Um violinista sem fronteiras

-Mãe, vamos ver a exposição do Chagall?

O convite do filho – duplamente especial por ser ele um artista – chegou como sopro de ar fresco num dia em que a comédia humana se exibia em episódios cada vez mais despudorados nas redes sociais. E era Chagall! Eu jamais havia visto um quadro dele ao vivo. E isso, bem sei, muda tudo. Sem falar que é o pintor judeu por excelência e eu  ansiava por sentir a alma judaica-russa transbordando nas telas.

Passeamos pela vizinhança do museu, admirando as amplas avenidas, os hotéis de luxo, galerias e lojas de grife. Meio Nova York, meio Paris. Um vento gelado varria as calçadas da cidade. Varria, não: chicoteava. Senti que eu viraria Mary Poppins a qualquer instante, mas Tarcisio impediu o voo e percorremos as calçadas rindo alto, com a ventania revirando nossos cabelos enquanto tentávamos escapar da fina poeira que desejava entrar nos olhos.

Chegamos ao Museu de Belas-Artes de Montreal no fim da tarde. Era o primeiro dia da mostra, que traz, entre os trabalhos expostos, algumas das mais conhecidas obras do artista, como Gólgota, Auto-retrato com Sete Dedos, NascimentoViolinista Verde.  Há, além das pinturas a óleo e gravuras, as ilustrações de Chagall para as fábulas de La Fontaine; os desenhos dele para os figurinos da ópera Aleko, de Sergei Rachmaninoff; e um enorme conjunto de trabalhos para os teatros judeus na Rússia, com marionetes, maquetes, cenários e panos de boca.

Um presente extra: os painéis do teto da Ópera Garnier em Paris, que pela primeira vez estão expostos tão detalhadamente. É uma das realizações mais importantes de Chagall, mas, obviamente, não pode ser retirada, tem raras representações em livros de arte e só pode ser contemplada a uma certa distância.

Assim, a exposição trouxe um filme em que se pode ver o teto em seus menores detalhes. Ao fundo, a música que inspirou o pintor, de 14 compositores, incluindo Mozart (A Flauta Mágica), Bizet (Carmen), Beethoven (Fidelio), Debussy (Pelléas e Mélisande), Ravel (Daphnis e Chloé), Verdi (La Traviata),  Berlioz (Romeu e Julieta), Stravinski (O Pássaro de Fogo), Tchaikovsky (O Lago dos Cisnes) e Wagner (Tristão e Isolda). Projetado em uma grande tela circular, o filme dá a ilusão de estar no local. E não há como ver a profusão de cores sem lembrar do que disse o próprio Chagall sobre a obra: “Eu queria pôr no alto, como um espelho em um ramalhete de sonhos, a criação de atores e músicos. Cantar como um pássaro, sem teoria ou método, rendendo homenagem aos grandes compositores de óperas e de ballets.

Há muitas formas de fruir a arte. Pode-se apreciá-la pelo seu impacto estético, pela conexão que se estabelece com a  obra, pela perícia técnico-criativa de seu autor, pelo vínculo emocional despertado por determinado trabalho ou pela história do artista. Ou um pouco de tudo isso no caso de Chagall. Toda a sua obra é tão profundamente emocional, tão sentida e amorosa, que é um desafio ficar impassível diante dela.

Em cada pintura ele deixou pedaços de sua alma judia. Há uma paleta de cores frescas e cândidas nas telas que evocam a infância na aldeia de Vitebsk. Estão lá os casamentos e festas tradicionais, as vestes dos rabinos, a música klezmer e cada símbolo do Judaísmo cuidadosamente depositado na tela. É um mundo de alegria, povoado por figuras voadoras, namorados que se enlaçam, violinistas nos telhados. Chagall manteve-se ligado à sua cultura e às suas memórias de infância. Essa fase está muito vívida, ainda, na sua arte de aspecto ingênuo, com espontaneidade de traços, desenhos livres e cores puras.

Tudo isso traduz a saudade que estrangulou, durante toda a vida, esse artista tão sensível, tão poeta. Há em várias telas a imagem sombria ou quase transparente do judeu errante, sem lugar, eterno imigrante, escorraçado na terra alheia e alvo de toda sorte de preconceito. O pintor passou a existência como estrangeiro. Depois que deixou sua terra natal, na atual Bielorrússia, viveu na França adotiva e nos Estados Unidos, sempre visitante, sempre exilado. De sólida e familiar, apenas sua herança judaica. Chagall se apegou a ela nos seus 67 anos de produção artística.

Entro na última sala da exposição. Um aposento circular. No centro dele, um violino domina a cena. Cravejado de pedras preciosas, tem no verso uma estrela de David incrustada. Repousa, silencioso, dentro de um quadrado de vidro à prova de balas. Em torno dele, as enormes telas da época em que Chagall viveu em Nova York. Tempos sombrios, de nazismo, de medo e incertezas. A paleta perdeu as cores vibrantes e a dor do artista é palpável. Há anjos e fios de fé, misturados a memórias e a uma esperança medrosa.

Um quadro me chama a atenção. Emana uma tristeza profunda. O fundo é a noite escura. A neve cai sobre casinhas brancas mal esboçadas que parecem estar se apagando da memória. No centro da cena, um enorme relógio de parede. Antigo, de madeira escura com engrenagens douradas, esconde um casal eternamente abraçado. Uma grande asa azul se cola ao corpo desse relógio. No canto esquerdo, um buquê de flores jaz sobre a neve. As flores vermelhas têm aquelas cores brilhantes que sempre me parecem inadequadas diante das lágrimas que caem sobre os túmulos recentes. À esquerda, quase invisível, um judeu errante carrega sua trouxa de roupas às costas. Fantasmagórico, fugidio.

Aproximo-me. Relógio com asa azul é o nome do quadro. Foi pintado após a morte de Bella Rosental, musa e mulher amada, namorada de infância, pedaço da aldeia, também judia. Talvez tenha sido a tremenda solidão do artista ou o lamento de um violino enchendo a sala, mas ali, juntos, eu e Chagall choramos a morte de Bella.

Não será este o objetivo final de toda arte: compartilhar a alma alheia por alguns instantes?

Um hóspede, mesmo se querido, ainda é um visitante. 

Na época em que Chagall era criança, os judeus soviéticos eram  minoria étnica vítima de intensa discriminação. Somente após a revolução de 1917 conseguiram direitos semelhantes aos dos outros cidadãos. O sonho durou pouco. Rapidamente Chagall percebeu que não poderia aderir às regras rígidas da arte ditada pelo Estado soviético. Partiu para a França, onde a criatividade vibrava em liberdade, e naturalizou-se francês.

Já bastante reconhecido, chegou a fazer exposições de sucesso na Alemanha. Porém, tão logo os nazistas assumiram o poder, iniciou-se uma surda campanha contra a arte moderna. Telas expressionistas, cubistas, abstratas e surrealistas eram o alvo preferido. Picasso, Matisse, Cézanne e Van Gogh eram desdenhados. Tornaram-se indesejáveis os intelectuais, judeus, estrangeiros e socialistas. A arte agora era ao gosto de Hitler: realismo alemão tradicional, com pinceladas patrióticas. A partir de 1937, aproximadamente vinte mil obras de museus alemães foram confiscadas como “degeneradas” por um comitê dirigido pelo ministro da Propaganda Joseph Goebbels. E Chagall, antes tão louvado no país, agora era ridicularizado. Uma nota da época descreve assim o seu trabalho: “Uns judeus verdes, roxos e vermelhos mexendo em violinos, voando pelo ar e representando um ataque à civilização ocidental”. 

Telas de Chagall foram incluídas entre as 650 obras da exposição Arte Degenerada (Entartete Kunst), que estreou em Munique em 19 de julho de 1937. Eram pinturas, esculturas, gravuras e livros das coleções de 32 museus alemães,  dispostos em um ambiente intencionalmente caótico.

Havia frases de efeito, textos difamatórios, informações manipuladas e slogans pintados nas paredes a fim de insuflar a indignação dos visitantes. Ao lado das obras havia etiquetas que indicavam quanto dinheiro os museus teriam gasto para adquirir a peça. No cenário de hiperinflação em que a Alemanha estava mergulhada, os preços das pinturas pareciam surreais e, mesmo assim, foram exagerados. A exposição foi concebida para promover a idéia de que o modernismo era uma conspiração judia-socialista de pessoas que odiavam e queriam destruir a decência e a ordem conquistadas pela sociedade alemã.

Apesar da agressão, Chagall estava muito feliz na França, que já considerava sua pátria. Imerso em sua arte, demorou a perceber que o país adotivo estava se aproximando de Hitler e que os judeus franceses corriam o risco iminente de ser enviados para campos de concentração alemães. Logo o governo colaboracionista de Vichy, dirigido pelo marechal Pétain, estabeleceu uma comissão para “redefinir a cidadania francesa” com o objetivo de despojar da nacionalidade francesa os “indesejáveis”, incluindo cidadãos naturalizados. Só em outubro de 1940, depois que o governo francês começou a aprovar leis anti-semitas, Chagall se deu conta da gravidade do cenário. O único refúgio seguro era a América, mas como pagar a passagem para Nova York e a alta soma de dinheiro que cada imigrante tinha de fornecer ao governo dos Estados Unidos para entrar no país? Foi socorrido pelo mundo artístico europeu, especialmente pelo filho de Henri Matisse, Pierre.

Mas Chagall estava de novo em um país estrangeiro, cuja língua não falava. Durante muito tempo sentiu-se perdido num ambiente estranho, convivendo inicialmente com artistas que não entendiam ou não gostavam de sua arte. Baal-Teshuva resumiu o relacionamento inicial em uma frase “Eles tinham pouco em comum com um contador de histórias folcóricas, um judeu russo com propensão para o misticismo“.

Com a ajuda de Pierre Matisse, Chagall começou a se estabelecer em Nova York, a essa época lotada de escritores, pintores e compositores que fugiram da Europa por causa do Nazismo e enriqueciam a cena artística norte-americana. Ele passava o tempo visitando galerias e museus e acabou se relacionando com outros artistas, como Mondrian e André Breton. Também descobriu os bairros judeus de Nova York, especialmente o Lower East Side, onde se sentia em casa, deliciando-se com a comida judia e lendo jornais em iídiche. Não era, ainda, a sua casa, mas ele tentava se adaptar. Foi quando Bella morreu, subitamente. E Chagall mergulhou em profunda depressão. A aldeia natal já não existia, destruída pelos alemães, mas até então com ele estava uma parte da sua terra. Bella Rosenfeld era a personificação e último pedaço de um lugar para sempre perdido.

Ele estava completamente só. Era um visitante querido, mas, ainda assim, um hóspede.

Para saber mais sobre Marc Chagall e conhecer seus trabalhos e exposições pelo mundo, visite o Artsy.

Veja, abaixo, algumas fotos da Exposição Chagall: Colour and Music.

 

 

 

 

 

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