Por uma vida menos ordinária

A experiência de viver em outro país exige que o olho se acostume a novas paisagens e a alma a outros hábitos. Ontem e hoje dediquei algumas horas a observar este novo mundo, a partir de minha janela.

Depois de uma nevasca de dois dias, os esquilos desapareceram completamente, assim como os carros dos vizinhos, que ficaram soterrados pela neve. Durante a manhã, pais levaram seus filhos normalmente à escola, todo mundo saiu para trabalhar, o carteiro passou entregando a correspondência e muita gente levou seus animais de estimação para caminhar. A vida segue normalmente, apesar da neve, do frio e do vento cortante. Se Euclides da Cunha tivesse vindo ao Quebec, em vez de Canudos, certamente diria: o canadense é, sobretudo, um forte.

Espiei pela janela e nossa varanda estava coberta de neve, assim como as escadas e as lixeiras. Alexandre não se intimidou: pegou a pá e foi limpar tudo, seguindo o exemplo geral. Decidi fazer um boneco e Alex gentilmente deixou alguma neve acumulada na sacada para eu brincar. Coloquei no boneco os meus óculos, chapéu carmim, olhos de amora, um Snoopy nos braços, a obra-prima de Ivan Turgueniev (Pais e Filhos) e duas canetinhas, uma normalzinha e outra do van Gogh. Recortei uma boquinha sorridente e voilá: um boneco alter ego. É a minha maneira de reagir com leveza a uma das manias que a maioria de nós carrega: a vontade insana de reclamar das condições meteorológicas. Frio, calor, chuva, ventania são nossos alvos constantes, já reparou?

Enquanto esculpia o meu bonequinho, vi minha vizinha passar 30 minutos limpando a neve de seu carro. Ela fazia isso sem stress ou reclamação. Uma jovem senhora percorria a rua com seu gato preto. Ela “miava”altíssimo chamando o bichano. Miava, nada: ela guinchava de um jeito esquisito. E o gato – enorme, bonitão – parava tudo o que estava fazendo e a seguia, obediente.

Na hora do café da manhã, Alex viu pela janela que um dos meus esquilos-amiguinhos reaparecera e estava tremendo muito no galho de uma árvore. Minha imaginação fértil já foi logo achando que o bichinho estava morrendo, que não estava suportando o frio. E eu me imaginei subindo na árvore, resgatando o esquilo sofredor em meio a cenas de filme (aquelas em que o mocinho sempre acaba pendurado num galho ao cair no abismo). Eu já me via como uma verdadeira Madre Teresa dos Esquilos, colocando uma compressa na testa do bichinho agonizante, quando, de repente, sem mais nem menos, o fingido deu um salto, correu pelos galhos, deu duas cambalhotas, saltou magicamente para a cerca e desapareceu. Tudo à velocidade da luz. Revirei os olhos e voltei a tomar meu chá preto. Francamente…

Pequena crônica do Dia dos Namorados

Amoo-or, sabe que dia é hoje, aqui no Canadá? (ronronando)

Sei, dia 14. (cara de “é dia 14 aqui e no resto do planeta”)

Mas é um dia especial, lembra?

-Sim, é o dia que a gente começou a namorar.

-E o que mais?

-Não sei.

-Dia dos Namorados! São Valentim! A gente vai sair para algum lugar?

-Ah, Bilinho, essa é apenas uma data criada para faturar comercialmente. No fim de semana a gente vai almoçar em algum lugar bacana.

-Tem razão. (sem sofrimento. Obrigada, senhor Buda.)

A arte de manter um casamento é não deixar que os apelos e criações externos sejam mais fortes do que a lógica implacável de seu marido. Levo a sério isso. Seleciono minhas lutas e não gasto energia com bobagem.

Comida! 

Descobrimos um iogurte novo (esse da foto). Amora e blueberry. É bom demais. Categoria rei dos iogurtes. Coloquei umas amoras para combinar!

Aqui também tem uns produtos ótimos, que vêm numas embalagens com rótulos amarelos. Sans nom (Sem Nome).

Pois então: é a marca “Sem Nome”. A manteiga de amendoim deles é muito boa, assim como o parmesão e os tomatinhos em lata. Mas o que eu gostei mesmo foi do nome da marca. Fiquei logo imaginando alguém a perguntar “Qual é a marca do seu molho de tomate favorito?”. “Sem nome!”. “Ah, seu egoísta, se não quer compartilhar a informação, pelo menos seja delicado. Grosseirão!”

Na TV

Descobri um programa de TV muito legal: De Guarde 24/7 na Télé-Québec (clique aqui para ir para o site do programa) que segue o cotidiano agitado de alguns médicos do Hôpital Charles-LeMoyne, em Quebec. Começou em 2015 e parece fazer sucesso – inclusive ganhou prêmios. Hoje assisti a um episódio no qual os médicos acompanhavam pacientes terminais. Era sobre a forma de dar as notícias aos pacientes e às famílias. Um exercício de delicadeza. Havia pacientes serenos, familiares angustiados e gente tomada de surpresa pela possibilidade da morte tão próxima.

Fiquei particularmente comovida com um dos pacientes, por volta de 60 anos, a quem o médico informou que havia metástase. Nada de câmeras invadindo os olhos para detectar lágrimas (como vejo se fazer no Brasil diante de um momento triste ou tenso). O cinegrafista concentrou-se no movimento nervoso das mãos ou no rosto do médico e em seu gesto de estender lenços de papel ao paciente. Depois o médico explicou que não podia omitir a gravidade do caso, mas que deveria dar alguma esperança ao doente, para que ele tivesse forças para enfrentar o longo e difícil período que se anunciava.

Gostei muito. Ganhei material para refletir por muito tempo.

Refugiados

Aqui os jornais e a TV noticiam que uma porção de gente ficou assustada com a eleição de Trump e decidiu fugir para o Canadá. Vários entraram ilegalmente no país e agora terão de enfrentar investigações de seus casos e rigorosa checagem de informações antes que um juiz decida se poderão ficar no país na condição de imigrantes. A lei canadense não permite que sejam considerados aptos a pedir asilo como refugiados os que entram no país pela fronteira com os Estados Unidos.

Uma história me deixou particularmente pensativa (leia aqui o original, em francês): a de Seidu Mohammed e Razak Lyal. Eles atravessaram a fronteira Canadá-EUA, perto da fronteira de Emerson, a pé, durante uma tempestade de neve. Os dois homens, com 24 e 35 anos, respectivamente, vagaram por mais de sete horas antes de um bom samaritano parar e ajudá-los. Estavam vestidos com jaquetas inadequadas, sofreram graves queimaduras e perderam os dedos das mãos. Mesmo assim, estão cheios de otimismo: “Eu me sinto bem. Tudo está bem”, disse Seidu Mohammed, que perdeu todos os dedos. Os médicos poderiam usar os dedos dos pés para substituir os dedos das mãos, mas ele recusou, pois quer ser capaz de jogar futebol.

Razak Lyal também sofreu queimaduras graves. Todos os dedos foram cortados com exceção dos polegares. Ele disse que a dor vale a pena se lhe permitir ter uma vida melhor no Canadá. Ambos tem recebido apoio tanto de canadenses como da comunidade de Gana em Winnipeg. No fim de março a sorte de ambos será decidida em uma audiência.

6 comentários em “Por uma vida menos ordinária

  • fevereiro 14, 2017 em 7:39 pm
    Permalink

    A vida como ela é. Obrigada Sonia, uma delicia ler. Lições de vida desde o esquilo travesso até os refugiados. Obrigada pela notícia do gato. Amei.

    Resposta
  • fevereiro 14, 2017 em 8:36 pm
    Permalink

    A vida de emigrante nunca foi fácil. Eu fico trisye em ver uma história assim. Sem dedos.
    Conheci um dia um menino no hospital do cancer. Ele era muito carente, fora abandonado pela família no Erasto Gaetner. Naquele tempo cancer era sinonimo absoluto de pena de morte. As mãos dele foram amputadas na esperança de salvar sua vida. Tinha tumor nos dois braços. Ele soube desde o primeiro instante que não viu suas mãoziinhas que era um fim. Jamais vi uma criança tão triste em minha vida como ele.

    Resposta
    • fevereiro 14, 2017 em 9:19 pm
      Permalink

      Nossa, que história triste. Pobrezinho.

      Resposta
  • fevereiro 14, 2017 em 8:54 pm
    Permalink

    Só pra variar… AMEI!!!

    Resposta
  • fevereiro 15, 2017 em 5:48 am
    Permalink

    Sônia, que história espetacular essa dos imigrantes!
    Quando me deparo com relatos desse tipo penso que nada sei sobre resiliência, resistência e força física. Admirável. Obrigada!

    Resposta
  • fevereiro 15, 2017 em 9:30 am
    Permalink

    Por conta dos seus relatos, estou quase vivendo aí sem nunca nem ter pensado nisso. Bom dia, amiga!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *