olhos da época, evitando anacronismos. Mas é chocante notar que, quase cem anos depois, praticamente nada mudou no painel geral da vida nacional.

As opiniões expressas pelo Sr. Slang – que traduzem as críticas de Lobato ao governo de Artur Bernardes e à atitude geral dos brasileiros – permanecem, em sua maioria, atualíssimas. O texto inteligente e as opiniões fortes versam sobre a pesada carga tributária; a imprensa paga por governos; a corrupção generalizada, os abusos de autoridade; os jovens brasileiros que já sonham entrar na vida “aposentados” integrando o serviço público (“monstruoso parasitismo burocrático que aqui rói, como piolheira, o trabalho dos que ainda trabalham”); a falta geral de espírito empreendedor; além das ainda hoje remanescentes doenças: sífilis, malária, doença de Chagas.

Veja 10 frases que demonstram a atualidade do texto:

1. “O Brasil é o país mais rico do mundo… em hematófagos transmissores de doenças letais”.
2. “O Brasil é a terra onde um parafuso qualquer da máquina governamental, prefeito ou ministro de Estado, tem o direito de “ousar tudo”, escudado pela mais completa irresponsabilidade”.
3. “Exige-se habilitação para tudo, menos para dirigir o país”.
4. “Parece-me que esses políticos não se sustentam na sociedade com o apoio das pedras, das árvores, do ar, das coisas, em suma, e sim das pessoas – cujo conjunto tem o nome de povo”.
5. “O brasileiro anda muito afastado do regime de pensar por si, de meditar sobre uma ideia até que a tenha madura no cérebro e articulada com todas as demais ideias que o povoam. Seria impossível um Newton por aqui. Ao invés de pensar, vocês leem – leem coisas que, por mal pensadas, vão contribuir para a formação da maçaroca”.
6. “Ser representante do povo constitui apenas uma profissão altamente remunerada. Essa função, como tudo mais, degenerou aqui em parasitismo”.
7. “Há “ladrões” em excesso na caixa d’água do Tesouro deste país. O dinheiro se escoa em pura perda por milhares de canalículos insidiosos, com prejuízo da nação e das obras públicas”.
8. Não há crime no Brasil. O mesmo fato, tido como crime horrendo por uns, é louvado por outros. Matar, desviar dinheiros públicos ou saquear são atos que ainda não constituem crime no Brasil. O crime brasileiro, por enquanto, é um só: divergir do governo”.
9. “Costumo periodicamente descansar do Brasil. O ano passado foi na Suécia, mas cansei-me logo. A ordem que lá reina é excessiva. Mata o pitoresco. Ao cabo de três semanas voltei, saudoso desse maravilhoso Éden dos imprevistos”
10. “Legiões de criancinhas morrem como bichos (…) e nós abrimos subscrições para restaurar bibliotecas belgas”.
P.S. Inclui também frases de um segundo livro de Lobato: Problema Vital.

Dia 20: Dom Quixote de la Mancha (El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha, no título original), de Miguel de Cervantes, é o vigésimo livro de 2017. Publicado em 1605, em Madrid, narra a história de D. Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura. Um dos mais importantes livros já produzidos pela humanidade, é a obra máxima da língua espanhola, por sua universalidade, refinamento e grandeza.
Na história, o cavaleiro idoso tanto lê romances de cavalaria que acaba por perder o juízo. Decide, então, tornar-se um cavaleiro andante e parte pelo mundo em companhia de Sancho Pança, seu fiel escudeiro e amigo, que faz o contraponto aos delírios do protagonista. Nas terras da Mancha, de Aragão e da Catalunha, as fantasias de D. Quixote chocam-se com a realidade impiedosa e resultam em surras e toda sorte de desventuras. Ele enxerga na camponesa Aldonza Lorenzo uma grande dama (Dulcineia del Toboso), acredita que seu desengonçado cavalo Rocinante é um magnífico corcel; confunde hospedarias modestas com castelos e ovelhas com mouros; e os moinhos de vento lhe parecem gigantes.
O hábil Cervantes consegue unir no livro reflexão profunda, humor e lirismo. Leitura obrigatória. Eterna. Indispensável.
As ilustrações são de Gustave Doré (neste link, você vê todas as ilustrações de Doré para a obra imortal de Cervantes).

Sofía e Mann. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 21: A Montanha Mágica (Der Zauberberg), a obra-prima de Thomas Mann e uma das mais extraordinárias peças da literatura alemã, obrigatória em qualquer lista dos mais importantes romances do mundo. É a história de Hans Castorp, jovem engenheiro naval alemão, que visita o primo Joachim Ziemssen num sanatório em Davos, na Suíça. A visita se estende por anos quando Castorp é diagnosticado com tuberculose pulmonar. Durante esse tempo na montanha, o protagonista se afasta de sua vida e seus vínculos anteriores. Temas como a doença, o tempo, o amor e a morte surgem. Mais reflexivo, Castorp também passa a ter um novo olhar sobre a política, a arte, a cultura, a religião e a filosofia. Sobre esse texto tão encantador, um dos leitores mais apaixonados de Mann, meu amigo Sergio Leodoro, comentou: “Este livro me marcou a vida. Tive contato com ele num momento especialmente difícil e nele encontrei muitas respostas para mim mesmo. Eu me identifiquei, no tanto certo, com Hans Castorp. Entendi cada pensamento, desde a narrativa da viagem de trem, indo para a Montanha. Este livro faz-me suspirar não sei de quê – acho que de tudo; e me emociona sempre que falo ou escrevo sobre ele, como agora“. Emocionante, não? Um leitor apaixonado completa o grande ciclo do livro. Vale mais do que qualquer crítica literária.  Na foto, a querida Sofia Ruiz Zapata, que iniciou neste dia seu mergulho nesse livro inspirador. Recomendadíssimo.

 

Lord Byron

Dia 22: Lord Byron. Nunca houve um poeta romântico como Lord Byron. A mais esplêndida figura do romantismo inglês, o autor dos poemas narrativos Don Juan e A Peregrinação de Childe Harold é o autor escolhido para o dia 22 de janeiro, data de seu nascimento.

Aventureiro, aristocrata, belo e amante famoso, além de talentoso poeta, percorreu toda a Europa e participou da Guerra de independência da Grécia contra o Império Otomano, tornando-se um moderno herói grego. Morreu aos trinta e seis anos de idade de uma febre contraída em Missolonghi. Com tal biografia, não é de se admirar que tenha incendiado a imaginação popular do século XIX.

Sua única filha legítima, Ada Lovelace, matemática e escritora, se notabilizou por ter escrito o primeiro algoritmo para ser processado por uma máquina: a famosa máquina analítica de Charles Babbage.

O poeta, portanto, legou à humanidade, além de alguns dos mais belos poemas da literatura inglesa, a primeira mulher programadora da história.

Orwell. Foto: Sonia Zaghetto

Dias 23 e 24: Duas obras obrigatórias de George Orwell e sempre incluídas entre os mais importantes romances da língua inglesa.  A Revolução dos Bichos (Animal Farm), a mais perfeita vacina contra os salvadores da pátria, e 1984 (Nineteen Eighty-Four), a obra-prima do escritor. A Revolução dos Bichos é uma sátira política ao governo de Stálin, na Rússia, mas é perfeitamente aplicável a vários países e governos: os animais de uma fazenda expulsam o fazendeiro e, acreditando nos princípios do Animalismo, tentam criar uma sociedade utópica, mas logo descobrem que seus líderes repetem as mesmas práticas do homem e estabelecem uma ditadura tão corrupta quanto a anterior. Já 1984 é um romance distópico. Num sombrio futuro, em 1984 (o romance foi escrito em 1948), Winston vive oprimido em uma sociedade cujo governo totalitário fiscaliza, controla e pune cruelmente os cidadãos. O romance popularizou termos e conceitos como “Big Brother”, “duplipensar” e “Novilíngua”..

A propósito, George Orwell é o pseudônimo do escritor e jornalista britânico Eric Arthur Blair. Os dois livros merecem releitura constante, assim como todos os demais livros do escritor. Destaco Na Pior em Paris e Londres e Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios e Dias na Birmânia.

De bônus, publico dois textos que traduzi e que são excelentes para quem deseja conhecer melhor George Orwell. O primeiro texto é intitulado A obra-prima que matou George Orwell, de Robert McCrum, editor do The Observer, jornal onde Orwell trabalhou. O texto é de 2010 e traz detalhes incríveis sobre a elaboração de 1984 e sobre os últimos meses da vida de Orwell.
O segundo é um texto do próprio George Orwell e se chama “Uma boa xícara de chá” (A nice cup of tea), no qual ele dá 11 dicas para um chá perfeito. Eu sigo todas.
Dedico a todos os meus amigos que amam Orwell e também o chá. Na foto, além dos livros do escritor inglês, duas de suas dicas para um ótimo chá: bules de porcelana chinesa ou de argila e chá preto de boa qualidade. Estes, apesar de serem de marcas inglesas, são procedentes da Índia e do Ceilão (Sri Lanka), como recomenda o escritor.

1984: a obra-prima que matou George Orwell
A nice cup of tea (uma boa xícara de chá)

Woolf. Foto: Sonia Zaghetto

Dia 25: A escritora do dia é Virginia Woolf, que nasceu no dia 25 de janeiro de 1882. Minha autora favorita escreveu livros inesquecíveis, como Mrs. Dalloway, As Ondas, Os Anos e a obra -prima Orlando. Além de seus textos primorosos – nos quais o idioma recebe esmerada atenção e ela se dedica a experimentações literárias  como o fluxo de consciência e a psicologia do personagem -, Virginia e seu marido Leonard fundaram a Hogarth Press, editora que descobriu T.S Eliot

Também destaco dois ensaios de Woolf que considero leitura essencial, pois no início do século XX trataram, com profundidade e belos argumentos, a condição feminina: A Room of One’s Room e Three Guineas. Deste último tenho a primeira edição inglesa e também a americana. São meus tesouros particulares.

Dias 26 e 27: Dois livros de Ivan Turgueniev. O aristocrata russo tem um dos textos mais fascinantes da história da literatura. Não hesito em concordar com Frank O’Connor, que considera Memórias de um Caçador (Записки охотника) a melhor coletânea de contos já escrita. À impressionante beleza de sua narrativa alia-se a ímpar descrição da natureza e a habilidade de fazer o leitor sentir as histórias, sem que o autor faça qualquer julgamento. Turgueniev é um observador privilegiado, que com aparente simplicidade retira a venda de nossos olhos e nos conduz pela mão até paisagens e personagens que se impregnam em cada leitor.

Kasian da Bela Terra. O personagem foi desenhado pelo próprio Turgueniev.

Ele escreveu os contos com base em suas próprias observações enquanto caçava na propriedade de sua mãe em Spasskoye. Ali testemunhou o abuso dos senhores da terra sobre os mujiques (camponeses) e as injustiças do sistema que os constrangia. Atribui-se a este livro uma forte influência para a emancipação dos servos na Rússia, que ocorreu nove anos após a publicação dos contos. É difícil escolher qual conto é mais belo, mas não deixe de apreciar a maestria de O Prado de Bezhin, Kasian da Bela Terra e de Yermolay e a Esposa do Moleiro. 

A publicação do romance Pais e Filhos (Ottsy i Deti), em 1862, causou grande polêmica. O romance relatava o conflito de um estudante de Medicina, Ievgueni Bazarov, um materialista empenhado em negar o amor, a arte, a religião e a tradição. Ao crer apenas em verdades cientificamente comprovadas pela experiência, entra em conflito com o conservadorismo das gerações mais velhas, embora também contradiga as práticas dos mais jovens. Turgueniev deu a essa atitude o nome de “niilista”, e assim criou a expressão. Pouco após a publicação de Pais e Filhos, iniciou-se na Rússia uma série de atentados, que embora não tivessem qualquer relação com o niilismo dos personagens do livro, foram vinculados à influência deste sobre os jovens. Diz a lenda que um desconhecido gritou um dia ao escritor: “Viste o que os teus niilistas fizeram? Colocaram fogo em São Petesburgo!“. Quando os niilistas da vida real passaram a ser cada vez mais responsabilizados pelas atitudes iconoclastas, Turgueniev decidiu abandonar a Rússia.  Que pena para a Rússia.

Dia 28: Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen voou no dorso das águias, visitou o centro da terra, foi escalpelado por selvagens, enganou ursos e fez um lobo puxar seu trenó. Damas e cavalheiros, sede bem vindos ao livro 27: As Surpreendentes Aventuras do Barão de Munchausen.
Na vida real, o Barão de Munchausen foi um militar e proprietário rural alemão que serviu num regimento russo e lutou em duas guerras turcas. Aposentado, adorava narrar suas aventuras para os amigos. E elas eram tão fantásticas, exageradas e rocambolescas que um de seus ouvintes – o bibliotecário Rudolf Eric Raspe – as reuniu e publicou em uma revista chamada Manual para Pessoas Divertidas.
A edição mostrada na foto é da Cosac Naify e reúne, além dos relatos da célebre série publicada em Londres, em 1785, outras dezessete histórias posteriores e até então inéditas no Brasil.
Divirta -se!
Hannah Arendt. Foto: Sonia Zaghetto

Dias 29, 30 e 31: Hannah Arendt é a autora de hoje. Selecionei três livros essenciais desta que é uma das maiores pensadoras do século 20. Como esta semana ocorreu o dia de lembrar o horror do holocausto, comecemos por Eichmann em Jerusalém, de 1963. O livro reúne os artigos que Arendt escreveu para a revista The New Yorker sobre o julgamento do nazista Adolf Eichmann. Ao contrário do que se imaginava, ela (que era judia e nascida na Alemanha) não retratou Eichmann como um monstro mas alguém terrivelmente “normal”. Um funcionário mediano, burocrata medíocre que se limitou a cumprir as ordens de seus superiores, indiferente às consequências de seus atos e dos que o comandavam. O livro consolidou a famosa tese da banalidade do mal. Apesar de ser judia, Arendt não se eximiu da responsabilidade de expor a dura realidade que havia constatado: a colaboração de algumas lideranças judaicas com o comando nazista e a atitude de praticamente todos os governos europeus perante a exigência nazista de “entregar seus judeus”. Dizer a verdade rendeu-lhe sofrimento, perseguições e ameaças, aos quais ela jamais se curvou.

O segundo livro, Origens do totalitarismo, examina temas como o antissemitismo e o imperialismo europeu, mas a tese central é a aproximação do nazismo e do stalinismo como regimes totalitários que, embora tenham estado em campos opostos durante a II Guerra Mundial, utilizaram táticas semelhantes, valendo-se do terror e da propaganda para explorar e manipular as massas, que se tornaram incapazes de juízo crítico perante os atos do Estado.

A condição humana – nosso terceiro livro – é uma obra mais complexa. Nela, Arendt retoma o conceito grego de “vita activa” para examinar três atividades humanas que ela considera fundamentais: labor, trabalho e ação: o labor é processo biológico necessário para a sobrevivência do indivíduo e da espécie; o trabalho é a transformação de coisas naturais em artificiais que estimulam o consumo e é, portanto, uma criação cultural. Já a ação tem uma natureza social: é a única atividade que se exerce diretamente entre os homens, sem a mediação das coisas ou da matéria, e corresponde à pluralidade. Para Hannah Arendt, todos os aspectos da condição humana estão, de alguma forma, relacionados com a política; mas a pluralidade é a condição específica de toda a vida política.

O ocaso da política na era moderna, as formas de alienação, a constituição de uma sociedade consumista e a diluição da fronteira entre público e privado estão entre os tópicos que ela examina ao longo da obra.

Em resumo, Hannah Arendt exige muita reflexão e desafia o nosso mundo conhecido, e por isso vale demais a pena.

 

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