Capitão de minha alma

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola de haver perdido aquilo que perdi…

Olavo Bilac (Pássaro cativo)

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René Magritte. O Falso Espelho.

A mente livre me fascina – admito. Tenho um prazer quase voluptuoso ao pensar nesse território único onde sou legislativo, executivo, judiciário e, por vezes, até o poder moderador. Nele, subverto regras, rio de mim mesma, crio sistemas e escrevo a minha própria constituição. Nas estantes invisíveis de minha mente vivem minha família, professores, amigos, os livros de minha experiência e todos os autores que li. Poetas e filósofos, economistas e oradores da antiguidade por vezes se engalfinham e lutam para se sobrepor. Temos ótimos saraus, nos quais as ideias se chocam. Agostinho, Voltaire, Russel e Schopenhauer discutem uns com os outros. Buda, Jesus Cristo e Krishna já foram vistos debatendo com Sam Harris e Dawkins. E Shakespeare já bebeu ótimos vinhos com Woolf, Dostoiévski, Bilac, Camus e Gogol. Mas, no fim de tudo, esses amigos – que me ajudaram a compor quem eu sou e o que penso – cedem espaço para que eu escolha. Ali, o livre arbítrio é lei.

Por isso me causa um certo pesar assistir a esses modernos espetáculos de aprisionamento das ideias. Um desfile de escravos que se arrastam pela vida. Com o espírito preso à noção de que seus únicos donos são magnânimos, recebem, com olhos brilhantes e peito em festa, os pedaços de pão amanhecido que algum poderoso lhes atira. Desconhecem o sabor do pão fresco, recém-saído do forno, e por isso se sentem privilegiados em roer o naco mofado.

Assisto diariamente à necessidade que muitos têm de seguir um guru que lhes determine roteiros de vida e pensamento. É uma gente que não se arrisca ao salto, que não mergulha nas águas agitadas da liberdade nem é capaz de questionar a legitimidade de seus heróis. Entram voluntariamente em jaulas, intoxicados por ideias que não são suas, e ali permanecem. Abrindo mão do autodomínio, dependentes da aprovação de seu grupo, são crianças emocionais. Valem-se de toda sorte de desculpas para se esquivar de tomar uma posição independente. Suplicam por uma bússola humana que lhes entregue um roteiro pronto.

Acostumados ao raciocínio superficial, engolem o que lhes oferecem; tudo lhes vêm pronto e mastigado. Refletir é supérfluo. Duvidar? Pecado mortal.

Nesse grande embate político que assola o país, vejo amigos que se converteram em chicote no lombo dos que pensam diferente. Parte deles é formada por pessoas muito idealistas, com enorme vontade de mudar o mundo e combater as  desigualdades sociais. Na juventude, encontraram professores, livros e políticos que lhes disseram que esse era um sonho possível; que uma sociedade justa, onde todos se fartariam de leite e mel, era absolutamente factível. Jamais cogitaram que a realidade pudesse ser mais complexa do que sonha a sua filosofia; nunca ousaram verificar, na prática, o que aconteceu com os países que implantaram tais ideologias. Permaneceram no sonho, esquecidos que não há refeições grátis e que os revolucionários que eles idolatram também são seres humanos, encharcados de desejos e vaidades, e, portanto, muito vulneráveis aos apelos do poder e – por que não admitir – daquele vil metal que parecem condenar. Faltou-lhes a experiência de George Orwell, que mergulhou profundamente no sonho e, ao emergir, traduziu o fim da inocência em seu monumental 1984.

Orwell, ele mesmo socialista, porém com espírito atento ao que se passava fora do mundo das idéias, detectou o que acontecia na Rússia de Stalin em sua época. Observou a manipulação das mentes mais frágeis, os métodos de convencimento de massas e a postura dos dirigentes do partido que pregavam pobreza e austeridade enquanto se refastelavam em luxo e mordomias. Também identificou a lavagem cerebral que atingia as novas gerações, transformando-as em instrumento dócil do grande comandante, e pôs tudo isso em uma obra que deveria ser obrigatória nas escolas quando se estudasse a história contemporânea: A Revolução dos Bichos.

Extremamente sensível à dor alheia e à exploração desumana dos trabalhadores da Europa em sua época, Orwell não se limitou a debates intelectuais. Ainda na juventude fez sua imersão na pobreza: encarou quinze horas de trabalho brutal em Paris, entre ratazanas, bêbados e a tortura da fome; experimentou a mendicância e os albergues degradantes de Londres. Morreu com o ideal cravado no coração, mas jamais deixou de perceber que alguns que lhe partilhavam os sonhos foram corrompidos pela ambição humana que lhes transformou o ideal inicial em instrumento de benesses pessoais. E desligou-se desses despedaçadores de sonhos. Fez mais: desnudou-os em suas duas obras máximas.

Uma outra parte de meus amigos é formada por pessoas igualmente idealistas, embora se creiam muito práticas e libertas do fanatismo que assola os primeiros. São alvo de outros mestres e outras ideias. Foram seduzidos por argumentações diferentes e desenvolveram fortes barreiras que os tornaram impermeáveis ao contraditório. Também seguem com suas certezas, sem notar que são manipulados pela inteligência e pelo ego monumental de seus gurus.

Estes me lembram porque guardo na alma a filósofa Hannah Arendt, judia alemã que poderia ter optado pela trilha fácil de escrever o óbvio sobre o horror do Nazismo. Mulher admirável, preferiu expor a própria carne ao furor do julgamento coletivo ao revelar nada além do que a verdade que testemunhou no memorável julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém. E o mundo, assim, descobriu a banalidade do mal.

Arendt, Orwell e tantos outros vacinam almas contra as armadilhas sedutoras do maniqueísmo e da adesão incondicional às teses que os poderosos dizem defender. Suas obras destacam, no cenário das ideias políticas, o elemento humano – com suas mesquinhas ambições.

Também eu, ao longo da vida, já acreditei em ideais e pessoas que posteriormente se mostraram indignos. Entendo que isso faz parte do aprendizado da existência. Entretanto, como há, em nossa terra, os que jamais se curvam às evidências. Seguem algemados até hoje. Não importa quanta sujeira emerja, quanta corrupção surja, quantas fanfarronices sejam pronunciadas, quanto ódio seja espalhado – estão lá, firmes, escudados em múltiplas desculpas, adulterando o significado das palavras, cegos ao óbvio. Parecem perdidos. Não conseguem dar o salto em direção a algo novo.

Lamento que entre meus amigos haja os que agem assim, mas deixo-os viver suas escolhas. Compreendo que essa é uma questão pessoal e que o máximo que posso fazer é observar. Mais grave, porém, é quando se acham no direito de patrulhar o pensamento alheio, ditar normas, criticar e cercear a opinião dos outros. Ou pior: desqualificar, apelar para generalizações e agredir. Aí nasce o perigoso ódio que se nutre atualmente da carne brasileira.

Tento buscar a gênese desse sentimento mesquinho, rançoso, que escraviza o país. Em vão. Não decifro essa gente imersa em si mesma, que consome somente o que lhe dizem os semelhantes e, justamente por isso, segue inebriada disseminando suas certezas, convicta de que o papel de herói lhe cabe.

De minha parte, busco observar detidamente os cenários a fim de formar uma opinião embasada e abrir caminho nesse nevoeiro de informações que a política e as redes sociais nos envolvem. Na longa caminhada, a dúvida segue à minha frente, portando a lanterna. Sigo atenta à voz dos filósofos e escritores que, embora não mais caminhem ou respirem, vivem em mim, apontando caminhos de liberdade para esta minha alma indomável.

Alma indomável. Tomo emprestada a expressão do poeta britânico William Ernest Henley, autor de Invictus, o poema que você lê abaixo.

Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável

Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero
Sob os duros golpes do acaso
Minha cabeça sangra, mas continua erguida

Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.

Não importa quão estreito o portão
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino
Eu sou o capitão de minha alma.

19 comentários em “Capitão de minha alma

  • maio 22, 2016 em 9:06 am
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    Não fora minha absoluta dificuldade de seguir gurus iria eleger- te minha guru.
    Além da profunda identidade de anseios e, quiçá, de experiências, tens um, para mim, invejável primor na escrita que derrama ideias numa simplicidade deliciosa. Parabéns!
    Gostaria de te retribuir com as palavras de um professor libertário, Joel Martins, que me marcou profundamente, e que teu texto resgatou da memória.
    “Ser humano é estar em continua situação de escolha, de correr riscos nesta escolha, de assumir compromissos e de sofrer as consequências das escolhas feitas. Sem riscos não há opções significativas para o Ser e sem elas não há liberdade.”

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    • maio 26, 2016 em 12:01 pm
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      Querida Regina, melhor seguirmos juntas, aprendo uma com a outra. Um beijo!

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    • maio 26, 2016 em 12:01 pm
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      Que lindo o seu texto, Fátima. Obrigada por compartilhá-lo.

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  • maio 22, 2016 em 10:29 am
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    Sonia, acho que muitos escreveram nas suas palavras e se redimiram no seu texto. Particularmente sei o preço de trafegar P alma do ser humano e o quanto isto me custou. Sinto tb pelos amigos que refens de sua fragilidade em perceber e admitir os fatos , seguem sós, ainda que cercados por muitos, em seu calvário sem glórias.

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  • maio 22, 2016 em 11:25 am
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    Invejável seu poder de traduzir, na sua escrita, o pensamento de muitos. Parabéns pela clareza de ideias.

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    • maio 26, 2016 em 11:59 am
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      Querido Leandro, muito obrigada!

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  • maio 22, 2016 em 4:50 pm
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    No meu sentir: o texto é esplêndido, lúcido, crítico e nutridor de almas. Muito obrigada, Sonia.

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    • maio 26, 2016 em 12:00 pm
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      Muito obrigada pelas gentis palavras, Regina. Um beijo.

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  • maio 22, 2016 em 7:01 pm
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    Sonia, mais um artigo de arrepiar. Continuamos ainda na caverna, achando que, apenas porque certas sombras parecem mais nítidas, elas são a realidade.

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  • maio 23, 2016 em 9:02 pm
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    Ótimo texto! Foi muito bom te descobrir!

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  • maio 26, 2016 em 8:58 am
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    Sônia, mais um de seus textos fantásticos!
    Quando penso que o último texto seu foi o melhor de todos….no outro dia você apresenta um ainda mais primoroso e arrebatador! Parabéns! Você se supera a cada dia ! E eu fico mais fascinada pelos seus formidáveis textos a cada leitura! Obrigada!

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    • maio 26, 2016 em 11:58 am
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      Muito obrigada por tanta gentileza, Malu.

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  • maio 28, 2016 em 10:57 am
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    Então, Sonia!
    Se vê que nada do que leste, nada do por que passaste foi à toa.
    Teus textos são sínteses fantásticas disso tudo.

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  • julho 23, 2017 em 11:04 am
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    Meu domingo preguiçoso na cama , no frio de Brasilia fica bem mais aconchegante com seus textos.Como sempre, impecáveis !Consigo elaborar melhor os acontecimentos que aqui, às vezes, me nocauteiam ,jogam na lona, quase diáriamente. 0brigada por me oferecer o gelo para amortecer os golpes que recebo com as luvas pesadas das noticias do cotidiano brasileiro. Bom domingo para vc e sua família!

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  • julho 23, 2017 em 5:59 pm
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    Cada vez que leio seus textos, peço aos céus para você ter saúde física e mental por longos anos, pois suas reflexões traduzidas nas escritas, servem como um alento ao espírito, diante da mediocridade e imediatismo em que estamos afundados. Cuide sempre de você alma gentil. Um abraço carinhoso.

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    • julho 30, 2017 em 10:52 am
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      Quanta gentileza. Muito obrigada pelo incentivo. Pessoas como você enchem a minha alma de inspiração.

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