Arte, arte em toda parte!

Le temps de s’adorer
De se le dir’… Le temps
De s’fabriquer des souvenirs…
(Piaf. Mon Dieu)

Pour toi, mon fils adoré.

A música estava bem pertinho dos ouvidos e do coração. Na segunda fileira de bancos, ouvíamos a respiração dos músicos, acompanhávamos os sorrisos e olhares que trocavam, captávamos quando a melodia escapava dos instrumentos e estendia suas carícias até nós. As notas fluíam pela nave da catedral anglicana Christ Church, em Montreal, visitavam os santos e os escaninhos, salpicando bálsamos na alma da gente. De vez em quando, meu filho se voltava para mim, com os olhos brilhantes e um sorriso feliz e cúmplice. E meu marido apertava meus dedos levemente.

Com cada um de meus filhos tenho uma afinidade diferente. Com o Tarcisio, que vive em Montreal e é um artista, obviamente a conexão se dá também pela arte. Há muitos anos um momento não me fazia tão feliz. Aquele sorriso embalado por música ficará como a primeira e mais doce lembrança desta cidade.

Karim Nasr

A apresentação de Jennifer Thiessen (viola d’amore & viola), Karim Nasr (basset horn & oboé) e Francis Palma-Pelletier (viola da gamba) na Catedral anglicana Christ Church me fez atentar para a extensão da fome artística que senti nos últimos dois anos, quando praticamente todos os espaços culturais públicos de Brasília estiveram fechados. Montreal tem quase um milhão de habitantes a menos que a capital brasileira. Não posso evitar a comparação, desculpem. Nem consigo deixar de constatar a nossa incapacidade de promover arte de alta qualidade na capital da República.

Jennifer Thiessen

Em 2016, no Brasil, meu melhor momento no segmento musical foi assistir a um concerto clássico, a convite do querido Carlos Eduardo Cianflone (Nava), em São Paulo. Ontem, lembrei demais do Nava, que tem toda uma pose de durão mas se derrete nos concertos e aplaude cada peça com uma alegria de menino.

Francis Palma-Pelletier. Foto de Sébastien Ventura

Pensei no meu amigo, emocionado e literalmente arrepiado com a Grande Música, rememorei sua expressão de felicidade quando leva as filhas à Sala São Paulo para as apresentações de música clássica. Senti saudades e lamentei por ele não estar aqui conosco assistindo a três músicos excepcionais, virtuoses e de alta formação, tocando instrumentos barrocos raros em uma igreja do século XIX. Sim, o Nava merecia estar aqui ouvindo Florian Gassmann (Trio D-Dur für Oboe, Viola d’amore und Basso), Giuliani (Trio Nr. 6 D-Dur für Flöte (Oboe), Viola d’amore und Violoncello), Haydn (divertimento für Oboe, Viola und Violone) e Mozart (Divertimenti per corno di basseto, viola e contrabasso, arranjos de Karim Nasr sobre Voi che Sapette, das Bodas de Fígaro).

A propósito, não se cobra ingressos nas igrejas: o público é convidado a doar entre 5 e 10 dólares canadenses (entre 15 e 30 reais) ao final do concerto.

O que aprendi hoje: a anglicana catedral Christ Church é uma jóia de Montreal. Com sua arquitetura neo-gótica, segue impassível entre prédios moderníssimos. No interior, abriga um belo órgão e tem três apresentações de corais todos os domingos, durante os serviços religiosos, além de apresentações musicais como a que assistimos ontem.

Próximo à porta de entrada, uma placa amarela com fotos de casais homossexuais e transexuais convida todos a se sentirem bem-vindos. É que a filosofia desta igreja é focada em demonstrações de amor ao próximo e paz entre os homens. Eles se propõem a ser “um oásis onde se pode experimentar a generosidade divina”.

A catedral também promove encontros com pessoas de outras religiões, a fim de trocar idéias e firmar laços de respeito mútuo. Judeus e muçulmanos já tem datas agendadas para as palestras públicas com a comunidade. Vou assistir!

E tem mais arte!

A vida cultural de Montreal  me promete intensa felicidade nos próximos meses. Na saída do metrô vi cartazes de apresentações do ballet O Lago dos Cisnes e das óperas La Bohème e Don Giovanni. Sem falar que tem um show de Garrou, um cantor canadense que adoro e que tem uma voz poderosa e única (veja-o aqui quando interpretou o corcunda Quasímodo no musical “Notre-Dame de Paris”).  O preço dos ingressos para as peças clássicas varia entre 120 e 190 dólares.

Comida!

Rebeca e a limonada

Fomos no Tsak-Tsak para o brunch de sábado. Cozinha de Madagascar é a inspiração do lugar. Esse prato da foto é o favorito de meu filho (foto retirada do Facebook do restaurante): tem salmão defumado, ovos Benedict, saladinha com molho refrescante de hortelã e pão preto.

O lugar é pequeno e fica bem lotado aos sábados, por volta de meio dia, mas isso não é um problema. A comida é muito boa e o serviço é bem simpático.

Experimentamos “la meilleure limonade au monde” (a melhor limonada do mundo). Deliciosa! O chai indiano e os chocolates quentes são excelentes também. Vale a visita.

O que aprendi hoje: Tem coxinha em Montreal! Calma, pessoal, é o salgadinho! Brasileiros fabricam, claro, de olho no pessoal do banzo! Gostei também do nome da empresa que fabrica a coxinha: Samba!

Ilustração principal: Natureza Morta com Instrumentos Musicais, de Pieter Claesz.

5 comentários em “Arte, arte em toda parte!

  • fevereiro 12, 2017 em 1:19 pm
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    Chorei com a mera descrição do concerto, claro. Obrigado por me levar, no coração, para esta viagem maravilhosa a Montreal!

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    • fevereiro 12, 2017 em 1:23 pm
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      Você sempre está no meu coração, Navinha. Sempre.

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  • fevereiro 13, 2017 em 6:24 pm
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    Que voz maravilhosa!! Obrigada pro me apresentar Garou _/\_/\_

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  • fevereiro 13, 2017 em 7:21 pm
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    Gracias por nos carregar na mochila para ouvir música no ambiente sagrado de Christ Church e depois nos apresentar ao Tsak Tsak. E mais que tudo compartilhar sua felicidade. Beijo!

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