Diário da Crise 29/03/2016

caesar
Morte de Julio Cesar. Vincenzo Camuccini.

“Por que motivo Bruto se levantou contra César? Eis minhas respostas: não foi por amar menos a César, mas por amar mais a Roma”.

William Shakespeare. Julio Cesar

  1. O PMDB levou apenas três minutos para sacramentar o rompimento dos 13 anos de união com o governo federal. Na moção de desembarque, o partido determinou a entrega de todos os cargos em cada uma das esferas da administração pública federal e ameaçou  tomar medidas contra os que permanecerem no governo. O ministro Mauro Lopes (Aviação Civil) deve deixar o governo no máximo até amanhã. Será seguido por Helder Barbalho (Portos) e  Eduardo Braga (Minas e Energia). Só Marcelo Castro (Saúde), Celso Pansera (Ciência e Tecnologia) e Katia Abreu (Agricultura) resistem a deixar os cargos.
  2. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, não escondeu a satisfação com o desembarque. Ele foi o primeiro peemedebista a romper com o governo federal e sempre defendeu que o partido o acompanhasse. Chegou à reunião do PMDB sorridente, abraçou os partidários e ironizou a rapidez do encontro: “Achei até longo. Eu teria feito em um minuto”. O que restou da base aliada governista vingou-se de Cunha gritando palavras de ordem e levando para o plenário da Casa várias faixas pedindo a saída do presidente. Eduardo Cunha permaneceu impassível.
  3.  A saída do maior partido da base aliada foi noticiada, de imediato, pela imprensa internacional: Washington Post, The Guardian, Reuters, Daily Mail, New York Times, Le Monde, La Nación e o Nu.nl.
  4. Frase do Dia, pronunciada por um peemedebista experiente, acerca dos ministros que ficarão até o dia 12 de abril em seus cargos:  “Vamos com Dilma até a porta do cemitério. Mas na sepultura nós não entraremos junto com ela”. Parece ser exatamente o que pensa o presidente do Senado, Renan Calheiros, que hoje disse esperar que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff não chegue ao Senado. Renan não quis explicar o que queria dizer com essa declaração.
  5. Para evitar conflito com o STF, o juiz Sérgio Moro enviou ao ministro Teori Zavascki um ofício de 31 páginas (Leia a íntegra) explicando sobre a divulgação do grampo da conversa entre Lula e Dilma Rousseff.  Admitiu que pode ter “se equivocado em seu entendimento jurídico” ao dar publicidade ao material e ofereceu “respeitosas escusas” à Corte. O juiz destacou que tem agido com “com cautela e prudência” na condução da Lava Jato, garantiu que a divulgação dos áudios de Lula não teve viés “político-partidário” e alegou que a interceptação telefônica estava amparada por lei e tinha como “foco exclusivo” as condutas de Lula e de outras pessoas sem foro privilegiado. Os diálogos com Dilma teriam sido “colhidos fortuitamente”. Leia a reportagem completa no Estadão.
  6. A Comissão do Impeachment vai ouvir, amanhã, os juristas Janaína Paschoal e Miguel Reale Jr., autores do pedido de impeachment da presidente Dilma. Na quinta, será a vez do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, e do professor de Direito Tributário Ricardo Lodi Ribeiro, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, falarem em nome do governo. Hoje, o presidente da comissão, Rogério Rosso, rejeitou uma questão de ordem que visava suspender o processo até que houvesse decisão sobre as contas de Dilma. Leia aqui.
  7. A Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) hoje colocou 5 mil mini patos infláveis em frente ao Congresso Nacional, em Brasília. Os objetos fazem referência à campanha “Não vou pagar o pato”, que critica a alta carga tributária brasileira. O ato também pede o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Leia mais.
  8. Com o movimento pró-impeachment avançando a passos largos, uma das estratégias do PT é atacar ao máximo Michel Temer. A idéia é causar constrangimento e associar Temer ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Durante o dia a hashtag #RenunciaTemer alcançou os top trendings do Twitter no Brasil. O líder do PT na Câmara, Afonso Florence (BA), chamou o vice-presidente de golpista: “Temer posava de jurista e agora é golpista”.
  9. Depois de 33 anos de PT, o senador Walter Pinheiro anunciou hoje sua desfiliação do partido. O requerimento de desfiliação foi protocolado junto ao diretório municipal do PT em Salvador e junto ao Tribunal Regional Eleitoral. Pinheiro não informou para qual partido pretende ir e nem os motivos que fizeram ele decidir pela saída do PT.
  10. Marina Silva comentou o desembarque do PMDB no Facebook. “Em três minutos, apenas três minutos, e por unanimidade dos diretórios presentes, o PMDB abandonou o governo do qual foi o maior sócio e beneficiário nos últimos 13 anos. Nenhuma satisfação à sociedade, nenhum pedido de desculpas por ter sido igualmente responsável por tudo o que levou à situação atual, nenhuma autocrítica, nenhuma proposta. Apenas a jogada política supostamente magistral para tentar se descolar da crise política e reinventar-se como solução. Continua o mesmo e velho PMDB tentando renascer das cinzas da fogueira que ele ajudou a atear”. Os comentadores lembraram Marina de que ela própria também participou do governo petista.
  11. Com a saída do PMDB, o efeito dominó contagiou a base aliada. Espera-se que, amanhã, o PP – que tem 30 deputados pró-impeachment em uma bancada de 49 parlamentares – decida se deixa o governo.
  12. Em manifestação elaborada por advogados da Casa Civil e da Advocacia-Geral da União e hoje encaminhada ao STF, a presidente Dilma Rousseff defendeu a legalidade da nomeação do ex-presidente Lula para a Casa Civil. Afirmou que o conteúdo do diálogo gravado “nada tem de ilegal ou desabonador de sua conduta” e “refere-se “exclusivamente a trâmites burocráticos relativos à prática do ato de posse”. A presidente alega que a argumentação que leva à conclusão sobre desvio de finalidade do ato de nomeação se baseia apenas em meras suposições e afirmações, sem provas. O governo afirma que suspender a posse de Lula pode representar interferência do Judiciário no Executivo.
  13. Ao contrário do que esperava, o mercado teve reação morna ao anúncio da saída do PMDB da base do governo. O Ibovespa subiu 0,62% e o dólar encerrou  em alta de 0,31%, cotado a R$ 3,63.
  14. A presidente Dilma Rousseff cancelou a viagem que faria amanhã para os Estados Unidos, onde participaria da Cúpula de Segurança Nuclear. Com isso, Dilma evita que o vice-presidente Michel Temer assuma a Presidência depois que o PMDB rompeu com o governo.
  15. O ministro da Chefia do Gabinete Presidencial, Jaques Wagner, declarou que a relação do governo Dilma Rousseff com o vice-presidente Michel Temer está “interditada” após a decisão do PMDB de sair da base aliada. Wagner disse  que o desembarque peemedebista “chega em boa hora” porque oferece à presidente uma excelente oportunidade de “repactuar seu governo”. Essa repactuação deve ser anunciada até sexta-feira e passa pela negociação de quase 600 cargos (atualmente indicados pelo PMDB) com os partidos que ainda permanecem na base governista, além de novas siglas.
  16. Alvo de denúncia do Ministério Público de São Paulo ao lado do ex-presidente Lula, todo o primeiro escalão da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop) renunciou coletivamente (Leia aqui). O diretor presidente Vagner de Castro e a diretora administrativo-financeira Ana Maria Érnica são acusados pela Promotoria da prática de 2.364 crimes de estelionato..

     

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *