Um livro por dia em 2017 – Fevereiro

Dia 1 – Monteiro Lobato e a coleção Sítio do Picapau Amarelo.  A obra de Monteiro Lobato destinada ao público infantil é uma das mais ricas da língua portuguesa. Seus personagens retratam um pouco da vida do autor, já que Lobato foi criado em um sítio, chamava-se Bento e era neto de um visconde, o de Tremembé, proprietário de uma enorme biblioteca. As histórias ocorrem em um pequeno sítio no interior do Brasil, onde Dona Benta conta histórias e lendas a seus netos Narizinho e Pedrinho, Tia Nastácia faz incríveis doces, a boneca Emília banca a sabichona e o aristocrático boneco de sabugo de milho, o Visconde de Sabugosa, revela seu conhecimento enciclopédico.  É um mundo encantado de  fantasia e imaginação, onde cultura e conhecimento são peças-chave. Sobre seu trabalho como autor de literatura infantil, vale lembrar a frase famosa de Lobato: “De escrever para marmanjos já estou enjoado. Bichos sem graça. Mas, para crianças, um livro é todo um mundo.” Os livros que compõem a série são: O Saci, Fábulas, As Aventuras de Hans Staden, Peter Pan, Reinações de Narizinho, Viagem ao céu, Caçadas de Pedrinho, História do Mundo para as Crianças, Emília no País da Gramática, Aritmética da Emília, Geografia de Dona Benta, História das Invenções, Dom Quixote das Crianças, Memórias da Emília, Serões de Dona Benta, O Poço do Visconde, Histórias de Tia Nastácia, O Picapau Amarelo, O Minotauro, A Reforma da Natureza, A Chave do Tamanho, Os doze trabalhos de Hércules (dois volumes) e Histórias Diversas. 

Dias 2, 3 e 4- Cecília Meireles. Recomendo a obra completa, embora hoje eu dê destaque para o Romanceiro da Inconfidência e a tradução primorosa para The Post Office (O Carteiro do Rei), de Rabindranath Tagore.

Cecília é uma escritora rara. Seu talento literário põe graça e beleza em tudo o que ela escreveu: sejam poemas, textos em prosa, artigos de jornal ou traduções. A arte de Cecília é como luz que aclara os dias, dá brilho novo às palavras e faz a gente pensar profundamente ou alçar voos em sonhos. Seu lirismo é único na literatura brasileira. De suas mãos o texto flui e docemente se instala na alma do leitor, com tal pureza e sinceridade que é impossível não se deixar enredar por seu encanto. Da vasta obra da maior poetisa brasileira, sugiro a leitura de Baladas para El-Rei; Saudação à menina de Portugal; Batuque, samba e MacumbaA Festa das Letras; Viagem; Olhinhos de Gato (autobiográfico); Vaga Música; Mar Absoluto; Amor em Leonoreta; Doze Noturnos de Holanda; Poemas Escritos na Índia; Batuque; Pequeno Oratório de Santa Clara; Canções; Giroflê, Giroflá; Romance de Santa Cecília; A Rosa; Metal Rosicler; Poemas de Israel; Ou Isto ou AquiloPoemas Italianos; Flor de PoemasElegias; Flores e Canções; e Canção da Tarde no Campo.

Destaco hoje um dos melhores livros de Cecília – o Romanceiro da Inconfidência, uma coletânea de poemas que narra a história de Minas Gerais desde a descoberta do ouro no século XVII até a Inconfidência Mineira. São 85 “romances” e quatro “cenários”, além de prólogo e êxodo. Nada se compara a este livro na história da literatura brasileira. Nele, Cecília se supera ao narrar as infelizes trajetórias de Tiradentes e dos demais inconfidentes, e as tragédias que se abateram sobre tês poetas: a morte infame de Claudio Manuel da Costa; o amor arrancado em pleno viço, às vésperas do casamento de  Tomás Antônio Gonzaga com sua amada Dorotéia (foi lá que eu soube que o poeta de Marília de Dirceu bordava, ele mesmo, o vestido de noiva da mulher amada); e a sentença que decretou o fim do casamento de dois poetas, Alvarenga Peixoto e Bárbara Heliodora. Esta, após o degredo do marido, conta-se que percorria as ruas de Vila Rica, louca e linda, incapaz de suportar tão grande dor, até morrer vítima da tuberculose.  Mas Cecília vai além e fala de D. Maria, a louca,

Leia alguns trechos do Romanceiro:

Ela era a Estrela do Norte, ela era Bárbara, a bela… (Secava-lhe a tosse o peito, queimava-lhe a febre a testa.) Agora, deitam-na, exausta, num simples colchão de terra. Nove padres vão rezando sobre o seu pálido corpo. E os vultos já se retiram, e a pedra cobre-lhe o sono, e os missais já estão fechados e as velas secam seu choro.   D. Maria I a louca, na altura Rainha de Portugal. (Trecho sobre o enterro de Bárbara Heliodora)

Estrela de aurora, fonte matinal, já vistes e ouvistes desventura igual? A agulha partiu-se. Quebrou-se o dedal. Romperam-se as flores – a que vendaval. (Trecho sobre Gonzaga e Marília)

A terra tão rica e – ó almas inertes! – o povo tão pobre… Ninguém que proteste! (Do animoso Alferes)

Estes branquinhos do Reino nos querem tomar a terra: porém, mais tarde ou mais cedo, os deitamos fora dela. (Do sapateiro)

Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta; que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda. (Da bandeira da Inconfidência)

Dona Maria Primeira, aqueles que foram salvos não vos livram do remorso deste que não foi perdoado.. (Pobre Rainha colhida pelas intrigas do Paço, pobre Rainha demente, com os olhos em sobressalto, a gemer: “Inferno… Inferno…“ com seus lábios sem pecado. (Do Caminho da Forca)

Por fim, falemos de uma tradução de Cecília, publicada pelo MEC em 1962: O Carteiro do Rei. O texto original, The Post Office, é uma peça teatral do poeta indiano Rabindranath Tagore, prêmio Nobel de Literatura de 1913. Narra a história de Amal, um menino órfão, adotada pelo tio Madhav e confinado a permanecer em casa devido a uma doença incurável. De sua janela, Amal – vivaz, sábio e encantador – conversa com os transeuntes, perguntando para onde vão e o que fazem da vida. As conversas com o leiteiro, a menina que vende flores e o vigia são metafóricas. A construção de um novo posto dos correios leva Amal a acreditar que vai escrever ao rei e dele receber uma resposta. A criança sonha em ser curada pelo médico real e, ao crescer, vir a ser carteiro do soberano, levando sua mensagem de porta em porta. O chefe da vila, um valentão, zomba de Amal e finge para a criança analfabeta que recebeu a resposta do rei, prometendo que o médico real viria para atendê-lo. Para surpresa geral, o médico realmente chega à aldeia. E com ele um arauto para anunciar a chegada iminente do soberano. Amal já está em seus momentos finais. Aguarda apenas a chegada do rei para seguir com ele. O poeta W.B. Yeats foi o primeiro a produzir uma versão em inglês da peça e André Gide a traduziu para o francês. Na Alemanha, durante a II Guerra Mundial, os temas de libertação do cativeiro e entusiasmo pela vida ressoaram fortemente em apresentações feitas nos campos de concentração. Inclusive, o texto foi lido em uma emissora de rádio na noite anterior à tomada de Paris pelo Exército de Hitler. Uma versão polonesa foi executada sob a supervisão de Janusz Korczak no gueto de Varsóvia, no mesmo período.

Há tantos simbolismos neste texto ímpar, tantas referências delicadas e tanta sabedoria que somente alguém como Cecília Meirelles poderia traduzi-lo em nosso idioma. A obra está esgotada, mas a vale a pena procurá-la. Há uma pequena jóia escondida no Brasil: busque-a.

 

Dia 5. A Paixão Segundo G.H, de Clarice Lispector. Não há, em toda a história da literatura brasileira, livro mais perturbador que a A Paixão Segundo G.H. Uma viagem vertiginosa pela alma da personagem-título, salpicando angústia no leitor. De início, Clarice adverte: “Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.”

É uma advertência preciosa. G.H. Não é uma leitura fácil. A maturidade literária de Lispector está no auge. O fluxo de consciência permeia todo o livro. Em suas mãos, a linguagem recebe honras imensas e as palavras ganham garras capazes de ferir, arrancar crostas quase consolidadas e desnudar almas, revelando segredos cuidadosamente ocultos. Há muita reflexão filosófica – quase metafísica – em um texto que traduz a viagem pelo psiquismo da personagem que busca respostas sobre si mesma, reflete sobre os condicionamentos sociais e culturais e desafia a matéria da vida.

Escrito em primeira pessoa, o romance tem um enredo aparentemente simples. Depois de despedir a empregada, uma mulher, identificada apenas como G.H, vai fazer uma faxina no quarto de serviço de sua cobertura. A partir desse mero ato cotidiano, Lispector abre os portais para a inquietante jornada interior da personagem. O jornalista e escritor José Castelo resume o enredo: “Mal começa a limpeza, depara com uma barata. Tomada pelo nojo, ela esmaga o inseto contra a porta de um armário. Depois, numa espécie bárbara de ascese, decide provar da barata morta. Ao esmagar a barata, e depois degustar seu interior branco, operou-se em G.H. uma revelação. O inseto a apanhou em meio a sua rotina “civilizada”, entre os filhos, afazeres domésticos e contas a pagar, e a lançou para fora do humano, deixando-a na borda do coração selvagem da vida. Esse desejo de encontrar o que resta do homem quando a linguagem se esgota move, desde o início, a literatura de Clarice. Mesmo sem ser um livro de inspiração religiosa, G.H. tem, ainda, um aspecto epifânico. Ao degustar a pasta branca que escorre da barata morta, a protagonista comunga com o real e ali o divino – a força impessoal que nos move – se manifesta. E só depois desse ato, que desarruma toda a visão civilizada, G.H. pode enfim se reconstruir. O escritor argentino Ricardo Piglia disse certa vez que toda a literatura pode ser reduzida a dois gêneros fundamentais: as narrativas de amor e as narrativas de mistério. Em G.H., essas duas claves básicas da ficção se entrelaçam. Pois é justamente a mistura letal de amor e mistério que chamamos de paixão“.

Preste atenção nas reflexões e descobertas da personagem perante detalhes banais do cotidiano. Eis um deles: ao entrar no cômodo, G.H. tem a sua primeira surpresa: o quarto está limpo, branco tal qual uma cela de hospício. Um quarto diferente do restante do apartamento, ele assinala o portal entre dois mundos mentais. Na parede há um mural. São três desenhos feitos a carvão – um homem, uma mulher e um cachorro. A metáfora dos desenhos crus, da invisibilidade da empregada, da coragem de encarar a natureza da barata, de digeri-la e cuspi-la são momentos altos do livro, em que autoconhecimento e libertação psicológica alcançam seu ápice.

Leia alguns trechos desse livro, que considero a obra-prima de Clarice.

“Não contei que, ali sentada e imóvel, eu ainda não parara de olhar a barata com grande nojo, sim, ainda com nojo, a massa branca amarelecida por cima do pardacento da barata. E eu sabia que enquanto eu tivesse nojo, o mundo me escaparia e eu me escaparia. Eu sabia que o erro básico de viver era ter nojo de uma barata. Ter nojo de beijar o leproso era eu errando a primeira vida em mim — pois ter nojo me contradiz, contradiz em mim a minha matéria.”

“Crispei minhas unhas na parede: eu sentia agora o nojento na minha boca, e então comecei a cuspir, a cuspir furiosamente aquele gosto de coisa alguma, gosto de um nada que no entanto me parecia quase adocicado como o de certas pétalas de flor, gosto de mim mesma.”

“Não quero a meia-luz, não quero a cara benfeita, não quero o expressivo. Quero o inexpressivo. Quero o inumano dentro da pessoa; não, não é perigoso, pois de qualquer modo a pessoa é humana, não é preciso lutar por isso: querer ser humano me soa bonito demais. Quero o material das coisas. A humanidade está ensopada de humanização, como se fosse preciso; e essa falsa humanização impede o homem e impede a sua humanidade. Existe uma coisa que é mais ampla, mais surda, mais funda, menos boa, menos ruim, menos bonita. Embora também essa coisa corra o perigo de, em nossas mãos grossas, vir a se transformar em “pureza”, nossas mãos que são grossas e cheias de palavras.”

“Eu parara de suar, de novo eu toda havia secado. Procurei raciocinar com o meu nojo. Por que teria eu nojo da massa que saía da barata? não bebera eu do branco leite que é líquida massa materna? e ao beber a coisa de que era feita a minha mãe, não havia eu chamado, sem nome, de amor?”

“Sabia que teria que comer a massa da barata, mas eu toda comer, e também o meu próprio medo comê-la. Só assim teria o que de repente me pareceu que seria o antipecado: comer a massa da barata é o antipecado, pecado seria a minha pureza fácil. O antipecado. Mas a que preço. Ao preço de atravessar uma sensação de morte.”

Dia 6 – Machado de Assis. O maior escritor brasileiro de todos os tempos merece ter toda a sua obra lida com reverência. Das obras-primas em romance – como Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas BorbaEsaú e Jacó e Memorial de Aires – a seus magistrais contos e crônicas, tudo em Machado de Assis traz a marca da excelência. Ele transitou com graça por praticamente todos os gêneros literários: escreveu nove romances e peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas. Também foi folhetinista, jornalista e até se aventurou a escrever libretos de ópera. Seus comentários certeiros sobre os eventos político-sociais de seu tempo estão entre as mais deliciosas crônicas da época.

Não há como escapar à magistral composição do enredo de Dom Casmurro, que dialoga com o Otelo, de Shakespeare e até hoje rende teses psicanalíticas e literárias. Igualmente é impossível negar a grandiosidade de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Machado dominava sua arte como poucos. Um texto exato, em que nada sobra ou falta. Único. Alta literatura e orgulho nacional.

Recomendadíssimos também são seus livros de contos, onde alcança o patamar dos grandes mestres mundiais do gênero. São obrigatórios: Contos FluminensesHistórias da Meia-NoitePapéis Avulsos, Histórias sem Data, Várias HistóriasPáginas Recolhidas e Relíquias da Casa Velha.

A obra completa de Machado de Assis está disponível online gratuitamente. Basta clicar aqui.

Dia 7. Menino de Engenho, de José Lins do Rego. Primeiro livro do ciclo da cana-de-açúcar, publicado em 1932, Menino do Engenho é a estréia em romance do paraibano José Lins do Rego. A intenção inicial do autor era escrever a biografia de seu avô, coronel José Paulino, que ele considerava uma figura representativa do patriarcado nordestino; e as cenas de sua infância no engenho. Mas o romance, narrado em primeira pessoa pelo personagem Carlos Melo, é envolvido pela criatividade do romancista e cresce, traçando um retrato vivo de um tempo que já se foi. E assim, surge do leitor um lirismo delicado que traduz a realidade crua da vida de uma criança, órfã de pai e mãe, que, aos oito anos de idade, vai viver com o avô, o maior proprietário de terras da região. Lins do Rego equilibra uma tristeza difusa, em que permeiam solidão e um profundo sentimento de perda e saudade, com as alegres descobertas da infância que descobre um mundo novo. Já na cena inicial, do crime passional que deixa órfão o menino Carlos, é possível sentir a força do texto de José Lins do Rego.

Do romance disse Blaise Cendrars: “Sinto-me incapaz de contar a vocês como é escrito. Não há frases, quase que não há palavras e as que são usadas são tão correntes e apagadas como pobres vinténs e é difícil acreditar que encerrem um valor suficiente para exprimir o que uma alma de criança tem de mais precioso a dizer e a formar um tesouro. Quase que tudo está coberto por uma terra ardente que irradia tristeza sob a felicidade de viver, de existir. Não sei como acontece isto, mas quando leio estas páginas, passarinhos saltitam de uma linha para outra. Meu sangue bate mais depressa, Todo o Brasil está neste livro transparente“.

Deixemos, ainda, que Carlos Drummond de Andrade nos dê sua opinião sobre José Lins do Rego: “Era um romancista fabuloso, no sentido de que o humilde material nordestino de que ele se servia ganhava contornos de fábula, uma fábula apaixonante como a dos contos populares que a tradição familial brasileira costumava transmitir (será que ainda transmite?) às crianças. Sua narrativa tem quase o estilo oral dessas ‘estórias’, sem invenções literárias que interessem por si, e a sensação de alegria de ‘ouvir’ domina o leitor — mas uma angústia nova, diferente dos sustos ingênuos que os casos folclóricos ministravam, fica pregada a quem leu. Os romances mais autênticos de José Lins, os de sua infância dramatizada, dos quais Fogo morto é como um epílogo magistral, continuam doendo depois de lidos, porque a narrativa foi além da simples diversão aparente. O romancista colocou largamente sua presença entre os acontecimentos, seja de forma direta, seja através de impressões e modos particulares de ver e sentir; ofereceu-se em confidencia, tocou-nos. Só isso? Não. Seu caso pessoal se insere numa paisagem, numa cultura, numa fase econômica e política, que passam a viver em representação dramática a nossos olhos, despercebidos até então do caráter trágico do panorama, ou ainda não habituados a encontrar toda essa tragicidade em termos (tão simples) de ficção. Coube a José Lins nascer e passar a infância num período de crise, isto é, de romance em potencial, em que uma forma de viver se despedia de toda uma região. O sentimento agudo do ficcionista captou os conflitos gerados por esse desmoronamento silencioso (a transformação não era revolucionária, mas por desgaste, e poderia mesmo passar despercebida), e construiu com eles alguns livros cuja sorte independe de revisões estéticas, porque são o encontro afortunado de uma situação, de uma experiência e de um dom de narrador. Se José Lins se debruçasse mais sobre si mesmo do que sobre as coisas, se fosse mais sutil ou requintado, como desejariam alguns, esse ajustamento espontâneo não seria talvez possível, e nossa literatura teria perdido um de seus monumentos.”

Dias 8 e 9 – Sagarana e Grande Sertão: Veredas. De João Guimarães Rosa.

Difícil descrever o que é a literatura de João Guimarães Rosa. Sua inventividade, ritmo e beleza fazem os adjetivos se tornarem pobres. Em suas mãos hábeis as palavras deslizam, fazem piruetas e se empoleiram em um reino desconhecido. O romance Grande Sertão: Veredas – uma das jóias mais raras da literatura brasileira – tem mais de 600 páginas, não tem divisão em capítulos e se encerra deixando no leitor a felicidade indizível que decorre do contato com um clássico.

Não pense que é fácil lê-lo. Aliás, é dificílimo: exige concentração, amor às letras, inteligência. João Guimarães Rosa faz profundos experimentos linguísticos ao mergulhar no tema regionalista e emergir com uma das obras mais emblemáticas da língua portuguesa. Já é praxe dizer que, não fosse escrito em português e tão difícil de traduzir, constaria em todas as listas dos melhores livros do mundo. Ah, sim, o planeta inteiro se curvaria perante João. Mas, enquanto russos e chineses não o descobrem, fiquemos com o João só para nós. Apenas quem é falante nativo dessa nossa flor do Lácio poderá compreendê-lo, de fato, em sua profunda riqueza.

A abertura de Grande Sertão já anuncia que Guimarães Rosa sequestrou e mantém cativa a alma do mineiro do interior, dominou-lhe os modos de expressão e, do alto de seu intelecto de diplomata e homem de letras refinado, vai nos descortinar esse mundo tão próximo e, simultaneamente, tão distante da realidade urbana e de outras regiões. A fala é apenas a forma escolhida para traduzir esse espírito e a cultura em que está inserido:

_ Nonada, tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar.

 O romance narra a história de Riobaldo, que conta sua vida de jagunço a um ouvinte não identificado, cujas falas são apenas sugeridas. E ele desfia a saga de disputas, amores, vinganças, viagens e mortes que testemunhou em suas andanças pelo sertão de Minas Gerais, Goiás e Bahia. A existência do diabo, a quem Riobaldo vendeu sua alma em tempos idos, assombra o texto.
 
A certa altura surge Diadorim, amigo de infância por quem o protagonista nutre um afeto “diferente”, que não combina com a crueza sertaneja. A história segue com o assassinato de Joca Ramiro. Riobaldo jura vingança e persegue o assassino Hermógenes e seus homens , ao mesmo tempo em que cresce seu amor por Diadorim. O restante é uma das almas do enredo e não vou contá-la.
 
Quanto a Sagarana, é composto pelos contos O Burrinho Pedrês, A Volta do Marido Pródigo, Sarapalha, Duelo, Minha Gente, São Marcos, Corpo Fechado, Conversa de Bois e A Hora e Vez de Augusto Matraga. É hipnotizante igualmente. Nessa edição da foto, que é a que tenho em casa, há um texto de Graciliano Ramos explicando a gênese do texto.

Veja que encanto é esse trecho, tão lírico, e que traduz fielmente a alma simples e sábia que Rosa tanto amou.

Lá em cima daquela serra,
passa boi, passa boiada,
passa gente ruim e boa,
passa minha namorada

Dia 10. Olavo Bilac. Quem o vê nas fotos antigas, tão sisudo, tão fechado, jamais poderia adivinhar o espírito pândego e boêmio, o bom humor e a leveza deste poeta maravilhoso. O nome dele é um verso dodecassílabo e ainda por cima alexandrino! Muito digno do maior nome do Parnasianismo brasileiro: Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac.

Quando ler seus poemas, onde os temas encantadores dão as mãos à perfeição da forma, lembre-se que por detrás daquela aparência estava um aventureiro e simultaneamente, um intelectual respeitável.

Bilac era uma celebridade em sua época. Foi  ele o autor da letra do “Hino à Bandeira”e, acredite, foi o primeiro motorista a sofrer um acidente de carro no Brasil. Ele perdeu o controle do seu automóvel Serpollet e bateu contra uma árvore na Estrada da Tijuca, no Rio de Janeiro. Mas, o que importa isso diante desse mestre das palavras?

Abaixo você lê três dos mais belos poemas do nosso Príncipe dos Poetas, mas se quiser ler mais de Bilac, clique neste link e faça o download da obra completa:

Nel mezzo del camin

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Língua portuguesa
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Via Láctea
 
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” e eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
 
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
 
Direis agora: “tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
 
E eu vos direi: “amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.
Carlos Drummond de Andrade em sua casa por ocasião da homenagem aos seus 80 anos , em 1982

Dia 11. Carlos Drummond de Andrade. Não há como escolher um livro só de nosso poeta máximo. Carlos Drummond tornou-se mestre na arte de transformar em crônicas adoráveis e versos sentidos o que lhe ia pela alma. E era uma habilidade tão grande, uma intimidade tal com as palavras, que cada poema se tornava confessionário, hora do ângelus, mesa de café da manhã com a família. Itabira está presente, assim como o cheiro do café de Minas, os jogos todos da existência, as praias do Rio de Janeiro, as estantes de livros, o repicar de um sino distante e os segredos da vida, com suas torturas e risos. Sob seu comando, os mortos voltavam à vida e os sonhos se convertiam em realidade. Uma poesia densa, carregada de saudade e de inquietações, um lirismo delicado, um bom humor que se alternava com momentos meditativos sobre a vida e a morte – como não reverenciar tal grandeza?

De seus muitos livros, selecionei meus favoritos: Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), A Bolsa e a Vida e Antologia Poética (ambos de 1962), José e Outros (1967), Contos Plausíveis (1981) e  Boca de Luar (1984).

Abaixo, você encontra quatro de seus mais conhecidos poemas:

Poema das Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
[esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;]*
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

12. Cruz e Souza. Nosso primeiro poeta negro tem um jeito de escrever que não narra: evoca, instiga a imaginação, planta imagens oníricas na mente do leitor. Cisne Negro o chamavam, mas quem de fato o compreendeu? Nome maior do simbolismo nacional, teve uma vida dura, marcada por perdas e forte preconceito – e sua tristeza transbordou para seus textos. Filho de escravos alforriados, foi tutelado do marechal Guilherme Xavier de Sousa e de sua esposa, Dona Clarinda, que não pouparam recursos para dar a mais refinada educação ao pequeno João: francês, inglês, latim e grego, além de um mestre alemão, Fritz Müller, que lhe ensinava Matemática e Ciências Naturais.

A fina flor da educação de João da Cruz e Sousa, entretanto, foi sufocada em uma terra marcada pelo preconceito racial: no país a escravidão ainda existia.

A crítica literária não o poupou, nem os empregadores. Antes mesmo da Abolição, lançou o primeiro livro, “Tropos e Fantasias”. Seguiram-se “Missal” e “Broquéis”. Era uma poesia profunda, de cores fortes, encharcada de dor, mas que por vezes, inesperadamente, adquiria tons diáfanos e vozes espirituais. Evocava formas claras, translúcidas, como se sopros de anjos tomassem os dedos do poeta. Poucos notaram tal riqueza. Somente depois de morto é que lhe reconheceram o talento notável.

Os críticos mais cruéis – Silvio Romero e José Veríssimo – fizeram suas tentativas canhestras de reparar o grande mal que causaram ao poeta catarinense. Tarde demais. Havia partido de uma vida de extrema dor, que a poesia tocou com dedos diáfanos. Cruz e Souza morreu jovem, aos 36 anos de idade, depois de ver a esposa, Gavita, enlouquecer com a morte de seus quatro filhos, vítimas da tuberculose. A doença também o levou.

O poema Vida Obscura, claramente autobiográfico e que consta do livro Últimos Sonetos, traduz bem o sentimento de desamparo do nosso poeta mais maltratado. Ele o escreveu às vésperas de morrer.

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,

ó ser humilde entre os humildes seres.

Embriagado, tonto dos prazeres,

o mundo para ti foi negro e duro.

.

Atravessaste no silêncio escuro

a vida presa a trágicos deveres

e chegaste ao saber de altos saberes

tornando-te mais simples e mais puro.

.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,

magoado, oculto e aterrador, secreto,

que o coração te apunhalou no mundo.

.

Mas eu que sempre te segui os passos

sei que cruz infernal prendeu-te os braços

e o teu suspiro como foi profundo!

Leia aqui a obra completa de Cruz e Souza.

Abaixo, três poemas selecionados.

Acrobata da dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta …

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d’aço. . .

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

Ironia de Lágrimas

Junto da morte é que floresce a vida!
Andamos rindo junto a sepultura.
A boca aberta, escancarada, escura
Da cova é como flor apodrecida.

A Morte lembra a estranha Margarida
Do nosso corpo, Fausto sem ventura…
Ela anda em torno a toda criatura
Numa dança macabra indefinida.

Vem revestida em suas negras sedas
E a marteladas lúgubres e tredas
Das Ilusões o eterno esquife prega.

E adeus caminhos vãos mundos risonhos!
Lá vem a loba que devora os sonhos,
Faminta, absconsa, imponderada cega!

Antífona

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…
Incensos dos turíbulos das aras
Formas do Amor, constelarmante puras,
De Virgens e de Santas vaporosas…
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas …

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume…
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes …

Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente…
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas…
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas…

Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos…

Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios…
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios…

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte…

13. Castro Alves, Os EscravosLi este livro quando ainda era criança, aos dez anos de idade. Naquele tempo, eu chorei. Ainda hoje me é impossível lê-lo sem que as lágrimas venham visitar meus olhos. Há uma tal sensibilidade perante o sofrimento alheio que é impossível não se comover nos 34 magníficos poemas que compõem o livro. O poeta usa toda a sua capacidade dramática e seus altos vôos literários para sacudir o comodismo de uma sociedade insensível à tragédia africana após três séculos de escravidão.

Como evitar o soluço diante da dor que pulsa em “A cruz da estrada”, “A mãe do cativo”, “Tragédia no Lar” e “A órfã na sepultura”? Como não se deslumbrar diante da voz grandiosa que fala em “Vozes d’África”e “O Navio Negreiro”? Como não tremer perante “A visão dos mortos”?

 Os Escravos é um livro sobre a grandiosidade de ser livre e o esmagamento do cativo em vários aspectos. Chama a atenção para a postura cruel, despida de empatia, e sobre as consequências sociais e humanas do descarte dos idosos escravos ou dos fugitivos que apelavam para a violência a fim de se defender. Publicado em 1883, doze anos após a morte do poeta, trata de amores partidos, amizades rompidas, saudades e perdas. Além de narrar o horror da escravidão no Brasil, Castro Alves escreve sobre o valor da liberdade em outras circunstâncias, como em “O derradeiro amor de Byron”. Antes de Os Escravos, já havia sido publicado A Cachoeira de Paulo Afonso (1876), no qual o drama do amor entre os africanos Lucas e Maria já buscava sensibilizar o organismo social para o dantesco cenário da escravidão no País. Castro Alves morreu aos 24 anos de idade. Sempre imagino sua felicidade se tivesse vivido o suficiente para testemunhar a abolição da escravatura no Brasil.

Para ler a obra completa de Castro Alves, clique aqui. E deleite-se com a transcrição, abaixo, de dois trechos de “Navio Negreiro“.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
(…)

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!…
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

14. Aluisio Azevedo, O cortiço. Fatalista e abordando temas como lesbianismo, incesto, racismo, adultério e prostituição, O Cortiço desvela as relações socio-econômicas e familiares de então. Romance máximo do Naturalismo no Brasil, seus 23 capítulos são uma alegoria do país no século XIX e relatam, de forma crua, a vida em uma habitação coletiva de pessoas pobres (cortiço) no Rio de Janeiro. Entre as várias histórias paralelas estão a do português ambicioso (João Romão), do burguês decadente (Miranda), da escrava que sonha com a liberdade (Bertoleza), do português explorado (Jerônimo). Tudo é envolvido na onipresente miséria e por um clima de furor sexual, cenário de um cotidiano de pequenos horrores no qual surgem vívidas descricões de costumes, falares e práticas.
Ao ser lançado, em 1890, o romance foi um tremendo sucesso. Inclusive porque era diretamente influenciado por “L’Assommoir” do francês Émile Zola. Ambos fazem uma crítica contundente à realidade que consideram corrompida e, como todo naturalista, Aluísio apregoa sua tese sobre o meio corrompendo os homens. Uma leitura obrigatória.
– Uma leitura obrigatória.

Leia aqui a obra completa.

15. Jorge de Lima. Invenção de Orfeu.  Com 11.055 versos e estruturado em dez cantos, o testamento literário de Jorge de Lima é, sem sombra de dúvida, um dos mais belos poemas da língua portuguesa.

Invenção de Orfeu é ousado e geralmente agrada aos amantes de alta literatura. Causou intenso debate, perplexidade e estudos nos meios literários e acadêmicos ao retomar o  mito grego de Orfeu a fim de refletir sobre a criação artística.

Barroco é o melhor adjetivo para este poema longuíssimo, em que épico e lírico se dão as mãos e Jorge de Lima demonstra todo o seu domínio da técnica ao escrever em versos brancos e em rimas, redondilhas, sextilhas, oitavas, terça rima, alexandrinos e tudo o mais que a arte poética inventou. Sonetos, baladas, cançonetas, dramas e farsas? Está tudo lá. Assim como os temas que se acumulam, caóticos. Vão da antiguidade clássica e da Bíblia a um diálogo com os maiores poetas de épocas diversas.

Abaixo, alguns versos do Canto X, Poema IV:

Quem sopra essas montanhas?

Quem voa esse poema?

(…) Há qualquer coisa vindo além dêsse poema,

no bojo dessa noite, na esquina desse dia.

Médico e profundamente religioso, Jorge de Lima foi recusado seis vezes pela Academia Brasileira de Letras – um dos maiores equívocos da história da agremiação. O poema pelo qual ficou famoso é Essa negra Fulô, que você lê abaixo:

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

“Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco”.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
“minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou”.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dele pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!

 

16. Claudio Manuel da Costa. Ao lado de Tomás Antonio Gonzaga, destacou-se como um dos poetas da fase do Arcadismo brasileiro. Também com Gonzaga envolveu-se na Inconfidência Mineira – o que lhe custou a vida.

Advogado de prestígio, rico, tradutor e dedicado às letras, fez sua formação intelectual na Universidade de Coimbra. Sob o pseudônimo de Glauceste Satúrnio fez poemas neoclássicos para sua musa Nise. Seu mais famoso poema é o longo épico-clássico Vila Rica, escrito em 1773, inspirado pelo poema O Uraguai, de Basílio da Gama, e por Os Lusíadas, de Luís de Camões.

Após a prisão dos inconfidentes, Claudio Manuel foi encontrado morto em sua cela. A Coroa portuguesa declarou que ele se suicidara, mas há teses que apontam para  assassinato. A morte do poeta permanece um mistério até hoje e a cela em que ele morreu pode ser visitada em Ouro Preto (MG).

Abaixo você lê um dos sonetos de Claudio Manuel da Costa.

Estes os olhos são da minha amada:
Que belos, que gentis, e que formosos!
Não são para os mortais tão preciosos
Os doces frutos da estação dourada.

Por eles a alegria derramada,
Tornam-se os campos de prazer gostosos;
Em zéfiros suaves, e mimosos
Toda esta região se vê banhada;

Vinde, olhos belos, vinde; e enfim trazendo
Do rosto de meu bem as prendas belas,
Dai alívios ao mal, que estou gemendo:

Mas ah delírio meu, que me atropelas!
Os olhos, que eu cuidei, que estava vendo,
Eram (quem crera tal!) duas estrelas.

Leia aqui a obra completa de Claudio Manuel da Costa

 

17. Tomás Antonio Gonzaga. Marília de Dirceu. O livro é a obra poética de um homem apaixonado, encantado por uma jovem mulher e que se prepara para o casamento bordando com fios de ouro o vestido da noiva.
Gonzaga também sonhava – como os demais inconfidentes – em repetir o feito dos norte-americanos e tornar o Brasil independente. Na nova ordem, ele e sua Marília (a senhorinha Maria Dorotéia de Seixas Brandão) teriam uma vida venturosa. Não aconteceu.

Traído o movimento mineiro, o poeta foi preso e condenado ao degredo em Moçambique. Lá, em 1793, casou-se com uma rica herdeira, Juliana de Sousa Mascarenhas, e com ela teve dois filhos: Ana Mascarenhas Gonzaga e Alexandre Mascarenhas. Faleceu no exílio, em 1810, aos 66 anos.

A formosa pastora Marília permaneceu fiel a seu amor e morreu, idosa e solteira, no casarão de Vila Rica, em1853, aos 86 anos de idade.
O casal hoje está sepultado no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

Leia abaixo trecho de um dos apaixonados poemas de Gonzaga a Maria Doroteia.

Os teus olhos espalham luz divina,
a quem a luz do sol em vão se atreve;
papoila ou rosa delicada e fina
te cobre as faces, que são cor da neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! não, não fez o céu, gentil pastora,
para glória de amor igual tesouro!
    Graças, Marília bela,
    graças à minha estrela!

Leia aqui a obra completa de Gonzaga.

 

18. O Guarani, de José de Alencar. Poucos são os que atualmente dão valor ao nosso maior prosador romântico. Mas Alencar tem virtudes imorredouras. É o primeiro de nossos escritores a pensar um projeto de literatura genuinamente brasileira, no qual o país – que há pouco tempo havia se tornado independente de Portugal – pudesse erigir as bases de sua identidade.

Como todos sabem, O Guarani, idealiza a figura indígena, mas permite leituras mais profundas, inclusive na engenhosidade de converter os personagens em símbolos das culturas que se aproximavam no Brasil nascente: a européia e a indígena. Há o homem nativo cuja postura choca – os índios Aimorés, antropófagos e violentos; há um português herdeiro dos avanços culturais, um cavalheiro honrado, que é D. Antônio de Mariz. Peri é o positivo traço de união entre esses dois mundos, um homem puro, dotado de bondade e coragem, que também domina a natureza e os conhecimentos ancestrais. Ele derrota e humilha o vilão Loredano, que representa o aspecto da deslealdade e da ambição do europeu na nova terra. Alencar repete a simbologia no cenário ao pôr a construção de pedras da residência Mariz encravada na exuberante natureza do Brasil.

Peri poderia ser, ainda hoje, nosso herói nacional. Não é ele a perfeita imagem de um super herói contemporâneo, que arranca árvores, enfrenta sozinho numerosos inimigos e ama a sua dama Cecília a ponto de arriscar tudo por ela? Do Rio de Janeiro do século XVII (em que está ambientado o romance) direto para os nossos dias.

Quem melhor traduziu Alencar foi o maestro Carlos Gomes, que se baseou no romance para compor sua ópera Il Guarany. Esta estreou no famoso Teatro Scala de Milão, em 19 de março de 1870. O sucesso foi imediato e até hoje é encenada, tendo sido cantada por alguns dos maiores cantores de ópera do planeta. A esplêndida abertura é um tesouro musical e uma das peças mais conhecidas, por ser o tema do programa de rádio A Voz do Brasil. Mas ouça também a Cavatina de Cecilia e Sento una forza indomita.

Além de O Guarani, vale a pena revisitar a obra completa de Alencar, cujos ensaios, crônicas, romances e peças de teatro revivem o nascimento de uma nação. Da doce Iracema à obstinada Aurélia, de Senhora, José de Alencar nos presenteia com histórias envolventes e descrições preciosas da natureza.

Clique aqui para ler a obra completa de José de Alencar.

Ouça aqui O Guarani, de Carlos Gomes.

 

Bandeira retratado por Cândido Portinari.

19. Manuel Bandeira. A poesia de Bandeira tem faces diversas. Por vezes há  simplicidade, lirismo, ternura e suavidade. Em outros momentos, uma sensualidade feroz e libertina, que é bem traduzida em um de seus versos (“Estou farto do lirismo comedido, do lirismo bem comportado”). Por vezes a doença, o medo e a expectativa da morte; em outros momentos a mais frenética alegria. E surge, em muitas ocasiões, uma ironia e um sarcasmo inesperado. Coisa de quem viveu muito e de quem provou todos os gostos da vida.

O texto multifacetado espelha a vida deste escritor que se equilibrou entre uma doença grave (a tuberculose) e uma vida secreta de aventuras, paixões e arte. Esse paradoxo também se encontra na forma que ele utiliza para os poemas: o mesmo autor que se iniciou na literatura com perfeita métrica e sonetos em rimas ricas também escreve em versos brancos, livres e trovinhas.

Um de seus poemas que mais me comovem é O Pardalzinho, que eu recitei para meu pai no dia em que ele morreu (leia abaixo). De seus livros, recomendo Cinza das Horas, Carnaval, Libertinagem (em que aparece poemas como “Vou-me embora pra Pasárgada“), Ritmo DissolutoEstrela da Manhã e Lira dos Cinquent’anos. Se tiver de escolher apenas um, que seja Libertinagem, livro de plena maturidade, formas modernistas e temas bem elaborados.

Quatro Poemas de Manuel Bandeira para iluminar o seu dia:

O Pardalzinho

O pardalzinho nasceu

Livre. Quebraram-lhe a asa.

Sacha lhe deu uma casa,

Água, comida e carinhos.

Foram cuidados em vão:

A casa era uma prisão,

O pardalzinho morreu.

O corpo Sacha enterrou

No jardim; a alma, essa voou

Para o céu dos passarinhos!

Pneumotórax

Pneumotórax Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

– Diga trinta e três.

– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…

– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos

Ganhei um porquinho-da-índia.

Que dor de coração me dava

Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele pra sala

Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos

Ele não gostava:

Queria era estar debaixo do fogão.

Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

– O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

20. Macunaíma, de Mário de Andrade. Dá para ouvir até hoje as risadas de Mário de Andrade enquanto ele escrevia a rapsódia que denominou Macunaíma. Sem dúvida, é o mais provocador e jocoso retrato do Brasil, com seus encantos e malandragens, materializadas no bordão “— Ai! que preguiça!. . .”. Macunaíma é não só a obra-prima de Mário de Andrade, é a reunião de todos os saberes, lendas e mitos que o escritor colheu em suas andanças e viagens pelo país. Também ali estão presentes sua poderosa bagagem intelectual e sua capacidade de reinventar a língua pátria e de compreender as camadas sutis do ethos nacional.

Não deixe de prestar atenção na construção do texto e, particularmente, no tão falado momento de ruptura, o capítulo 9, a Carta às Icamiabas, em que o escritor simula a empolada linguagem castiça que os modernistas criticavam.

Mário de Andrade descobriu o nome Macunaíma, em uma coleção de mitos indígenas publicada pelo etnógrafo alemão Koch-Grünberg. Note que, no final do texto, se descobre que a história de Macunaíma é preservada por um papagaio, companheiro do herói, que “tudo contou pro homem e depois abriu asa no rumo de Lisboa”. E o homem é Mário de Andrade, minha gente, que ficou pra nos contar a história.

No enredo, Macunaíma, “herói sem nenhum caráter”, índio da tribo tapanhuma, nasceu no fundo do mato-virgem, era muito feio e tinha dois irmãos, Maanape e Jiguê. Vivia às margens do rio Uraricoera, na Amazônia. Desde cedo mostrou-se pequeno era preguiçoso, manhoso, matreiro e mentiroso. Sexo era sua atividade e vocação. Com tal personalidade, foi abandonado na mata pela mãe. Ali, a cotia fez seu corpo crescer, com exceção da cabeça. Adulto, mata a mãe acidentalmente e, assim, decide sair pelo mundo com os irmãos. Macunaíma casa-se com Ci, a mãe do mato, e se torna o Imperador do Mato Virgem. E a história segue longe, muito longe, até São Paulo, até as estrelas.

21. Gregório de Matos Guerra. Poeta dos bons, expoente do barroco e boca de brasa (ou do inferno, como queiram). Com o mesmo talento com que escrevia poemas de amor ou para o menino Jesus, descrevia as mazelas da política baiana. O que mais impressiona é notar que, quase 400 anos depois, a Bahia se tornou o Brasil.

Que falta nesta cidade? … Verdade.
Que mais por sua desonra? ... Honra.
Falta mais que se lhe ponha? … Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade, onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste socrócio? … Negócio.
Quem causa tal perdição? … Ambição.
E o maior desta loucura? … Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são meus doces objetos? … Pretos.
Tem outros bens mais maciços? … Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos? … Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao demo o povo asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos? … Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas? … Guardas.
Quem as tem nos aposentos? … Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
E a terra fica esfaimada,
porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda? … Bastarda.
É grátis distribuída? … Vendida.
Que tem, que a todos assusta? … Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia? … Simonia.
E pelos membros da Igreja? … Inveja.
Cuidei, que mais se lhe punha? … Unha.

Sazonada caramunha!
Enfim, que na Santa Sé
O que se pratica, é
Simonia, inveja, unha.

E nos frades há manqueiras? … Freiras.
Em que ocupam os serões? … Sermões.
Não se ocupam em disputas? … Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões, e putas.

O açúcar já se acabou? … Baixou.
E o dinheiro se extinguiu? … Subiu.
Logo já convalesceu? … Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, e morreu.

A Câmara não acode? … Não pode.
Pois não tem todo o poder? … Não quer.
É que o governo a convence? … Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre
Por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence!

GLOSSÁRIO:

Socrócio – aperto, ambição; furto.
Círios – sacos de farinha (a grafia correta é sírios)
Simonia – venda de coisas sagradas.
Unha – roubalheira; avareza; tirania, opressão.
Sazonada caramunha – Experimentada lamentação! (Soares Amora). A expressão tem sentido ambíguo. Sazonada é derivado de sazonar e equivale a amadurecida. Caramunha pode ser “a cara das crianças quando choram” ou a “lástima pelo próprio mal que se causou”.
Manqueiras – Vícios, defeitos; doença infecciosa no homem e em certos animais.

22. Graciliano Ramos. Vidas Secas. Publicado em 1938, retrata a vida miserável de uma família de retirantes – o vaqueiro Fabiano, sua mulher, Sinhá Vitória, e os dois filhos – que foge da seca. A obra é um dos expoentes da fase regionalista do Movimento Modernista.

Graciliano Ramos traduz a aridez que fustiga o nordeste e as vidas de seus personagens valendo-se de um estilo igualmente seco, com raros adjetivos e advérbios. À exceção do primeiro capítulo, Mudança, e do último, Fuga, os demais 11 capítulos podem ser lidos em qualquer ordem, pois espelham momentos variados da caminhada. Um dos personagens mais interessantes é a cadelinha Baleia: tratada como membro da família, ela pensa e sonha e como se fosse humana. Em contrapartida, Graciliano Ramos retira dos personagens humanos a habilidade de se comunicar, num indício da miséria como animalizadora das gentes.

Não há como ler esse romance sem engolir em seco. É um retrato da miséria mais crua, da secura que alcança as almas. Há nele uma dor tão explícita que faz o leitor se encolher perante essa realidade crua que o livro o obriga a enxergar.

23. Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Publicada em 1954 e encenada com grande sucesso tanto no Brasil como no exterior, a obra tem a forma de auto, que tem origem medieval e caráter popular. As repetições de palavras e de versos dão um ritmo e um efeito especial ao texto. Morte e Vida Severina combina a simplicidade da forma a belas  imagens visuais.

Nela, o autor percorre o itinerário do retirante nordestino, Severino, que parte do sertão paraibano em direção ao litoral. Está em busca de sobrevivência, foge da seca e das precárias condições de vida. Pelo caminho, ao longo de 18 trechos Severino vai encontrando outros personagens e histórias tão severas e sofridas quanto as suas.

Esse belo trecho que você lê abaixo  – enterro do trabalhador –  dá a medida do poema magistral:

Essa cova em que estás,  

com palmos medida,

é a cota menor

que tiraste em vida.

— É de bom tamanho,

nem largo nem fundo,

é a parte que te cabe

neste latifúndio.

— Não é cova grande.

é cova medida,

é a terra que querias

ver dividida.

— É uma cova grande

para teu pouco defunto,

mas estarás mais ancho

que estavas no mundo.

— É uma cova grande

para teu defunto parco,

porém mais que no mundo

te sentirás largo.

— É uma cova grande

para tua carne pouca,

mas a terra dada

não se abre a boca.

— Viverás, e para sempre

na terra que aqui aforas:

e terás enfim tua roça.

— Aí ficarás para sempre,

livre do sol e da chuva,

criando tuas saúvas.

— Agora trabalharás

só para ti, não a meias,

como antes em terra alheia.

— Trabalharás uma terra

da qual, além de senhor,

serás homem de eito e trator.

— Trabalhando nessa terra,

tu sozinho tudo empreitas:

serás semente, adubo, colheita.

— Trabalharás numa terra

que também te abriga e te veste:

embora com o brim do Nordeste.

— Será de terra

tua derradeira camisa:

te veste, como nunca em vida.

— Será de terra

a tua melhor camisa:

te veste e ninguém cobiça.

— Terás de terra

completo agora o teu fato:

e pela primeira vez, sapato.

 — Como és homem,

a terra te dará chapéu:

fosses mulher, xale ou véu.

— Tua roupa melhor

será de terra e não de fazenda:

não se rasga nem se remenda.

— Tua roupa melhor

e te ficará bem cingida:

como roupa feita à medida.

— Esse chão te é bem conhecido

(bebeu teu suor vendido).

— Esse chão te é bem conhecido

(bebeu o moço antigo)

— Esse chão te é bem conhecido

(bebeu tua força de marido).

— Desse chão és bem conhecido

(através de parentes e amigos).

— Desse chão és bem conhecido

(vive com tua mulher, teus filhos)

— Desse chão és bem conhecido

(te espera de recém-nascido).

— Não tens mais força contigo:

deixa-te semear ao comprido.

— Já não levas semente viva: t

eu corpo é a própria maniva.

— Não levas rebolo de cana:

és o rebolo, e não de caiana.

— Não levas semente na mão:

és agora o próprio grão.

— Já não tens força na perna:

deixa-te semear na corveta.

— Já não tens força na mão:

deixa-te semear no leirão.

— Dentro da rede não vinha nada,

só tua espiga debulhada.

— Dentro da rede vinha tudo,

só tua espiga no sabugo.

— Dentro da rede coisa vasqueira,

só a maçaroca banguela.

— Dentro da rede coisa pouca,

tua vida que deu sem soca.

— Na mão direita um rosário,

milho negro e ressecado.

— Na mão direita somente

o rosário, seca semente.

— Na mão direita, de cinza,

o rosário, semente maninha,

— Na mão direita o rosário,

semente inerte e sem salto.

— Despido vieste no caixão,

 despido também se enterra o grão.

— De tanto te despiu a privação

que escapou de teu peito à viração.

— Tanta coisa despiste em vida

que fugiu de teu peito a brisa.

— E agora, se abre o chão e te abriga,

lençol que não tiveste em vida.

— Se abre o chão e te fecha,

dando-te agora cama e coberta.

— Se abre o chão e te envolve,

como mulher com que se dorme.

Leia aqui a obra na íntegra

24. O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Peça clássica do teatro brasileiro, em forma de auto, tem três atos, tornou-se minissérie de televisão e ganhou duas versões para o cinema.

É um drama nordestino, que une elementos da literatura de cordel a histórias e personagens medievais, numa vívida tradução da cultura popular, com suas crenças, falares característicos, religiosidade e leveza.

Abordando temas universais – como a ganância, a crueldade e a usura – por meio de personagens populares e leve comédia, oferece uma visão ingênua e simples da religião, na qual se tem profunda intimidade com Deus. Os pecados são punidos com rigor mas atenuados pela misericórdia de uma divindade bondosa, Nossa Senhora, que intervém junto a seu filho em favor dos homens falíveis. Os inesquecíveis João Grilo e Chicó são os personagens principais.

 

25. A Bagaceira, de José Américo de Almeida. Publicado em 1928, é considerado o marco inicial do romance regionalista no  Modernismo brasileiro. O enredo central gira em torno de um triângulo amoroso. Soledade, retirante da seca, chega junto com sua família ao engenho Marzagão, de Dagoberto Marçau, e se apaixona pelo filho deste, Lucio, um homem honrado e leal. Lucio quer se casar com Soledade, mas tão logo se retira para completar os estudos na cidade, perde a moça para o próprio pai, que a estupra.

A trama do romance revela uma intenção pedagógica, que acaba por sacrificar um pouco a literatura. Entretanto, revela com exatidão os dramas humanos que atingiam os retirantes fugitivos da seca. O título do romance refere-se ao local em que se juntavam os bagaços da cana e atraíam os sertanejos.

26. Os Sertões, de Euclides da Cunha. Obra publicada em 1902, Os Sertões é um misto de literatura, relato histórico e texto jornalístico. É uma resposta realista e pessimista às visões ufanistas do Brasil muito em voga na época, particularmete o livro do Conde Afonso Celso Porque me Ufano do Meu País (leia aqui).

Em 1897, Euclides da Cunha havia sido enviado pelo jornal O Estado de S. Paulo, como correspondente, para fazer a cobertura do conflito que ocorria no arraial de Canudos, liderado por Antônio Conselheiro. Ao voltar,  escreveu seu livro. Dividido em três partes – A Terra, O Homem e A Luta – Os Sertões ganhou status de obra literária em virtude do estilo apurado e impecável de Euclides.

A primeira parte – A Terra – é uma espécie de estudo geográfico-literário nos quais Euclides descreve minuciosamente o sertão. Ao invés de simplesmente descrever o ambiente, o autor inova esteticamente ao emprestar um ritmo peculiar ao texto técnico-científico. As frases são construídas de tal forma que são a impressão de entrada no sertão. A segunda parte – O Homem –  tem ares de estudo antropológico do homem do sertão..

A Luta, terceira parte do livro, expõe as diferenças entre as cidades do litoral, mais desenvolvidas, e o interior do Brasil, então muito atrasado. De início, Euclides da Cunha, vindo da cidade, enxerga o movimento do arraial de Canudos como uma revolta, mas sua visão aos poucos se altera, à medida em que ele passa a compreender o “mundo” sobre o qual escrevia.

Leia aqui a obra na íntegra. 

27. Lima Barreto é um dos mais importantes escritores brasileiros. Sua escrita é um retrato preciso e irônico da sociedade brasileira – particularmente fluminense – do início do século XX.  Tudo embalado em um texto ágil e envolvente. As expressões correntes, as máscaras sociais e as práticas cotidianas estão traduzidas em obras essenciais como O Triste Fim de Policarpo Quaresma e O Homem que Sabia Javanês.

Destaco Recordações do Escrivão Isaías Caminha, que narra a história de um culto e refinado mulato que não consegue se inserir na sociedade como jornalista por ser violentamente discriminado por sua cor. Parece a biografia do poeta Cruz e Souza mas é uma autobiografia literária de Lima Barreto. Uma narrativa sobre o preconceito racial no começo do século XX. A obra também é um marco da ;literatura por fazer a passagem da escrita formal para a linguagem solta e real das ruas do Rio de Janeiro de então. Na mesma linha, o póstumo e inacabado Cemitério dos Vivos é leitura obrigatória.

Leia aqui a obra completa de Lima Barreto 

28. Jorge Amado. Gabriela, Cravo e  CanelaO romance é um divisor de águas na produção literária de Amado que até então era militante do Partido Comunista e abordava predominantemente temas sociais. Ao ter seu mandato de deputado cassado em 1948, Amado foi para a França, onde passou a cumprir uma agenda de compromissos políticos, como comícios, assembleias, palestras e entrevistas. Acabou banido por ter ajudado o poeta chileno Pablo Neruda, também comunista exilado, a entrar clandestinamente no país. Neruda chegou a Paris escondido no porta-malas do carro de Amado e a França não perdoou.

Na antiga Tchecoslováquia, onde passou a viver, e em visita a outros países comunistas, Jorge Amado – cujo talento já era reconhecido – teve contato com as informações sobre os crimes de Josef Stálin, a quem até então admirava com fervor. Desencantado, voltou para o Brasil, abandonou a militância, afastou-se do Partido Comunista e mudou completamente o estilo literário. Passou a adotar a crônica de costumes, com muitos tipos populares. Seus romances ganharam um tom sensual, colorido, vívido e pitoresco, com enredos mais sólidos e histórias atraentes.

O primeiro livro dessa fase – na qual Jorge Amado foi consagrado e recebeu diversos prêmios – é justamente Gabriela, Cravo e Canela, datado de 1958. O romance narra, na década de 20, em Ilhéus, a paixão entre o comerciante Nacib e Gabriela, uma bela retirante que chega à cidade. O pano de fundo é a produção de cacau na Bahia e as figuras típicas da sociedade de então, como exportadores, coronéis, prostitutas e jagunços.

Sucesso imediato, o romance teve lançada a sua sexta edição no mesmo ano. Em 1959, ganhou cinco prêmios, incluindo o Prêmio Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro, e o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Até hoje é o mais traduzido livro de Jorge Amado.

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