De neve e de sol

Fiz uma longa reflexão sobre a neve.

Rebeca, minha nora, me disse que, em geral, aqui em Montreal as pessoas ficam mais introspectivas nessa época do ano. É um tempo para ficar em casa, dar atenção à família e de refletir sobre si mesmo. No verão, quando as temperaturas são dignas de verão carioca, é uma efervescência: churrascos, festas na rua, todo mundo varando as noites.

Até os relacionamentos aqui seguem esse ritmo ditado pela temperatura dos dias. O verão é a época de conseguir um namorado ou namorada. No outono se cultiva esse relacionamento. No inverno, é a consolidação. Quase ninguém se separa no inverno – mesmo porque dá um trabalho enorme fazer mudança a uma temperatura de 20 graus negativos.

Para quem vem de um clima tropical, pode ser mais difícil. Rebeca me fala que sente falta do barulho de insetos e do canto dos pássaros, que é algo muito presente em Brasília. Na capital brasileira, costumamos acordar ouvindo uma sinfonia de passarinhos – joões de barro, pardais, periquitos e até tucanos e corujinhas. De fato, aqui o inverno é solitude, silêncio. Tudo se recolhe, adormece, asserena.

Gostei disso. Deu-me a impressão de que o ciclo da natureza se move e com ele leva os homens. Há um tempo para gastar energia e outro para armazená-la; tempo de plantio e de colheita; de estar fora de casa e de viver dentro dela. Como no texto do Eclesiastes:

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito sob o céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

E não pude deixar de pensar que talvez nos fizesse bem, aí na pátria distante, ter ciclos de vida nos quais pudéssemos nos recolher para nos refazer. Um período de reflexão e calma, antes de emergir para novas lutas.  Hoje, penso eu, estamos afogados por um ritmo frenético, ditado por política, economia, investigações, violência e brigas nos ambientes virtuais. Sem espaço de respiro, sem tempo de apaziguamento, por quanto tempo ainda resistiremos antes de quebrar?

Azul no céu, branco na terra

Ontem fez sol e decidi passear um pouco. A primeira sensação é estranhíssima. Céu azul, sol brilhando. Seu cérebro brasileiro quer acreditar que está quente lá fora. Esqueci até de pôr a echarpe! Abri a porta e uma lufada de ar polar me atirou de volta à realidade. Parecia que papai Noel, dois ursos brancos e um trenó puxado por seis Huskies siberianos tinha me atropelado.

A neve havia derretido um pouco e estava um lamaçal dos mais caprichados. Umas poças cinza-amarronzadas com pedacinhos de gelo sujo boiando. Você coloca o pé na neve derretendo e ploch! Dá mais um passo e splash! Entre plochs e splachs lá fui eu caminhando pela rua escorregadia. No meu ouvido ressoavam todas as advertências: você vai cair, olha o perigo, pode quebrar o braço, cuidado! Seus filhos, o professor do marido, a amiga Mila (do Facebook) e até a voz de sua mãe já falecida surgiram no seu ouvido para dizer: olhe para o chão, criatura!

Invejei a habilidade dos canadenses em caminhar rapidamente entre poças e pedaços de gelo. Eu fui à la tartaruga: devagar e sempre. Não caí, mas notei que meu cérebro brasileiro também relutou muito em afundar minha botinha fashion numa poça de água suja. Não teve jeito. Descobri que ela é impermeável mesmo. A bota chegou em casa sem que uma só gotinha tivesse molhado meu pé. Resisti à tentação de beijá-la.

Não me levem tão a sério!

Coloquei uma foto no Instagram, fazendo uma brincadeira com a neve. Comparei-a a alguns relacionamentos, em que, passado o primeiro momento de encantamento, sobra apenas irritação, sujeira e aguaceiro. Alguns seguidores acharam que eu já estava odiando a neve. Calma, pessoal, não odeio fenômenos naturais. Era apenas uma brincadeira. Não sou do tipo que perde a calma porque está frio, calor ou chovendo.

Prazer, chou frisé.

Descobri uma verdura nova. Chama-se chou frisé (vou traduzir livremente como couve crespa) ou green kale. Uma delícia. Refoguei por 7 minutos com manteiga, um dente de alho, sal e pimenta preta. Ficou excelente. Devidamente aprovada. É muito saborosa. Aqui também é o paraíso dos cogumelos, que se compra fresquíssimos nos mercados. Eu os tenho feito fatiados bem fininhos e flambados.

Comida! (3)

Fui ver, a pedido de meus amigos, o preço das carnes no supermercado. Só identifiquei contra-filé: em torno de 13 dólares o quilo. Prometo me empenhar para descobrir os nomes dos demais cortes. Sou vegetariana e não tenho como comparar os preços daqui com os brasileiros.

A boa notícia é que há comida do mundo inteiro ao alcance da mão. Vi pratos indianos, italianos, tailandeses, franceses e vietnamitas – tudo na prateleira do supermercado.

As porcões são imensas!

Rebeca e o capuccino de Itu

Fui tomar café com a Rebeca em uma cafeteria muito simpática. Serviço rápido e atendentes gentis. Pedimos dois capuccinos. Já estranhei a pergunta da garçonete: na xícara ou na tigela. Oi? Entendi tigela? Sim. Rebeca pediu na tigela média e veio essa maravilha aí da foto. Note também o tamanho do bolo de banana, que tinha quase três dedos de altura. O conceito de “bem servido” foi atualizado.

O que aprendi hoje: Rebeca me explicou que o que vale no Canadá é ser saudável. Então, não há uma preocupação excessiva com magreza. Também notei que, nas ruas, ninguém está interessado em examinar a aparência alheia, julgar como se veste o transeunte ou sequer olhar na direção dos outros. Cada um cuida de sua vida – o que é excelente.

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