E a vida segue calma em Montreal

Aqui no Quebec a vida segue calma. Acordo muito cedo, em torno de 5h30 da manhã. Leio, atualizo o blog, tomo o café da manhã e trabalho no livro até as 16 horas. Durante o dia inteiro, completa paz, silêncio e chá preto. No fim do dia, uma hora de yoga. Preparo o jantar e espero Alex chegar da Universidade, enquanto dou uma rápida olhada nas redes sociais e nos sites de notícias.

Ontem, a única alteração digna de nota foi a energia elétrica, que sumiu no meio da tarde. De imediato olhei para o casaco, anotei mentalmente onde estavam minhas botas e, dramaticamente, me imaginei sendo encontrada daqui a 800 mil anos sob um bloco de neve, abraçada a vários livros. Alarme falso. A energia voltou em menos de 30 minutos. Os bombeiros vieram e resolveram tudo, com a maior tranquilidade e eficiência.

Passei o resto da tarde meditando em torno do vento que arranca poeira de neve ao soprar entre as árvores e fantasiando sobre os carros dos vizinhos, que parecem cobertos de sorvete ou de glacê.

Não posso deixar de registrar que essa janela que o computador abre em direção ao Brasil é um contraste violento com a serenidade que desfruto atualmente. Noto que, na minha terra tão querida, a cada dia há um alvo diferente para raiva e reclamação.  Se essa raiva acontece nas redes sociais canadenses, prefiro nem saber. Já me basta testemunhar o que ocorre no meu próprio país.

Nevou. De novo. Que novidade.

Ontem a temperatura chegou a -13 e nevou bastante. A rua está branquinha (clique na foto e veja a diferença entre esta imagem e a do post anterior), a neve se aninhou na curva dos galhos das árvores peladas e os esquilos desapareceram (devem estar dormindo). Ainda não estou aqui o tempo suficiente para odiar a neve (e isso também ocorre porque trabalho no calorzinho agradável de casa), mas os canadenses e outros povos que convivem a vida toda com ela costumam chamá-la de white shit (se não sabe inglês, traduza no Google: esse é um blog de respeito e não ofendemos nem a neve). Para mim, a neve é a paisagem de sonho na janela.

Mas é claro que a neve é um risco. As calçadas ficam muito lisas e as quedas são frequentes. O professor orientador de meu marido já o advertiu que o tombo é inescapável: “Você vai cair. Durante algum tempo será cuidadoso, evitará os tombos piores mas, quando ganhar confiança, ploft!“. Dada a expertise desse canadense da gema, jamais subestimo a capacidade da calçada gelada me derrubar. Além da neve tem a freezing rain, que deixa uma camada de gelo super escorregadia na calçada. Freezing rain (chuva congelante) é o nome dado à chuva que cai quando as temperaturas estão abaixo de zero. As gotículas líquidas tornam-se super resfriadas e congelam após o impacto com qualquer superfície que encontram: solo, árvores, fios elétricos e automóveis. O gelo resultante, chamado esmalte, pode se acumular a uma espessura de vários centímetros e cobrir todas as superfícies expostas. É como azulejo ensaboado. Pisou, ploft!

Finalmente ouvi barulho: os carros que retiram a neve das ruas e calçadas deram o ar de sua graça. Fazem um ruído incômodo.

Pela manhã, as lixeiras externas estavam completamente cobertas, bem como a nossa sacada e as escadas. A solução é limpar mesmo. Não existe a possibilidade de esperar a neve derreter. Todo mundo cuida do seu espaço e se alguém cair e se machucar por causa da neve acumulada na sua calçada, a responsabilidade é sua.

Ao alugarmos o apartamento, a proprietária nos presenteou com uma pá. Entendemos de imediato o recado delicado.

O que aprendi hoje: Os canadenses são obcecados por comentar o tempo. Meteorologia é o esporte nacional, tenho certeza. Mal você conhece alguém e, esteja certo, virá um comentário sobre o tempo. Mas se diz que é do Brasil, ninguém lhe pergunta sobre impeachment, Odebrecht ou corrupção. Você diz “sou brasileiro”e  lá vem a pergunta fatal, atrelada a um certo ar de invejinha disfarçada: “Não tem neve lá no seu país, né?”

Comida! (2)

Como é comum nos países do hemisfério norte, as frutas vermelhas são mais doces, maiores e muito mais baratas que no Brasil. Aquelas cerejas, framboesas, morangos e mirtilos caríssimos são facilmente encontráveis aqui a preços excelentes (variam entre 0,75 e 2 dólares a caixa, que é duas vezes maior do que as brasileiras). Fui bisbilhotar nos rótulos: tudo importado dos Estados Unidos, México e do sul-americano Chile. Dou um prêmio se você adivinhar a razão de pagarmos tão mais caro.

Os produtos também vêm em embalagens bem maiores que no Brasil. O pote de manteiga de amendoim é o triplo do tamanho do nosso, bem como o de iogurte grego. O leite é vendido em uma sacola com quatro litros e o pão de forma é uns 20% maior. Para nossa surpresa, o açúcar vem em uma caixa tipo longa-vida e os sucos em embalagens de dois litros.

O que aprendi hoje: Mâche, aquela folha verde da qual falei no post anterior, fica ótima com limão siciliano, sal e azeite; molho italiano; molho de iogurte, molho vinagrete, mostarda. Mas também fica muito bem sem nada. Eu poderia viver de mâche.

Aluguel fácil

Alugamos o apartamento muito facilmente. Encontrei o lugar em um grupo do Facebook. Contactei a proprietária e agendei uma visita. Minha nora inspecionou e disse que as fotos correspondiam à realidade. Assinamos o contrato em menos de 15 minutos. Não se exige fiador e não há burocracia. Pagamos com cheque.

O aluguel gira em torno de 2 mil reais. O lugar é pequeno, mas está localizado em um bairro excelente, próximo a restaurantes, supermercados, farmácias e lojas. O apartamento já tem instalados máquina de lavar e de secar roupas, um microondas, armários de quarto e de cozinha, fogão elétrico e geladeira. Todos novos e funcionando perfeitamente. A energia elétrica é à parte e custa aproximadamente 70 dólares canadenses.

O que aprendi hoje: A facilidade e a ausência de burocracia são, obviamente, o resultado dos esforços de uma comunidade em torno da honestidade e de honrar os compromissos assumidos.

E, falando em honrar os compromissos assumidos, veja, abaixo, dois vídeos de Alexandre limpando a neve da sacada e das escadas. Em Roma, como os romanos.

Sacada:

 

Escadas:

4 comentários em “E a vida segue calma em Montreal

  • fevereiro 7, 2017 em 9:39 pm
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    Minha querida Minduim, que delícia ler o teu blog. Me faz lembrar muito meus primeiros dias quando vim morar na Inglaterra pela primeira vez em 1997. Ainda amo o inverno, acho que esse amor não vai diminuir nunca kkk. Não aguentei de rir quando li o trecho “De imediato olhei para o casaco, anotei mentalmente onde estavam minhas botas e, dramaticamente, me imaginei sendo encontrada daqui a 800 mil anos sob um bloco de neve, abraçada a vários livros. Alarme falso.” Eu imaginei logo aquele esquilo do filme “Ice Age” que vive correndo atrás da noz dele kkk. Obrigado pela poesia do teu blog de todo dia. Estou viajando contigo. Um grande beijo 😘😘😘

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    • fevereiro 12, 2017 em 8:59 am
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      Hahahahahaha, ri alto com o esquilo de Ice Age! Beijo, Naomi!

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  • fevereiro 8, 2017 em 2:17 pm
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    Amei. Entre em contato com “Brasileiras pelo mundo”, talvez vc ache interessante. Abraços.

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