Um novo mundo

Acordei e estava nevando. Uns flocos pequenos caindo do céu se aninhavam no colo das árvores. O chão  se convertendo em tapete branco. Dediquei alguns minutos para ver os flocos flutuarem enquanto ouvia Vivaldi e seu inverno (veja e ouça aqui). Agora sei o que o padre ruivo pensava ao compor essa peça linda.

Há algo de fúria seguida de silêncio e pacificação. Os flocos dançam, alegremente, diante de minha janela. São milhares e até posso ouvir suas risadinhas enquanto escorregam para a terra. Ah, mas quando se depositam nas coberturas das casas, nos corrimões externos e nas calçadas, já não têm identidade.  Unem-se, quietos e silentes, no colo da terra. Adormecem. E com eles tudo em torno.

O que aprendi hoje: Quando neva de noite o céu fica bem claro também. Abro a janela apenas para, ao dormir, ter como última imagem as silhuetas das árvores recortadas contra a brancura das nuvens.

Com licença, cheguei

Tenho um hábito antigo: ao chegar em um outro país, observo como os nativos agem e tento agir de forma semelhante, respeitando as normas de boa conduta locais. Penso que eu sou a estrangeira e, por isso, eu devo me adaptar ao lugar e não o contrário.

Assim, fico sempre atenta ao comportamento dos pedestres, às normas de trânsito e à maneira como as pessoas se portam em supermercados, cinemas e lojas.  Esses pequenos detalhes – como ficar do lado direito da escada rolante para que os apressados usem o lado esquerdo; não ficar parado no meio da calçada ou não deixar para escolher o que vai comprar apenas quando já está no caixa, fazendo o pagamento – são valiosos para não irritar os locais e garantir uma boa convivência. Isso é válido também para o Brasil, mas como não há uma cobrança intensa em torno desses comportamentos em nosso país, a maioria de nós sequer se dá conta do quanto somos invasivos do espaço alheio. Na casa alheia, é diferente.

Ontem, descobri que muitos brasileiros se mostram bastante insatisfeitos com sua vida no Canadá, a maior parte porque simplesmente transpôs sua vida e hábitos para cá. Querem viver aqui exatamente como viviam no Brasil: com faxineira, babá, carro do ano e comendo feijão com arroz todos os dias. Soube de pessoas que, depois de vários anos aqui, praticamente só se relacionam com a  comunidade brasileira, não sabem expressões básicas em francês ou inglês, mal descobriram os produtos locais (pois buscam serviços e compram produtos brasileiros junto à comunidade canarinho) e reclamam muito do frio, além de odiar ter de limpar a neve de escadas, calçadas e do próprio carro.

Por outro lado, há brasileiros extremamente bem adaptados, que estão muito felizes aqui. Acredito que a diferença entre esses dois grupos é que os últimos compreenderam rapidamente que emigrar para um outro país inclui abrir-se para os novos aprendizados e as descobertas do lugar escolhido. O excessivo apego ao Brasil impede de ver as vantagens de viver no Canadá.

Sua vida não é o assunto da temporada

Uma das coisas que mais me agradam no Canadá é a sensação de que aqui ninguém dá a menor importância para a forma como você se veste, seu sotaque ou sua aparência. Observo que, no Brasil e em alguns outros países, há uma espécie de patrulha permanente em torno de roupas, penteados, cor de cabelo ou maneira de falar. No fundo, nada disso é relevante. É apenas um hábito fofoqueiro, no qual a pessoa se compara com outra.

Calefação

É óbvio que adoro viver numa casa quentinha enquanto lá fora faz -20 graus. Entretanto, descobri que a calefação drena muita água do corpo. Acostumada à seca de Brasília, mesmo assim fui surpreendida por um sangramento no nariz logo no terceiro dia em Montreal. Rebeca me deu a dica: beba água o dia todo. Fiz isso, mas fui obrigada a comprar cremes hidratantes mais “potentes” e um óleo para lavar o rosto, já que eu estava literalmente com a pele do rosto totalmente ressecada e ligeiramente ferida. Para piorar, após o banho a pele fica literalmente esturricada. Aceito sugestões quanto a isso que não incluam eu me tornar um Cascão canadense.

Para você ter ideia do quanto a calefação retira água do ambiente, basta saber que os cabelos secam totalmente em menos de 20 minutos e que uma toalha, ao sair da máquina de lavar, fica inteiramente seca em apenas duas horas. .

Comida! (4)

Uma coisa que certamente sentirei saudade é da altíssima qualidade dos produtos alimentícios. Pães, frutas, verduras, carnes – tudo é grande, saboroso, bem embalado, fresquinho. Dá vontade de cozinhar o tempo todo!

A descoberta do dia é que tofu aqui em Montreal alcança patamares nunca antes vistos.

Ontem experimentei esta sobremesa da foto. Delicadíssima, é feita de tofu e coco. O sabor é muito semelhante ao flan.

A ala vegetariana está pensando em fazer uma ode ao inventor da sobremesa.

 

5 comentários em “Um novo mundo

  • fevereiro 11, 2017 em 3:46 pm
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    Nós compramos um umidificador para combater o ar seco. Ajuda bastante.
    A Renata não se desgruda do neti pot dela.

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  • fevereiro 11, 2017 em 4:50 pm
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    Como é lindo este país, a neve, as pessoas, a cultura, tudo me encanta!!!! Estive em Toronto em dezembro e janeiro agora, sofri com a sequidão, eles têm um sistema de repor água no interior das casa, junto com o aquecimento mas não é suficiente, precisa hidratar a mucosa nasal, nas farmácias aí vc encontra esses hidratantes, em jatos contínuos, use várias e várias vezes ao dia, aproveite e compre um umidificador para chamar de seu, vai para o quarto, para a sala, para onde vc estiver, beba água de montão. Nas farmácias encontra hidratantes da linha Cetaphil, da La Roche Posay, para corpo e rosto, banho com sabonete infantil e hidrate-se com o corpo ainda úmido ( o hidratante deve ser usado até 4 minutos após o banho) e seja feliz!!!

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    • fevereiro 12, 2017 em 8:57 am
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      Obrigada pelas dicas, Gloria! E, sim, esse país é maravilhoso. Um beijo!

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  • fevereiro 11, 2017 em 6:25 pm
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    Bem, vc já percebeu a minha assiduidade no seu blog, assim espero. Enquanto os floquinhos dão risadinhas fico pensando em seus desenhinhos, cada um com uma forma. O que eu vim te dizer pode parecer estranho, acredito que acontece quando a gente é tocada pela leitura. Sei que não há glamour, mas aí vai. Estava eu lavando minha área e sabão pra cá e pra lá e tente do manter o equilíbrio, juntando os pés, separando, deixando de lutar e simplesmente deixar e escorregar onde o sabão me conduzir…Bem, imediatamente veio a lembrança o seu texto sobre como caminha na neve, e de repente debaixo do sol de 35 graus me vi escorregando em uma rua qualquer de Montreal, claro, vc estava junto rsrs..Abraços.

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    • fevereiro 12, 2017 em 8:56 am
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      Oi Fátima, adorei ler isso! A literatura tem esse poder encantador de nos fazer caminhar juntos, mesmo que fisicamente tão distantes. Um abraço muito carinhoso e aproveite esse calorzinho por mim! Smack!

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