A gente quer comida, diversão, ballet

Tenho trabalhado no livro. Vê-lo nascer é uma expectativa semelhante à de uma gravidez: entre a angústia e a felicidade, alguns temores e desejos.  Mas hoje vou fazer uma pausa. Pretendo desfrutar de uma apresentação de O Lago dos Cisnes. Já imagino a música de Tchaikovsky escapando dos instrumentos musicais, a leveza das bailarinas, a graça e a força da dança clássica, os cenários exuberantes e ricas vestimentas. E meu coração faz pas de deux com a felicidade antecipada.

Não há como evitar a sensação de que a arte resgata algo de espiritual e puro em mim. Tem a mágica de me transportar para um lugar inalcançável ao humano. Como Shakespeare, como Mozart, como van Gogh.

A vida não pode ser feita apenas de mastigação e sonolência.

Comida!

Ovo carimbado

Abri a caixa de ovos para fazer um omelete e tcharam: um carimbo! Branco imaculado era o ovo, exibindo seu carimbo vermelho ostensivo, um tanto esnobe – admito. Ficamos nos encarando. Ele com cara de “O que foi: nunca viu ovo carimbado, sua bocó?“. Eu com cara de bocó. Larguei o omelete e fui caçar no Google a razão dos carimbos. Descobri que, em 2013, a província de Quebec tornou obrigatório que todos os ovos sejam carimbados para segurança de consumidor e rastreabilidade. Hummm!

As informações são impressas com uma tinta vegetal.  Hummm, chic! Na linha 1 o local de produção e data de expiração do produto; na linha 2 o tipo de ovo especial e o código de identificação do fazendeiro canadense. E mais: é particularmente esperado em Winterfell que ovos orgânicos, especiais, do tipo  Omega 3, Omega Plus, Nature’s Best & friends ostentem o tal carimbo. Equivale mais ou menos a ter sido coletado por brancas mãos impolutas de freiras virgens de algum convento nas Rocky Mountains. Eu estava certa: aquele ar superior do ovo carimbado só podia ser coisa de quem tem sangue, casca, clara e gema azuis. Se ele tivesse sobrancelha, juro que a teria arqueado ironicamente na minha direção. Ainda bem que não o fez, pois me obrigaria a ser grosseira e lembrá-lo do modo como veio ao mundo. Boicotei-o por razões de orgulho.
Na semana seguinte, Alex apareceu em casa com um ovo plebeu canadense calibre gros (o famoso grandão), com cara de lenhador, camisa quadriculada, cheirando a porco assado e barba por fazer. Já foi chegando, jogando as botas num canto e pedindo para ser frito. Não tinha carimbo, claro.
Bagels, comida vietnamita, chá chinês
E o festival de comidinhas anda de vento em popa. Fomos experimentar um restaurante vizinho de nossa casa. Vietnamita de raiz, lugar sem glamour. A comida é deliciosa, embora muito simples. Adoramos.
A comunidade judaica de Montreal tem fama de disputar com a dos Estados Unidos quem faz o melhor bagel da América do Norte. Experimentamos esta semana. Aprovado com louvor. Ponto para os canadenses.
Fui passear com o Daniel Shim – sobrinho e viajante nota mil – no centro de Montreal. O Dani achou uma casa de chá chinesa, a Ming Tao Xuan  e me convidou para visitar o lugar. É tão bonito que dá medo de entrar. Tem aquele excesso de enfeites da China, milhares de xícaras, bules, acessórios e mesinhas de chá, além de estátuas e jóias de jade. Servem a bebida do jeito tradicional, em um pequeno salão lindamente decorado. Temi pelo preço, já que eles tem estampada, logo na entrada, a informação de que vendem as famosas e caras chaleiras de Yixing. Localizada na província de Jiangsu, no leste da China, Yixing possui a que é considerada a melhor argila para fazer chaleiras, por reter com mais eficiência a fragrância do chá. É um objeto de desejo de qualquer amante da bebida.  E elas estavam lá, com seus típicos ornamentos de flores, folhas, galhos e animais delicados.
Suspirei de alívio ao ver os preços: totalmente dentro do padrão da cidade. Pedimos um Pu-Erh, uma espécie de rei dos chás chineses. Foi servido adequadamente, inclusive com a primeira infusão, usada para molhar a xícara, sendo posteriormente descartada sobre a mesinha de chá. A carta de chás da Casa é ampla e de alto nível – pretos, brancos, oolongs, verdes e até os rooibos e infusões para agradar o paladar dos não ortodoxos. Há de tudo: chineses, japoneses, indianos (o Darjeeling com o merecido destaque). Os acompanhamentos são poucos e incluem um cream cheese nada chinês. Como eu estava com fome, pedi um bao-zi vegetariano, com sabor quase inexistente, o que é excelente, já que nada deve atrapalhar a degustação de um pu-erh. Vou voltar.

Ainda é Natal no Québec

Enquanto no Brasil a árvore de Natal dos shoppings começa a ser desmontada tão logo raia o sol no dia 2 de janeiro, em Montreal o clima natalino permanece. Uma porção de residências e casas comerciais ainda está enfeitada. Gosto de pensar que aqui a vida segue um ritmo mais lento, não tão refém do consumo desenfreado que pauta a nossa existência, com seus apelos sucessivos, encadeados e famintos de nosso suor. Natal-Carnaval-Páscoa-Dia das Mães-Dia dos Namorados-Dia dos Pais-Dia das Crianças-Haloween-Natal outra vez. Ufa!

Uma loja medieval

Descobrimos uma loja que me lembrou vários amigos queridos – Águeda, Igor, Rê Siquieroli, Mallen, Karolinne Cruz e Welton. E só por eles escrevi essa resenha. O lugar se chama Dracolite (veja aqui o website deles).  A empresa se intitula boutique medieval, mas a definição é paupérrima para designar a qualidade dos produtos e a criatividade dos artesãos.
Tudo o que se possa imaginar em termos de roupas, jóias, espadas, elmos, manuscritos, copos e pratos de época estão lá. Eu disse de época? Perdão, há réplicas fiéis de armaduras medievais, cotas de malha, adagas, roupas e utensílios domésticos, mas a loja vai além: produz e vende objetos vitorianos, élficos, célticos e vikings. De orelha de elfo a anel de ovo de dragão. Literalmente.

Espadas? Há de todos os tipos e materiais, inclusive peças verdadeiras e exclusivas forjadas na Índia, na China e no Japão por ferreiros que assinam as peças.

Roupas? São desenhadas por modistas e podem ser customizadas. Vestidos dignos de uma produção de Hollywood, além de túnicas, capas, corselets, mantos e – acredite – vestidos de noiva e de convidados de festas de casamento temáticas.
Vimos, ainda, tricórnios, chapéus de mosqueteiro, elmos, arco e flecha, copos em forma de chifre. Em resumo: indescritível.
Fãs de RPG, Game of Thrones, da saga O Senhor dos Anéis, de jogos diversos (como Assassin’s Creed) ou de filmes como Piratas do Caribe encontram ali tudo para viver sua fantasia.
A mim, particularmente, agradou ver a reprodução de uma das tapeçarias mais belas da história: La dame à la licorne (A Dama e o Unicórnio). Quando a vi pela primeira, em Paris, no Museu de Cluny, fiquei sinceramente extasiada.  É uma bela alegoria, datada do século XV, sobre a sedução dos cinco sentidos e a busca da felicidade. Uma peça maravilhosa.
Veja as fotos abaixo, que retirei do site da loja, pois é proibido fotografar as peças.

3 comentários em “A gente quer comida, diversão, ballet

  • fevereiro 24, 2017 em 1:31 am
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    A D O R E I!!!!! Por um mundo com mais ovos carimbados, mais ballet, mais xícaras de chá. Bjo,amada!

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  • fevereiro 24, 2017 em 11:09 am
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    Obrigada por nos proporcionar essa viagem através de você, simplesmente extasiada.

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  • fevereiro 24, 2017 em 2:41 pm
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    Que delicia ler teu diário. É um encantamento.

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